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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Cangaceiros

 Cangaceiros

O arquétipo dos cangaceiros na Jurema carrega uma força extremamente simbólica. Ele não representa apenas figuras históricas, mas um campo espiritual de resistência e sobrevivência. Inspirados no cangaço, esses espíritos trazem a energia do sertão: duro, resistente e verdadeiro.

Esta linha é rara de se ver em casas de Umbanda. Contudo, em nossa doutrina (Umbanda de Jurema), é mais comum de serem vistos pelo fato de termos a influência do catimbó Jurema, e mesmo assim, é raro quando o “Cangaceiro do Capão Comprido” desce em terra. 



Certa vez, foi descrito pela entidade a razão por sua rara aparição, à qual exige muita energia porque leva-se muita energia densa embora. Seu trabalho é voltado para as quebras de demandas e principalmente aquelas que nós mesmo impusemos para a própria mente.

O uso de couro nas vestimentas históricas simboliza proteção, o que também se reflete energeticamente. Sua ligação com o sertão os conecta fortemente com a terra. Na prática espiritual, atuam no corte de demandas pesadas, na proteção espiritual intensa e na quebra de trabalhos negativos. Eles ensinam que a espiritualidade também é força, posicionamento e coragem.


Salmo de Iemanjá


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Sentimentos que conforta

 Sentimentos que conforta

Sábias palavras ditas por Zé Pelintra em uma quarta-feira, no dia 8 de abril, nos trouxeram ensinamentos sobre a grande trajetória de nosso Terreirinho. Ele trouxe uma reflexão poderosa: “Faça sempre o melhor para você e, em tudo o que fizer, busque o melhor. Mas não se prenda ao conforto, pois ele pode impedir o seu crescimento.

Zé Pelintra não falava apenas do conforto externo, dos bens materiais ou da rotina fácil. Ele nos alertava sobre os confortos invisíveis, aqueles que vêm de nossos próprios sentimentos e que nos aprisionam. Sentimentos que nos fazem recuar, travar e nos impedem de viver o melhor que poderíamos. Ele reforçou, inclusive, com uma lembrança direta da realidade: “Dentro do caixão, vai sobrar somente os ossos.”



Embora esse exemplo se refira ao conforto material, minha interpretação é que ele também nos alertava sobre os confortos emocionais aqueles que carregamos e que nos tornam acomodados.

São os sentimentos que nos deixam parados, que nos impedem de aprender, crescer e enfrentar o que realmente pode nos transformar. Esse conforto emocional faz com que percamos oportunidades, nos mantenha presos à dor familiar, às relações que nos limitam ou às chances que nos fariam evoluir. Muitas vezes, preferimos permanecer no conhecido, mesmo que ele seja insuficiente, apenas porque oferece uma sensação passageira de segurança.

Nessa mesma noite, Zé Pelintra nos convida a fazer uma reflexão, se você não tivesse continuado, como se imaginaria agora? O que estaria fazendo neste momento? Muitos relataram sentimentos que os prendiam, ambientes que pareciam confortáveis ou situações que, mesmo incertas, geravam indecisão e nos deixavam confusos. 

Alguns se acomodam em relações que não os valorizam, outros em hábitos que não acrescentam nada, mas todos se impedem de avançar. É nesse ponto que o ensinamento de Zé Pelintra se torna essencial não desistir daquilo que te faz bem é fundamental. Pequenos passos diários, mesmo que pareçam insignificantes, são capazes de romper a zona de conforto e abrir caminhos para o crescimento.

Desapegar desses confortos emocionais é um processo profundo. É encarar o medo sem permitir que ele decida, é reconhecer a dor sem escolher permanecer nela. É aceitar que o desconhecido assusta e muito, mas também transforma.

É compreender que cada oportunidade perdida por medo ou acomodação é uma chance que não volta. No fim, buscar o melhor para si é um ato de responsabilidade consigo mesmo sair do que é fácil de sustentar e caminhar em direção ao que, mesmo difícil, tem o poder de expandir quem você é.

E, como nos lembrava Zé Pelintra, não importa o que você acumule, no fim, no caixão, só sobram os ossos por isso, o que realmente vale é aquilo que você fez por si mesmo, os passos que deu para crescer e viver plenamente, sem se prender a confortos que apenas te impedem de ser o melhor que você pode ser.

Tauhane de Oxum



segunda-feira, 27 de abril de 2026

O que é a confiança?

 O que é a confiança?

Certamente um dos pontos mais complexos que podemos discutir. Para este estudo foi usado a ajuda dos guias do terreiro, como: Boiadeira, Preto velho, Caboclo 7 Flechas e outros guias que trouxeram seus posicionamentos.

A confiança nada mais é do que um sentimento próprio, sentimento esse que é aplicado e compartilhado com as outras pessoas. Por ser algo próprio temos que separar o que sentimos com a opinião dos outros. Ter confiança e ter a certeza de algo, quando se confia em um veículo, por exemplo, sabe-se que ele irá lhe locomover para onde se precisar, sem se preocupar se ele vai estragar ou apresentar uma pane. Assim também funciona para pessoas, quando se confia em alguém, é preciso entregar-se sem medo, sem receios, para que se possa viver com mais tranquilidade.



Um ponto muito importante é que quando tratamos deste assunto, não significa que devemos confiar 100% nas pessoas, pois isso seria muita ingenuidade e provavelmente você vai acabar se machucando. O que deve-se fazer é, aos poucos dando espaço para a pessoa, esse espaço vem através do merecimento, tende-se a merecer. Quando se entende isso, você percebe que a confiança é um sentimento valioso e que se perder não se conquista de novo.

