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terça-feira, 19 de maio de 2026

Animismo e mistificação

 Animismo e mistificação

Na Umbanda, dois conceitos frequentemente discutidos dentro dos terreiros são animismo e mistificação. Ambos se referem a fenômenos que podem ocorrer durante a mediunidade, especialmente na incorporação, mas têm naturezas diferentes.

O animismo é frequentemente visto como um "tabu" ou um erro no desenvolvimento mediúnico, mas, na realidade, ele é uma parte normal de qualquer processo de comunicação espiritual. Entendê-lo é fundamental para o amadurecimento do médium e a pureza do trabalho no terreiro. O animismo refere-se aos fenômenos produzidos pela própria alma do médium. É a interferência da personalidade, das memórias, do subconsciente e da cultura do médium de incorporação na manifestação da entidade. 

Não é farsa: o animismo não deve ser confundido com a "mistificação" (fingimento). No animismo, o médium acredita no que está ocorrendo, mas o conteúdo é filtrado por sua própria mente. O processo ocorre geralmente por ideoplastia (projeção de ideias). O guia projeta um sentimento ou imagem mental, e o cérebro do médium converte isso em palavras quase instantaneamente. No início do desenvolvimento, o médium perguntou: "Sou eu ou é o guia?". Na verdade, são os dois. É uma parceria. 



Com o tempo, o médium aprende a identificar o "tom de voz" do pensamento do guia, que é diferente do seu fluxo de pensamento habitual. Nenhum médium é uma "folha em branco". O espírito utiliza o cérebro e o vocabulário do médium para se comunicar. Existe uma espécie de estoque mental. Se o médium, por exemplo, tem um vocabulário rico, a entidade terá mais facilidade em expressar conceitos complexos. O espírito não "injeta" palavras novas no cérebro do médium; ele manipula as que já existem. 

Se o médium nunca ouviu uma palavra técnica, o guia terá que usar uma metáfora para explicar o conceito. É por isso que um Caboclo em um médium do Sul do Brasil pode usar expressões diferentes de um Caboclo em um médium do Nordeste. O arquétipo é o mesmo, mas a "ferramenta" (o médium) oferece materiais diferentes. Se o médium possui traumas ou opiniões muito rígidas, esses elementos podem camuflar um pouco a mensagem espiritual. 

Quando o médium tem opiniões muito fortes ou preconceituosas, o espírito precisa "lutar" contra esse estoque para não deixar a mensagem ser distorcida. O Animismo traz junto com ele vários aspectos que necessitam de desenvolvimento pessoal para serem conduzidos e superados. O maior desafio enquanto desenvolvimento pessoal é aprender a distinguir o "eu" do "outro". Isso exige uma autoanálise profunda. O médium começa a questionar: "Esse pensamento é meu ou foi intuído?". Esse processo acelera a inteligência emocional. 

Quando o médium percebe que sua mente interfere na mensagem, ele entende que precisa de reforma íntima. Se a mente do médium está "suja" de preconceitos ou raiva, a mensagem passará por esse filtro distorcido. Muitos médiuns travam por medo do animismo. O desenvolvimento pessoal aqui envolve superar a síndrome do impostor e entender que o médium é um canal, e todo canal possui alguma resistência ou característica própria. 

Processo de confiança, busca por estudos. Para quem recebe a orientação (o consulente), a interferência anímica pode ser tanto um bálsamo quanto um risco. Se o médium atua de forma puramente anímica sem consciência, ele pode projetar seus próprios valores no consulente. Por exemplo, um médium conservador pode dar um conselho baseado em sua moral pessoal, e não na visão espiritual, o que pode atrasar a vida de quem busca ajuda. 



O consulente que entende o animismo aprende a não "idolatrar" o médium. Ele passa a filtrar as orientações com o próprio discernimento, entendendo que a comunicação espiritual é uma parceria humana espiritual, e não uma verdade absoluta e infalível. O consulente geralmente busca evidências. Quando o animismo é excessivo, a mensagem se torna genérica ("você terá luz", "as coisas vão melhorar"). Isso pode gerar ceticismo ou uma dependência emocional de respostas vazias.

Por sua vez, a mistificação é uma falsa manifestação espiritual, podendo ser involuntária ou consciente. O objetivo é simular o fenômeno mediúnico, ou seja, fingir uma incorporação ou mensagem espiritual para enganar as pessoas, abusando da fé delas. Diferente do animismo, onde o médium interfere na incorporação sem a intenção de prejudicar, a mistificação envolve uma má intenção, que pode ser guiada de duas formas 

- Ação dos espíritos: pode ocorrer pela interferência de espíritos levianos e zombeteiros se passando por guias sérios. 

- Motivações pessoais: quanto isto acontece, e não deve acontecer, o médium interfere na incorporação, passando à frente do guia ou até se passando por ele. 

Alguns médiuns desequilibrados fingem estar incorporados para suprir seu ego, vaidade, desejo de poder e atenção, ou até mesmo para enganar os consulentes. Quando isso ocorre podemos perceber que a qualidade da comunicação diminui, o fetichismo toma conta – em detrimento à qualidade da mensagem – a simplicidade da Umbanda dá lugar a manifestações emplumadas e estapafúrdias. 

