Linha dos piratas
Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre essa linha tão misteriosa e pouco falada, porém muito respeitada na Umbanda. Para que possamos ter um melhor entendimento, vou começar contando a história desse povo ainda em vida, para logo em seguida, relacioná-la com seu trabalho espiritual. Os primeiros piratas surgiram por volta de 1620 e atuaram até cerca de 1730, nas ilhas caribenhas, período em que foram combatidos pelos espanhóis e sofreram uma queda considerável. Sua chamada "época de ouro" ocorreu por volta de 1650, quando reinaram por mais de meio século. As bases da pirataria caribenha estavam localizadas principalmente nas colônias inglesas de Port Royal (atual Jamaica), Nassau (Bahamas), e na colônia francesa da Ilha Tortuga (atual Haiti). Um dos erros mais comuns é o uso indevido de termos usados para se referir aos piratas do Caribe. Pirata, bucaneiro e corsário são frequentemente usados como sinônimos, quando, na verdade, cada um tem uma origem e significado diferentes.
Pirata é um termo genérico usado para descrever qualquer pessoa que tenha saqueado o mar, em qualquer época ou lugar. Os corsários recebiam o que era conhecido como "cartas de corso", que os autorizava, em nome de seus governadores ou monarcas, a atacar navios de nações inimigas (principalmente a Espanha, na época) em favor da nação que representavam. Na prática, é difícil determinar onde começa a pirataria e termina o corso, já que o mesmo indivíduo poderia ser considerado um corsário por seus compatriotas e um pirata por seus inimigos. Os bucaneiros surgiram de colonos que foram privados de suas terras e se tornaram caçadores e depois piratas por serem excelentes marinheiros.
A navegação é uma atividade fundamental para os povos que, como os ilhéus, vivem em locais cercados por água. Mesmo antes da chegada dos europeus, a navegação já havia sido desenvolvida pelos povos nativos das Américas, que projetaram diferentes tipos de canoas para navegar rios e mares, graças às quais conseguiram povoar as diferentes ilhas da região. Como contam os ancestrais, os indígenas Miskitos, que viviam na costa do que hoje é a Nicarágua, já visitavam as ilhas para pescar, caçar e coletar frutas. Eles precisavam ser excelentes navegadores, pois, embora relativamente próximos, o arquipélago fica a mais de 200 quilômetros de mar aberto de onde viviam.
De fato, quando os primeiros colonos europeus chegaram, ficaram impressionados com as habilidades marítimas dos Miskitos e de outros povos indígenas da região, que possuíam grandes canoas que podiam navegar grandes distâncias, mesmo em meio a uma tempestade. Os remos portáteis, por exemplo, são de origem indígena, já que os europeus, só conheciam os remos fixos ao barco quando chegaram à América. Foi por meio de seus antepassados e a herança deixada por eles que os piratas se tornaram exímios navegantes, usando de seu conhecimento e habilidades para lutar por igualdade, respeito e liberdade.
Historicamente, o cinema ajudou a disseminar a ideia de que os piratas eram rebeldes, caóticos, individualistas e anárquicos, lutando por seus navios de forma feroz e desorganizada, com o único pretexto de aumentar suas lendas e obter fama e fortuna. No entanto, os verdadeiros piratas operavam sob sistemas democráticos muito avançados para a época: os capitães eram eleitos pelas tripulações dos navios, que estabeleciam códigos de conduta pirata para melhorar a convivência interna, já que muitos deles eram ex-marinheiros mercantes ou tinham desertado da Marinha Real para escapar das condições de trabalho abusivas que tinham que enfrentar, e buscavam justiça econômica graças à habitual distribuição equitativa do saque entre toda a tripulação.
Lendas como Edward Tatch, mais conhecido como Barba Negra, e Henry Morgan foram muito famosos nessa época. Nascido em 1680, em Bristol, na Inglaterra, Edward servia num navio corsário baseado na Jamaica quando decidiu virar pirata, assumindo a identidade de Barba Negra. Ele comandava o navio chamado “Vingança da Rainha Anne” um antigo navio francês que ele capturou e equipou com 40 canhões. Apesar da fama, Barba Negra não era sanguinário ou brutal como diziam, em vez disso ele se aproveitava de sua aparência assustadora pela qual era conhecido, para conseguir respeito e a redenção de suas vítimas. Ele trançava sua longa barba negra e colocava pavios acesos debaixo do chapéu, para soltar fumaça durante os combates, o que o fazia parecer um "demônio saído do inferno". Em 1718, após uma árdua batalha, foi morto em combate contra forças da marinha britânica lideradas pelo tenente Robert Maynard. Dizem que Barba Negra levou cinco tiros e mais de 20 golpes de espada antes de cair.