Desta forma, devemos aprender a respeitar o próximo e reconhecer a confiança em nós depositada, fazer valer a pena cada palavra e cada ação, pois assim conseguiremos não somente viver mais leves, mas também valorizar o próximo.

Leonardo de Oxóssi”


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Leis Herméticas

 Leis Herméticas

São leis que regem o universo, como na Umbanda temos os Orixás, no antigo livro “O Caibalion” existem leis que fazem com que você as siga, caso contrário sua vida não fluirá. São atribuídas a Hermes Trismegisto que viveu no antigo Egito, porém a autoria do livro O Caibalion não é de conhecimento e nem se Hermes existiu, porém essas leis fazem muito sentido no contexto da experiência de vida do ser humano.

Foi me dado pelo Caboclo Sete Flechas para serem estudadas e no final quando passei por ele para avisá-lo que já tinha estudado ele me perguntou, “qual a relação entre todas essas leis?”, confesso que já tinha estudo de várias formas como a leitura, assistido palestra da filósofa Lúcia Helena Galvão entre outras e não tinha percebido que era o “equilíbrio” todas as leis se tocam em um centro, quando vocês lerem vão entender melhor.



1ª "O Todo é Mente: o Universo é Mental." Tudo o que existe é manifestação do pensamento, e a mente é a força criadora primordial.

2ª Lei da Correspondência: "O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima." Há uma harmonia entre os diferentes planos da existência (físico, mental, espiritual)

3ª Lei da Vibração: "Nada está parado; tudo se move; tudo vibra." Tudo no universo está em constante movimento e energia, com diferentes frequências vibratórias.

4ª Lei da Polaridade: "Tudo é duplo; tudo tem dois pólos; tudo tem o seu oposto." Opostos são, na verdade, extremos da mesma coisa (ex: luz/escuridão, amor/ódio).

5ª Lei do Ritmo: "Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés." A vida oscila como um pêndulo, com fases de avanço e recuo, e o segredo é não ser levado pelos extremos.

6ª Lei de Causa e Efeito: "Toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa." Nada acontece por acaso, e somos responsáveis por nossas ações e suas consequências.

7ª Lei do Gênero: "O gênero está em tudo." O princípio masculino (ativo, criador) e feminino (receptivo, gerador) existe em todos os planos e em todos os seres.

Clodonaldo de Xangô


quinta-feira, 19 de março de 2026

Linha dos piratas

 Linha dos piratas

Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre essa linha tão misteriosa e pouco falada, porém muito respeitada na Umbanda. Para que possamos ter um melhor entendimento, vou começar contando a história desse povo ainda em vida, para logo em seguida, relacioná-la com seu trabalho espiritual. Os primeiros piratas surgiram por volta de 1620 e atuaram até cerca de 1730, nas ilhas caribenhas, período em que foram combatidos pelos espanhóis e sofreram uma queda considerável. Sua chamada "época de ouro" ocorreu por volta de 1650, quando reinaram por mais de meio século. As bases da pirataria caribenha estavam localizadas principalmente nas colônias inglesas de Port Royal (atual Jamaica), Nassau (Bahamas), e na colônia francesa da Ilha Tortuga (atual Haiti). Um dos erros mais comuns é o uso indevido de termos usados para se referir aos piratas do Caribe. Pirata, bucaneiro e corsário são frequentemente usados como sinônimos, quando, na verdade, cada um tem uma origem e significado diferentes. 

Pirata é um termo genérico usado para descrever qualquer pessoa que tenha saqueado o mar, em qualquer época ou lugar. Os corsários recebiam o que era conhecido como "cartas de corso", que os autorizava, em nome de seus governadores ou monarcas, a atacar navios de nações inimigas (principalmente a Espanha, na época) em favor da nação que representavam. Na prática, é difícil determinar onde começa a pirataria e termina o corso, já que o mesmo indivíduo poderia ser considerado um corsário por seus compatriotas e um pirata por seus inimigos. Os bucaneiros surgiram de colonos que foram privados de suas terras e se tornaram caçadores e depois piratas por serem excelentes marinheiros.





A navegação é uma atividade fundamental para os povos que, como os ilhéus, vivem em locais cercados por água. Mesmo antes da chegada dos europeus, a navegação já havia sido desenvolvida pelos povos nativos das Américas, que projetaram diferentes tipos de canoas para navegar rios e mares, graças às quais conseguiram povoar as diferentes ilhas da região. Como contam os ancestrais, os indígenas Miskitos, que viviam na costa do que hoje é a Nicarágua, já visitavam as ilhas para pescar, caçar e coletar frutas. Eles precisavam ser excelentes navegadores, pois, embora relativamente próximos, o arquipélago fica a mais de 200 quilômetros de mar aberto de onde viviam. 

De fato, quando os primeiros colonos europeus chegaram, ficaram impressionados com as habilidades marítimas dos Miskitos e de outros povos indígenas da região, que possuíam grandes canoas que podiam navegar grandes distâncias, mesmo em meio a uma tempestade. Os remos portáteis, por exemplo, são de origem indígena, já que os europeus, só conheciam os remos fixos ao barco quando chegaram à América. Foi por meio de seus antepassados e a herança deixada por eles que os piratas se tornaram exímios navegantes, usando de seu conhecimento e habilidades para lutar por igualdade, respeito e liberdade. 





