Iemanjá e seus filhos
Carregando o símbolo de grande mãe, Iemanjá é cultuada na praia. O oceano por si só carrega uma representação de vida muito grande, devido à sua diversidade de espécies que não se encontra em nenhum outro lugar; mas, ao mesmo tempo, representa renascimento e transformação, afinal, muitos foram os que morreram em suas águas e ali ficaram, ou utilizaram o mar como rota para diversos lugares. E, sendo o oceano o lugar menos explorado do planeta, nós sabemos muito pouco sobre ele e o que se tem em suas profundezas. Sendo assim, Iemanjá também carrega em si esse grande mistério, as incertezas daquilo que não sabemos ou que não queremos enfrentar.
Em suas imagens, é comum Iemanjá ser representada como uma figura feminina de seios fartos, representando aquela que nutre, aquela que entrega para todos que ama aquilo que tem, que dá tudo de si, todo o seu amor, seu alimento e sua sabedoria. Um símbolo disso é o Itan (uma lenda do povo africano) que conta quando Nanã Buruquê abandona Omolu, seu filho, na beira da praia, por ele possuir muitas chagas. Iemanjá então o acolhe e o cria como se fosse seu. Isso mostra a enorme capacidade de doação e disponibilidade deste orixá e de quem a carrega em sua coroa.
A capacidade de amar e acolher mesmo que aquela pessoa não seja de sua linhagem, de sua família, não faça parte “dos seus”. Um amor que não se importa com o que a pessoa carrega, pois vai além. Esse Itan também nos mostra um segundo lado: a atuação de Iemanjá na transformação do ser. O mar cura, purifica, retira. Omolu renasce em suas águas, pois tem força que só se mostra quando se acolhe o que dói. O mar leva, mas também traz. É preciso coragem para entregar a ele o que precisa ir, e mais coragem ainda para abraçar o retorno que vai nos transformar.
Como a grande mãe, Iemanjá também vai trazer consigo essa natureza da educação e da hierarquia. A mãe que dá, mas também cobra. Para educar é preciso ensinar, impor limites, regras. Os filhos de Iemanjá sabem fazer isso muito bem. Às vezes não para si, pois pecam no cuidado consigo mesmo, mas sabem guiar e aconselhar os outros. O que ocorre, por vezes, é que nesta natureza de querer impor as coisas, os filhos desta mãe se perdem em sua necessidade de controle. Querem controlar pessoas e situações, possuindo muita dificuldade de lidar com aquilo que foge de seus domínios.
Sendo o mar um mistério da noite, que carrega o mistério da lua, Iemanjá irá atuar fortemente na intuição, passando isso para seus filhos. A lua sendo um grande símbolo deste orixá, é importante pensar que esta controla as marés e também rege as nossas emoções. E, assim como as marés estão em movimento constante, movimento este que vai e volta, não seguindo uma única direção, também é normal que os filhos de Iemanjá sigam o mesmo princípio em suas emoções, podendo estas ser instáveis e ocorrer oscilações de humor. Fato este que faz parte da sua essência, mas que deve ser trabalhado.
O oceano é ponto de conexão entre povos e nações. É lugar de partidas e reencontros. É força em abundância na Terra. Tudo isso é Iemanjá. Outro ponto importante é o fato de que quando olhamos para o mar, vemos apenas sua superfície, não conseguindo ver o fundo. Isso também mostra como a força de Iemanjá atua internamente, do que externamente. Ela irá trazer à tona o seu íntimo, pois toda mudança começa de dentro.
Por fim, sempre que entendemos a natureza de um orixá, conseguimos compreender também a natureza de seus filhos (aqueles que trazem aquela força em sua coroa), pois estes herdam aquele elemento que o orixá carrega. Quando falamos em Iemanjá, tendo como seu elemento a água, é natural que seus filhos sejam pessoas aquáticas. Ou seja, o emocional atua muito fortemente nestas pessoas, visto que o campo das emoções é de atuação de Iemanjá. É alguém que tende a carregar uma sensibilidade e uma doçura no cuidado e na forma de amar.
Ter este orixá em sua coroa significa que uma das suas missões nessa vida é aprender a gerir suas relações. Encontrar o equilíbrio entre dar e receber. Iemanjá mexe com os impulsos e seus filhos têm uma tendência a olhar para as situações com um olhar de compaixão, porém, é preciso entender a natureza dos problemas e ter sabedoria para abraçar somente o necessário, sendo o desapego o maior desafio para estas pessoas. É comum que estas pessoas estejam ligadas a causas sociais e tenham uma vida espiritual presente desde cedo, pois possuem o ímpeto de cuidar. São extremamente leais (e cobram que os outros também sejam), pessoas fortes, resilientes e costumam ter muita fé, com essa guiando suas vidas.
Que Iemanjá seja a nossa direção quando estivermos perdidos, seja o colo para nos amparar quando tudo parecer pesado, e que a luz do seu amor nos mantenha protegidos! Odoyá.
Camila de Iemanjá
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