Henry Morgan foi um corsário galês que se destacou por seus feitos no Caribe, atuando como um agente da Inglaterra durante as guerras contra a Espanha. De bucaneiro a corsário, sua história reflete a complexidade da uma época marcada por conflitos entre Inglaterra e Espanha, ambição e a busca por poder e riqueza. Causou mais mal do que bem, ele ajudou a transformar a Jamaica em uma forte colônia inglesa no Caribe, mas também foi culpado pela morte e tortura de inúmeros civis espanhóis inocentes e espalhou o terror por toda a costa espanhola. Em vez de ser punido, Morgan foi bem recebido na Inglaterra, nomeado cavaleiro (Sir) pelo rei Carlos II e retornou à Jamaica como vice-governador, ajudando a combater a pirataria na região que antes frequentava como corsário. Morreu em 1688 no meio de riquezas e títulos, recebendo uma despedida real.
Depois dessa pequena aula de história, falarei agora da parte espiritual dessa linha. Como muitas vezes a compreensão dos seres humanos é limitada, e tudo precisa ser preto no branco, um dia um marinheiro me explicou que os piratas viriam a ser a polarização da esquerda da linha das águas. Assim como em outras falanges existe o cruzamento com a energia de Exu, nesta também há, por exemplo, na linha de preto velho eles são conhecidos como Preto Velho Quimbandeiro; na de Caboclo é Caboclo Xoroquê; e na linha do povo d’água, são os Piratas.
Nesse lado da esquerda o trabalho deles é principalmente purificação, descarrego e quebra de demandas pesadas. Eles vêm levando e limpando tudo aquilo que você considera um “tesouro de valor”, mas que já não te acrescenta em nada. Trazem consigo a força e importância da simplicidade, ajudando você a enxergar o verdadeiro valor da vida. Ensinam como é viver com pouco, a confiar em si mesmo, passar através das dificuldades e reconhecer o valor da irmandade. Eles vêm retirando tudo aquilo que você acredita ser essencial, para que consiga enxergar o que realmente necessita, quem verdadeiramente permanece ao seu lado e a força interior que você possui para recomeçar.
E os tesouros escondidos? Bom, os famosos tesouros dos piratas não passam de um mito que, no astral, é nada mais que uma forma de nos fazer refletir sobre o acúmulo de bens materiais que fazemos em vida. Usa-se dessa lenda para pensar: “Vale a pena acumular tanto para, no fim, deixar que outros encontrem e aproveitem?” Fala sobre desapego e deixar para trás a ganância, é isso que os Piratas trabalham em nós.
Nas poucas vezes que os vi no terreiro, eles desciam uns aos outros por cordas em cima do mastro de sustentação do nosso telhado. Tinham uma aparência cadavérica, vestindo blusas, saias e calças pretas e rasgadas, além de tapa-olhos, chapéus e sorrisos instigantes. Essa apresentação de caveira remete a leva do que não vale mais nada e o fim de ciclos. O mar representa a calunga grande para os umbandistas, no entendimento comum quem trabalha em calunga normalmente é Exu, por isso a semelhança nos trabalhos entre ambas às falanges, pois lá foi onde esses homens viveram, trabalharam e morreram. Inclusive alguns deles se apresentam nas linhas de Exu, pela energia de ambos serem parecidas.
Conversando com Seu Sete catacumbas e Seu Sete flechas, eles explicaram que, na nossa casa os piratas não são de serem vistos com frequência, são espíritos difíceis de tratar, não atendem e nem conversam, pois o trabalho deles é por sua totalidade espiritual, vem apenas em trabalhos específicos, porém não incorporados e apenas durante a noite. Durante o dia ancoram suas embarcações à beira das praias, onde repousam; e ao anoitecer saem pelo mundo afora, vagando e auxiliando aqueles que precisarem.
As sereias são conhecidas por alcançarem o interior oculto, aquilo que sentimos, mas não contamos a ninguém. Elas trazem essas emoções à tona para trabalhar a cura, a libertação, o autoconhecimento e a aceitação. Portadoras da força encantada da natureza, são vistas na mitologia como entidades que conectam os reinos terrestre e aquático. Os Piratas se encontram muito com as sereias, já que com o belo canto das mesmas, também precisam abrir mão do que anseiam para olhar para si, explorando a profundeza de seus desejos e seu inconsciente. Por isso, se um dia você quiser saber mais sobre os piratas, pergunte a uma sereia, com certeza uma delas já vai ter se cruzado com um.
Salve a força e sabedoria ancestral da pirataria! Saravá a banda do mar! Adarrêô, Pirata!
Valentina de Oxum
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