Historicamente, o cinema ajudou a disseminar a ideia de que os piratas eram rebeldes, caóticos, individualistas e anárquicos, lutando por seus navios de forma feroz e desorganizada, com o único pretexto de aumentar suas lendas e obter fama e fortuna. No entanto, os verdadeiros piratas operavam sob sistemas democráticos muito avançados para a época: os capitães eram eleitos pelas tripulações dos navios, que estabeleciam códigos de conduta pirata para melhorar a convivência interna, já que muitos deles eram ex-marinheiros mercantes ou tinham desertado da Marinha Real para escapar das condições de trabalho abusivas que tinham que enfrentar, e buscavam justiça econômica graças à habitual distribuição equitativa do saque entre toda a tripulação. 

Lendas como Edward Tatch, mais conhecido como Barba Negra, e Henry Morgan foram muito famosos nessa época. Nascido em 1680, em Bristol, na Inglaterra, Edward servia num navio corsário baseado na Jamaica quando decidiu virar pirata, assumindo a identidade de Barba Negra. Ele comandava o navio chamado “Vingança da Rainha Anne” um antigo navio francês que ele capturou e equipou com 40 canhões. Apesar da fama, Barba Negra não era sanguinário ou brutal como diziam, em vez disso ele se aproveitava de sua aparência assustadora pela qual era conhecido, para conseguir respeito e a redenção de suas vítimas. Ele trançava sua longa barba negra e colocava pavios acesos debaixo do chapéu, para soltar fumaça durante os combates, o que o fazia parecer um "demônio saído do inferno". Em 1718, após uma árdua batalha, foi morto em combate contra forças da marinha britânica lideradas pelo tenente Robert Maynard. Dizem que Barba Negra levou cinco tiros e mais de 20 golpes de espada antes de cair. 

Henry Morgan foi um corsário galês que se destacou por seus feitos no Caribe, atuando como um agente da Inglaterra durante as guerras contra a Espanha. De bucaneiro a corsário, sua história reflete a complexidade da uma época marcada por conflitos entre Inglaterra e Espanha, ambição e a busca por poder e riqueza. Causou mais mal do que bem, ele ajudou a transformar a Jamaica em uma forte colônia inglesa no Caribe, mas também foi culpado pela morte e tortura de inúmeros civis espanhóis inocentes e espalhou o terror por toda a costa espanhola. Em vez de ser punido, Morgan foi bem recebido na Inglaterra, nomeado cavaleiro (Sir) pelo rei Carlos II e retornou à Jamaica como vice-governador, ajudando a combater a pirataria na região que antes frequentava como corsário. Morreu em 1688 no meio de riquezas e títulos, recebendo uma despedida real. 

Depois dessa pequena aula de história, falarei agora da parte espiritual dessa linha. Como muitas vezes a compreensão dos seres humanos é limitada, e tudo precisa ser preto no branco, um dia um marinheiro me explicou que os piratas viriam a ser a polarização da esquerda da linha das águas. Assim como em outras falanges existe o cruzamento com a energia de Exu, nesta também há, por exemplo, na linha de preto velho eles são conhecidos como Preto Velho Quimbandeiro; na de Caboclo é Caboclo Xoroquê; e na linha do povo d’água, são os Piratas. 

Nesse lado da esquerda o trabalho deles é principalmente purificação, descarrego e quebra de demandas pesadas. Eles vêm levando e limpando tudo aquilo que você considera um “tesouro de valor”, mas que já não te acrescenta em nada. Trazem consigo a força e importância da simplicidade, ajudando você a enxergar o verdadeiro valor da vida. Ensinam como é viver com pouco, a confiar em si mesmo, passar através das dificuldades e reconhecer o valor da irmandade. Eles vêm retirando tudo aquilo que você acredita ser essencial, para que consiga enxergar o que realmente necessita, quem verdadeiramente permanece ao seu lado e a força interior que você possui para recomeçar. 

E os tesouros escondidos? Bom, os famosos tesouros dos piratas não passam de um mito que, no astral, é nada mais que uma forma de nos fazer refletir sobre o acúmulo de bens materiais que fazemos em vida. Usa-se dessa lenda para pensar: “Vale a pena acumular tanto para, no fim, deixar que outros encontrem e aproveitem?” Fala sobre desapego e deixar para trás a ganância, é isso que os Piratas trabalham em nós. 

Nas poucas vezes que os vi no terreiro, eles desciam uns aos outros por cordas em cima do mastro de sustentação do nosso telhado. Tinham uma aparência cadavérica, vestindo blusas, saias e calças pretas e rasgadas, além de tapa-olhos, chapéus e sorrisos instigantes. Essa apresentação de caveira remete a leva do que não vale mais nada e o fim de ciclos. O mar representa a calunga grande para os umbandistas, no entendimento comum quem trabalha em calunga normalmente é Exu, por isso a semelhança nos trabalhos entre ambas às falanges, pois lá foi onde esses homens viveram, trabalharam e morreram. Inclusive alguns deles se apresentam nas linhas de Exu, pela energia de ambos serem parecidas. 

Conversando com Seu Sete catacumbas e Seu Sete flechas, eles explicaram que, na nossa casa os piratas não são de serem vistos com frequência, são espíritos difíceis de tratar, não atendem e nem conversam, pois o trabalho deles é por sua totalidade espiritual, vem apenas em trabalhos específicos, porém não incorporados e apenas durante a noite. Durante o dia ancoram suas embarcações à beira das praias, onde repousam; e ao anoitecer saem pelo mundo afora, vagando e auxiliando aqueles que precisarem. 

As sereias são conhecidas por alcançarem o interior oculto, aquilo que sentimos, mas não contamos a ninguém. Elas trazem essas emoções à tona para trabalhar a cura, a libertação, o autoconhecimento e a aceitação. Portadoras da força encantada da natureza, são vistas na mitologia como entidades que conectam os reinos terrestre e aquático. Os Piratas se encontram muito com as sereias, já que com o belo canto das mesmas, também precisam abrir mão do que anseiam para olhar para si, explorando a profundeza de seus desejos e seu inconsciente. Por isso, se um dia você quiser saber mais sobre os piratas, pergunte a uma sereia, com certeza uma delas já vai ter se cruzado com um. 


Salve a força e sabedoria ancestral da pirataria! Saravá a banda do mar! Adarrêô, Pirata! 


Valentina de Oxum


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Bebida e fumo na Umbanda: Entendendo o significado espiritual

 Bebida e fumo na Umbanda: Entendendo o significado espiritual

A Umbanda é uma religião rica em simbolismos, saberes ancestrais e práticas espirituais que unem diferentes tradições. Dentro desse universo, certos elementos como o fumo e a bebida alcoólica despertam dúvidas, curiosidade e, muitas vezes, preconceito. Para compreender o uso desses elementos na Umbanda, é necessário ir além do olhar superficial e mergulhar no sentido espiritual que essas práticas carregam. 

Em primeiro lugar, é importante desfazer um equívoco comum: o uso de bebida e fumo na Umbanda não tem relação com vício ou prazer mundano. Não se trata de um uso recreativo, desmedido ou irresponsável. Pelo contrário, essas substâncias são utilizadas de forma ritualística e consciente, como instrumentos que auxiliam no trabalho espiritual realizado pelas entidades que se manifestam nos terreiros.


Na Umbanda, os médiuns incorporam entidades que trazem suas próprias formas de se expressar, muitas vezes ligadas à sua vivência em outras encarnações ou à simbologia que carregam. Algumas dessas entidades — como os Pretos-Velhos, Caboclos, Boiadeiros e, especialmente, os Exus e Pombagiras  fazem uso do fumo e, em certos casos, da bebida alcoólica como parte de seu trabalho espiritual.

O fumo, seja em forma de cigarro de palha, charuto ou cachimbo, é amplamente utilizado como uma ferramenta de limpeza energética. A fumaça atua como um veículo de purificação, ajudando a dissipar energias densas, cortar demandas negativas e harmonizar o campo vibracional dos consulentes e do próprio ambiente. Além disso, o ato de soprar fumaça é carregado de intenção e direcionamento energético. Entidades experientes utilizam o fumo como se fosse um “remédio espiritual”, com a fumaça sendo guiada para pontos específicos do corpo espiritual da pessoa, desbloqueando chakras e quebrando influências nocivas.

Já a bebida, especialmente o (aguardente), pode ter diversas funções dentro do ritual. Em algumas linhas, ela é oferecida como um elemento de “firmeza” da entidade — ou seja, um meio de ajudá-la a manter-se firme na matéria enquanto realiza seu trabalho. Em outras situações, a bebida é utilizada para higienizar instrumentos rituais, para “limpar” energias negativas ou como oferenda simbólica, representando alegria, celebração ou mesmo um contrato espiritual com forças da natureza. Não se trata de uma ingestão descontrolada ou que envolva o médium diretamente quem está utilizando aquele elemento é a entidade incorporada, com consciência e respeito ao espaço sagrado em que atua.

É essencial lembrar que as entidades da Umbanda são espíritos evoluídos, que atuam com amor, caridade e sabedoria. Mesmo Exus e Pombagiras  muitas vezes mal compreendidos e associados indevidamente a forças “do mal” são trabalhadores da luz, que transitam nas zonas mais densas justamente para resgatar, equilibrar e orientar. Quando utilizam bebida ou fumo, fazem isso como parte de sua linguagem simbólica e energética, nunca de forma leviana ou irresponsável.

Nem todas as casas de Umbanda fazem uso desses elementos. Algumas seguem linhas mais próximas ao kardecismo e optam por rituais mais contidos, sem fumo ou bebida. Outras, mais ligadas às tradições afro-brasileiras ou indígenas, incorporam esses elementos com mais naturalidade. Essa diversidade não é um problema, pelo contrário, é uma das maiores riquezas da Umbanda. O importante é que cada terreiro siga sua doutrina com ética, respeito e coerência espiritual.

Para muitos que vêm de fora da religião, o uso de bebida e fumo pode parecer estranho ou até errado. Mas é justamente aí que entra o convite à compreensão. A Umbanda é uma religião de acolhimento, de amor ao próximo e de conexão com o sagrado. Julgar sem conhecer é perpetuar preconceitos e ignorar a profundidade de práticas que têm raízes ancestrais e propósito espiritual.

Quando vemos um Preto-Velho acendendo seu cachimbo, um Caboclo soprando fumaça sobre um consulente ou um Exu firmando sua presença com marafo, estamos diante de rituais que carregam séculos de sabedoria espiritual. Há ali um ato simbólico, um gesto de poder e cura, que vai muito além da forma física que assume. Assim como o Caboclo Sete flechas sempre nos ensina “A umbanda é séria para pessoas sérias”

     Tauhane de Oxum



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Caboclo Canindé

 Caboclo Canindé 

Os Canindés são povos originários antigos que habitavam e ainda habitam a região Nordeste do Brasil, são originários das margens dos rios Cuius, Quixeramobim e Banabuiu de onde tiveram que migrar por causa de invasões dos portugueses. 
O nome Canindé deve se ao nome do chefe Canindé o qual foi principal líder da tribo dos Janduís, conduziu a tribo na resistência contra os portugueses no século XVII, fazendo com que os janduís fossem conhecidos como Canindés. Eram índios guerreiros e muito resistentes que por fim fizeram um acordo com os portugueses e mais tarde acabaram expulsos de seu território.

O Caboclo Canindé é uma entidade que trabalha na Umbanda e também é cultuado no Catimbó de Jurema, reconhecido como um dos guardiões da Jurema sagrada. Esta entidade que também atua no nosso terreiro e tem os orixás Ogum Rompe Mato, Oxóssi e Oxalá em sua coroa. Conduz seus atendimentos a abertura de caminhos e conselhos engrandecedores correlacionados ao amor próprio e visão das coisas e acontecimentos de forma simplificada e pontual. Ao falar do Caboclo Canindé, trata-se dos Canindés em geral, não apenas de um único nativo brasileiro, trazendo a força ancestral e espiritual sabedoria e conhecimentos dos Canindés. 

Okê Caboclo 

Thiago Costa de Oxossi



segunda-feira, 7 de julho de 2025

Não se justifique

 Não se justifique

As situações da vida nem sempre saem conforme o planejado e existem diversos motivos para isso, muitos estão além de nossos controles, mas muitos deles dependem exclusivamente de nossas decisões e da dedicação atribuída ao objetivo. Certa vez o Exu Sete Catacumbas disse em uma gira que nunca devemos nos justificar e quem se justifica já está errado. “justificou, está errado!”, disse ele entre suas sonoras gargalhadas. O presente texto é uma reflexão acerca desta frase, uma vez que nos justificamos naturalmente a todo tempo e nem todos que se justificam são pessoas que estão “fugindo do serviço” ou tentando negar a sua culpa.

Como dissemos brevemente, nem todos que se justificam estão fugindo de um trabalho que não querem realizar, mas temos que reconhecer que isso também acontece muito.  Toda situação tem vários ângulos para se analisar e certamente algum dos ângulos vai favorecer aquele que está de má vontade. Da mesma forma, em maior número, existem diversas pessoas que se justificam para terceirizar uma culpa que é sua. Alguns dos diversos ângulos da situação podem camuflar a falta de planejamento e dedicação que seriam necessários para que o objetivo tratado fosse alcançado. Todos os dias temos a opção de chamar a responsabilidade para nós mesmos ou terceirizar a culpa e o único desses dois caminhos que nos faz evoluir em todos os campos da vida é o primeiro. 

Podemos começar vários projetos e sonhos e abandonar todos assim que surgir o primeiro obstáculo. É muito fácil desistir, podemos citar como exemplo, alguém que quer aprender uma arte marcial e que logo no início de seu aprendizado desiste, pois não quer pagar o preço, não quer “levar porrada”. Quer ser lutador, mas não quer pagar o preço. Só vive o propósito quem suporta o processo. Podemos trazer o exemplo para nosso dia a dia no terreiro, se o médium duvida de si, se não tem paciência para esperar o momento que esteja preparado para ingressar na corrente, para que possa incorporar etc... ao invés de admitir suas fraquezas e erros e evoluir, muitas vezes eles optam por culpar o terreiro, os pais de santo, os guias, os médiuns entre outros.  

Tudo bem, mas e aqueles que não fazem nem para fugir de um trabalho que estão com má vontade e nem para negar a própria culpa, que mal tem para esses se justificar? Na verdade, deveríamos fazer a pergunta oposta: O que eles ganham se justificando?  Devemos sempre focar nas soluções, se não deu certo o planejado por um motivo externo, o que você fará para que tenha resultados diferentes? Se justificar é inútil. É desperdiçar energia que poderia estar focada na solução do problema.

No entanto sabemos que o hábito de se justificar é bem difícil de se perder, é necessária uma descontaminação. Para isso, o pontapé inicial é começar a observar todas as vezes que você está se justificando e com isso se policiar para diminuir cada vez mais essa frequência. Esperamos que essa reflexão tenha sido útil e que possa chegar ao coração das pessoas que necessitam dessa mudança de atitude em suas vidas. Um fraternal abraço a todos.

Axé

Ricardo de Ogum Matinata


terça-feira, 27 de maio de 2025

Reflexões - Sobre pedidos, axé e Exu

 Reflexões - Sobre pedidos, axé e Exu

A comunicação pode nos levar a caminhos claros de solução, já a sua falta, ruma direto ao caos e confusão, o que vai definir isso é o posicionamento, permissão e a direção seguida nesses acessos. Definida como o processo de troca de informações entre dois ou mais interlocutores, com o objetivo de compartilhar sentimentos, ideias, conhecimento, entre outros, a comunicação pode ser realizada de diversas formas, e em todos esses contextos ela envolve, principalmente, a intenção. Inserir-se em um meio social, partilhar conhecimento, questionar ou até despertar emoções, esses são exemplos intencionais de comunicação, um dos campos mais associados a Exu.  

Na mitologia iorubá, nas histórias de Exu, quem cultua, faz as oferendas, segue os conselhos e a sabedoria dos mais velhos, encontra a solução. Quem não o faz, recebe confusão. Como zelador da ordem universal, citamos a lei da compensação para melhor entendimento da energia desse Orixá. Nela, é dito que todo mundo colhe o que planta: a gente só arrota o que come, e só é cobrado daquele que tem. Reciprocidade no contexto mais amplo, seja mental, físico ou espiritual. 




Passando por processo pessoais, no meio de um enorme caos e confusão, tive um estalo onde reconheci, pela primeira vez, a energia de Exu na minha vida. Era tão nítida que chegava a ser palpável, agindo ativamente de forma avassaladora. Essa percepção se deu a partir de um ensinamento trazido por Exu Mirim, que me permitiu compreender de forma ampla todo o processo que estava passando, de maneira mais clara e concreta, onde entendi que para Exu, a gente tinha que pedir em voz alta. Por mais que o Orixá saiba tudo se passa na sua vida, que saiba o melhor caminho, ele só vai se movimentar por você, quando você deixar. Tendo o livre arbítrio, com variáveis de decisões, é necessário deixar clara a nossa permissão para que ele tome frente e aja. E isso só se dá, se houver comunicação. Exu é fala, e o poder fala, da boca, na perpetuação do axé, é indiscutível. 

Axé é o poder de realização, de transformação. A fala é a mensageira da intenção. A mesma boca que agradece, pede, comunica, é a mesma boca que se conecta com o divino; percebemos aí, nossa força. Mas também, é a mesma boca que pode praguejar, desejar o mal e amaldiçoar, cabendo a nós, na nossa infinidade de variáveis, escolher a melhor direção para levar nossa mensagem nos caminhos de Exu.

Agradecer em voz alta, pedir em voz alta, conversar com os guias e Orixás em voz alta, isso é se comunicar. É se expressar, com a intenção e clareza necessária pra transmitir o que queremos. Isso é Exu. E foi dessa forma, que consegui ter a sensibilidade de reconhecer essa força gigantesca, potente e viril que se movimenta ferozmente, desde que se é comunicada a intenção de movimentar, o querer. Depois de uma conversa em voz alta com ele, que conscientemente (mesmo sem saber), permite sua ação, e hoje, após essa percepção, agradeço também em voz alta. 

Peça a Exu em voz alta e agradeça no mesmo tom.

Laróyè Èṣù.

Laura de LogunEdé




segunda-feira, 19 de maio de 2025

Falando de Axé - Recorte racial dentro da Umbanda

 Falando de Axé - Recorte racial dentro da Umbanda

O racismo e a discriminação em pleno 2024 remontam a tempos escravagistas, onde o Brasil colônia rotulava o povo preto e indígena como inferior, asqueroso, sem intelecto, sem cultura e alheio no mundo, considerando-os de fácil dominação. Essa percepção se dava pelo fato de a origem dessa maioria ser da nossa própria terra e o continente africano, já que os europeus colonizadores acreditavam ser os detentores de toda sabedoria e intelecto, onde o que não os pertenciam, era titulado de medíocre: de práticas a pessoas.

Nesse contexto, é dito também que a ação de movimentos neopentecostais teria se valido de mitos e preconceitos para demonizar e insuflar a perseguição aos adeptos e religiosos que praticavam cultos de matriz africana e afro-ameríndia. Tentando conter a mistura entre as ditas raças superiores (brancos) e inferiores (negros e indígenas), para que não houvesse miscigenação de saberes e corpos. Aqui, começamos a entender a raiz do racismo, intrínseca da sociedade.

Na nossa casa de axé, a Tenda de Umbanda Caboclo 7 Flechas e Jurema, entendemos nossa religião como culto aos ancestrais. Sendo um culto ao povo originário, aos negros escravizados, os caboclos, ciganos, mestiços e demais arquétipos de grupos sociais que fizeram a trilha pra que possamos hoje caminhar. É a força, a essência da nossa terra, é a ancestralidade que nos sustenta.

Muito se é dito sobre pessoas brancas em uma religião preta, a Umbanda, no nosso caso, erguida e vivida em cima de muita violência e opressão, sendo refúgio, em seus primórdios, somente daqueles à margem da sociedade. É dito que somos descendentes de quem tanto torturou, escravizou e matou aqueles que hoje, invocamos e cultuamos. Então, como assim? Estaríamos nós, mais uma vez, replicando antepassados e nos apropriando de algo que não nos diz respeito?

Com a miscigenação, entende-se, de maneira grosseira, que somos um pouco de cada povo que pisou aqui, é por isso que destacamos a importância de ter consciência de raça sobre o que se é cultuado dentro de uma casa de axé. 




O culto aos Orixás é preto, é africano; o culto aos mortos, espíritos, Tupã, é indígena. Quando passamos a cultuar, desenvolver e nos iniciar, dizendo-nos pertencentes de religiões de matriz africana/afrobrasileira/ afro-ameríndia, estamos escolhendo um lado que diz respeito ao ativismo negro e indígena, querendo ou não. Assim, há de ser colocado em pauta inicial a importância de tal culto pras comunidade citadas a que este já era preexistente. Esse letramento é de grande valia para evitarmos o embranquecimento da religião, respeitando os processos anteriores, sua estrutura e consequentemente os próprios espíritos e antepassados da terra que invocamos. 

Em um tempo não tão distante e arrisco dizer que até os dias de hoje, muito se usa a parte “boa” da religião para que esta seja aceita dentro dos termos da sociedade tradicional. É desfeito de fundamentos, imagens, cantigas e rezas; é tudo “limpo” de forma tão sutil para que se adeque a pessoas que, de maneira nenhuma, querem ter suas práticas e costumes associados aos conhecidos como “escória do povo”, os pretos e indígenas, que vão adaptando desrespeitosamente toda ritualística sagrada, para que se beneficiem dos trabalhos, energias e mandingas, mas nunca se associando a eles, perpetuando assim, o racismo. É por isso a necessidade de compreender a história desta religião, para que não sigamos usurpando da sabedoria, mas sim respeitemos os mais velhos da religião e o próprio culto, para que cuidemos do mesmo e tenhamos fôlego suficientes para combater o apagamento histórico, incluindo o do povo que até o presente, luta pela sobrevivência e pertencimento. 

É necessário sabermos o nosso lugar e onde nos cabe. Combatendo o racismo, o racismo religioso e suas estruturas opressoras, de forma respeitosa aos nossos ancestrais, inclusive os vivos, e culto que tanto nos orgulhamos de fazer parte. 

Saravá à força ancestral.

Laura de LogunEdé.




quinta-feira, 15 de maio de 2025

Exu Pimenta

 Exu Pimenta

Olá, irmãos, hoje venho explicar a vocês um pouco sobre a entidade Exu Pimenta e seus trabalhos. Inicialmente, gostaria de ressaltar que, no presente texto, falarei especificamente sobre o espírito que se apresenta em nosso terreiro, o que não quer dizer que outros espíritos da falange Exu Pimenta trabalhem da mesma forma. 

Exu Pimenta é um exu de encruzilhada, que trabalha com manipulação energética, vícios e abertura de caminhos. Trabalha, principalmente, sob a irradiação do Orixá Oroiná/Egunitá, mas carrega também grande força do Orixá Iansã. Pimenta é conciso e direto, com ele não existem meias palavras, ele diz o que precisa ser dito, doa a quem doer. Quando pensamos em pimenta, imaginamos um alimento ardido, que queima e causa desconforto, logo, não espere algo diferente de um espírito que se apresenta com esse nome.

Dentre seus trabalhos, se destacam aqueles relacionados aos vícios. Confesso que, até pouco tempo, eu entendia como vícios os maus hábitos como uso de drogas, álcool e cigarro. Até que, em uma conversa com o Pimenta, ele me revelou a amplitude de seus trabalhos. Vício é tudo aquilo que fazemos repetidamente em busca da sensação de prazer momentâneo, mas que reflete de forma negativa em nossa vida. Todos os espíritos, encarnados ou não, são passíveis de desenvolver vícios, em menor ou maior grau. Existem os vícios mais comuns, que reconhecemos com maior facilidade, como vício em bebidas, vícios alimentares, em eletrônicos... e aqueles que alimentamos diariamente sem perceber, como o vício de reclamar, de procrastinar, de se entregar a pensamentos negativos etc.

Um vício nunca é só um vício. Geralmente aquela pessoa que tem vício em drogas, por exemplo, também apresenta outros vícios que, para ela, são menos nocivos ou até mesmo imperceptíveis, mas que atrapalham sua vida tanto quanto (senão mais) as drogas. Ao desejar abandonar um vício e dedicar-se a isso, a pessoa passa a fazer um movimento de mudança em sua vida e a busca por novos hábitos e novas práticas mais benéficas à vida física e espiritual. 

Diante disso, é possível entender por que Exu Pimenta trabalha sob a irradiação de Oroiná e Iansã, pois Oroiná é o Orixá que traz o elemento fogo, que queima aquilo que não agrega em nossas vidas, enquanto Iansã trás o vento da mudança e novas possibilidades. 

Ainda sobre a abrangência e importância dos trabalhos de Exu Pimenta, quando questionado sobre seu ponto de força, ele disse: “onde tiver terra e for possível plantar um pé de pimenta, lá eu posso trabalhar. Seja encruza, calunga ou qualquer outro lugar.” Isso elucida o que eu disse anteriormente sobre vícios serem passíveis de espíritos encarnados e desencarnados. 

Exu Pimenta, com seu arquétipo, nos ensina também a importância de termos equilíbrio na vida e de não cedermos às armadilhas do ego e da vaidade. Pense no cultivo de pimenta: além de ser uma planta relativamente difícil de se cuidar, quando uma pimenteira vai frutificar, costuma ficar muito carregada/pesada e pender para um lado. Para que volte ao eixo é necessário podar a planta ainda com os frutos verdes, pois quando se espera o fruto amadurecer a pimenteira tende a perder sua força para nutrir os frutos. 

O processo de cultivo da pimenta é uma metáfora. Após cuidar muito para que a pimenteira (indivíduo/espírito) cresça, fique bonita e frutifique, é necessário arrancar seus frutos ainda verdes para que ela não comece a pender para os lados e acabe caindo, ou seja, precisamos nos desvencilhar do ego e da vaidade, para que possamos ter equilíbrio.

“Não bambeia, não bambeia,

Exu Pimenta é o Exu que não bambeia.”

Saravá Exu Pimenta.

Larissa de Iansã


segunda-feira, 7 de abril de 2025

Amor próprio

 Amor próprio

Amor próprio é um apreço nutrido por si mesmo. É a aceitação das qualidades, defeitos, conquistas, fracassos, escolhas e experiências de vida. Falar de amor próprio parece muito clichê, mas trago perguntas simples: você se ama verdadeiramente? Consegue ver seus defeitos e aceitá-los em sua imperfeição? Não é tão simples quanto gostaríamos, não é mesmo?

O amor próprio diz respeito ao autocuidado referente ao nosso corpo, mente e alma. Ele independe da aparência ou situação financeira. Uma das tarefas mais difíceis da humanidade é cultivar o amor próprio, isso é notado frequentemente em nosso terreiro. Quem nunca teve uma conversa com um guia sobre esse tema? Creio que todos em algum momento já passamos por isso, ou ainda está passando, tentando encontrar em si esse amor e entender como aceitá-lo sem tanta  cobrança. Esse vício é alimentado pela falta de autoestima que pode decorrer de uma criação rígida, traumas, transtornos mentais, medo de se relacionar, insatisfação, dentre outros fatores emocionais que se relacionam ao amor próprio. Como ter uma boa autoestima, estabelecer relacionamento se você não se ama? Fui questionada várias vezes sobre isso, como querer amar alguém se não me amo, como acreditar na felicidade se a insegurança e falta de confiança em mim prevalece?

Para mudar isso é necessário passar por uma extraordinária transformação pessoal. É preciso escolher desenvolver amor próprio e persistir mesmo quando descobrir um defeito ou falha, porque temos que lembrar que ninguém é perfeito e todo mundo erra. Devemos lembrar que amor próprio é o pilar da autoestima, autoconfiança e autoconhecimento, sem ele não conseguimos nos desenvolver física e espiritualmente. Temos tanto zelo com pessoas queridas em nossa vida (parceiro (a), pais, filhos, irmãos, amigos), ajudamos a realizar seus sonhos, elogiamos, abraçamos os momentos difíceis e o mesmo não acontece com nós mesmos, pelo contrário, o descaso com nossos sentimentos é maior, ignorando sinais de esgotamento, nossos desejos e sonhos. Temos que colocar em nossa mente que só conseguiremos ser bons para os outros quando somos, em primeiro lugar, com nós mesmos. 

O amor atrai relacionamentos sadios, oportunidades, vitórias, autoconhecimento, crescimento espiritual e muito mais. Podemos iniciar a jornada do amor próprio a qualquer momento, basta querer e aceitar que o caminho pode ser longo, quando se tem mania de autocrítica é ainda mais trabalhoso, mas não impossível. Mas vamos tentar melhorar a cada dia? Como?  Alguns detalhes podem ajudar:

  • Coloque-se em primeiro lugar: pessoas que fazem somente o que os outros querem ficam doentes, podem ter depressão, esgotamento mental ou ansiedade, pois não se permitem desfrutar de pequenos prazeres, portanto suas necessidades e desejos devem ser prioridade, todos precisam ter períodos de relaxamento, fazer algo em benefício próprio, aprender a dizer não para prevenir sobrecarga de emoções e cansaço físico, correr atrás de seus objetivos com ou sem torcida;

  • Conhecer seus limites: você pode ajudar as pessoas, claro, mas não se prejudicar em prol dos outros. Estabeleça limites que te mostram quando uma ocasião é benéfica para você, ligeiramente desgastante, mas não suportável, ou fora de cogitação. Ou seja, ensine as pessoas a como trata-lo. Lembrando que seus limites são diferentes dos outros, às vezes nos incomodamos com algo que é normal para o outro, mas não devemos nos comparar, cada um sabe o que é melhor para si;

  • Perdoe seus erros: todos nós erramos, porque não somos criaturas perfeitas, encarnamos para poder aprender e melhorar, devemos aprender que erros são benéficos, nos ajudam a modificar comportamentos e impulsionar o crescimento pessoal. Perdoe suas falhas. E quando errar, peça perdão, assumir essa responsabilidade nos permite melhorar quando uma segunda chance nos é dada;

  • Encontre um propósito: algo que faça seu coração palpitar, que te deixe alegre, que te motive a sair da cama todos os dias;

  • Aceite que você é único: não se compare, sua história é única e não deve se assemelhar a do seu próximo. Cada um tem uma história pessoal e uma bagagem própria, aceite que és especial do jeito que és. 

No terreiro é muito comum nos comparar com o irmão, que fulano se desenvolveu primeiro que eu, que ciclano tem mais facilidade nos estudos, mas cada um é especial na sua individualidade e o desenvolvimento acontece de acordo com o que cada um necessita e busca. Caminhe com seus próprios pés, faça uso de suas competências e qualidades, se necessitar de apoio busque ajuda na terapia, nos estudos e, principalmente na espiritualidade. 

O caboclo Sete Flechas me disse uma vez que questionei sobre merece estar onde estou, ele me respondeu: se eu achasse que você não deveria estar aqui você não estaria, isso me fez repensar minha atitude com relação a mim mesma. Em outra ocasião, ele me disse: "Só é possível amar ao próximo depois de se amar. A base do amor encontra-se na liberdade, o amor só é verdadeiro quando entende a liberdade, o amor acrescenta, a paixão acaba destruindo." Portanto faça por onde e busque autoconhecimento e auto amor, para que a vida fique mais leve e para que possamos amar verdadeiramente o outro sem que isso custe a nós mesmos.

Alice de Xangô