O médium pode imitar a fala de um caboclo, simular gestos, transmitir mensagens confusas, enfim, os conselhos da “entidade” não acrescentam e, por vezes, podem interferir até mesmo no livre arbítrio do consulente. Quando vemos médiuns neste estado, de querer mistificar, já sabemos que seu caminho será curto, pois a espiritualidade é séria e rígida quanto à questão ética. A demanda por um caráter reto é visível nos trabalhos mediúnicos, já que todos os guias são agentes da Lei Maior e da Justiça Divina (direta ou indiretamente). 

Além de prejudicial ao trabalho espiritual e à egrégora da corrente, a mistificação interfere diretamente no crescimento pessoal e mediúnico. A mediunidade é desenvolvida com disciplina, autoconhecimento e sintonia espiritual. Quando ocorre a mistificação o médium passa a confundir suas próprias ideias com mensagens espirituais, deixando de distinguir intuição e enfraquecendo a comunicação com os guias. 

Dessa forma, se cria um padrão de manifestação que é artificial, baseado apenas no que se quer mostrar, impedindo que a mediunidade se torne clara, equilibrada e confiável. Essa dificuldade que o médium passa a ter de se comunicar com os guias de luz o afasta deles, podendo aproximar outros espíritos, como os zombeteiros. A mediunidade também é, acima de tudo, um caminho de crescimento interior. 

Quando alguém mistifica, evita confrontar suas próprias limitações, alimentando o ego espiritual e criando uma imagem falsa de si mesmo. Assim, a pessoa não aprende o caminho da humildade, não se dá a oportunidade de amadurecer e segue sem responsabilidade, emocional e espiritual. Enfim, o trabalho mediúnico depende muito de credibilidade e confiança. Um médium que mistifica e passa orientações incorretas ao consulente não está apenas interferindo no seu próprio crescimento pessoal, como interfere diretamente na vida da pessoa que foi buscar auxílio. E atitudes assim custam caro para todos. 

Camila de Iemanjá e Renata de Iansã


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Alfazema

 Alfazema

As ervas são consideradas elementos sagrados dentro da Umbanda. Elas são muito utilizadas em rituais para limpeza, proteção, equilíbrio e cura espiritual. Podem ser usadas de várias formas, como em banhos, chás, defumações, entre outros trabalhos espirituais. Existem muitas ervas importantes dentro da Umbanda, mas neste estudo vamos falar especificamente sobre a alfazema, também conhecida como lavanda.

A alfazema pertence ao grupo das plantas chamadas Lavandula, da família Lamiaceae. Ela é muito conhecida pela sua beleza, com flores em tons de roxo e azul, sendo bastante usada na decoração de jardins e ambientes. Além de bonita, essa planta possui diversas propriedades benéficas.

Quando falamos em lavanda, uma das primeiras coisas que vem à mente é seu efeito calmante. Por isso, ela é muito utilizada em óleos essenciais na aromaterapia, ajudando a relaxar o corpo e a mente. A alfazema é considerada uma planta medicinal. Ela possui propriedades calmantes, ajuda a reduzir a ansiedade e tem ação anti-inflamatória. Pode ser usada para aliviar estresse, insônia, dores de cabeça, cólicas menstruais e tensões musculares. Além disso, também ajuda na cicatrização da pele e tem efeito antisséptico.



No campo espiritual, a alfazema se destaca por promover uma limpeza energética suave. Diferente de outras ervas mais fortes, ela atua de forma delicada, sendo ideal para pessoas mais sensíveis ou que estejam passando por momentos emocionais difíceis. Ela limpa as energias negativas sem causar desgaste espiritual.

Outro ponto importante é seu poder de acalmar. A alfazema ajuda a tranquilizar a mente, diminuir a ansiedade e facilitar a concentração em orações e práticas espirituais. Por isso, é muito indicada antes de dormir ou antes de trabalhos mediúnicos.

Além de limpar, a alfazema também ajuda a elevar a energia. Ela melhora a vibração do ambiente e da pessoa, favorecendo a aproximação de energias mais leves e espirituais. Sua proteção espiritual também é mais sutil. Em vez de combater energias negativas, ela cria um ambiente de paz e harmonia, onde essas energias não conseguem permanecer.

A alfazema também está ligada ao sagrado feminino, trazendo energias de doçura, sensibilidade, intuição e cura emocional. Por isso, é muito utilizada em trabalhos voltados ao amor, acolhimento e conexão espiritual.

De forma geral, a alfazema nos ensina que a transformação espiritual não precisa acontecer pela força, mas sim pela elevação da energia. Quando elevamos nossa vibração, tudo o que é negativo naturalmente se afasta.

Bruna de Obá


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A cura da raiz ancestral

 A cura da raiz ancestral

Nas veredas do sagrado, há um caminho que nasce da terra e se eleva como sopro antigo, carregado de memória e força. É um saber que brota das raízes, profundo como o silêncio das matas e firme como aquilo que resiste ao tempo. Nesse território invisível aos olhos apressados, habitam presenças que ensinam sem impor, que conduzem sem prender, que despertam sem exigir. 

Ali, o aprendizado não vem em palavras diretas, mas em sensações, e intuições que atravessam o peito como um chamado. É uma escola onde o sentir vale mais que o explicar, e onde cada passo revela algo sobre quem somos e sobre aquilo que ainda precisamos curar, fortalecer e compreender. As forças que ali atuam carregam a sabedoria de quem conhece a dor e a transformação. São guias que ensinam através da simplicidade, mostrando que a verdadeira grandeza está em manter-se firme, mesmo quando tudo ao redor parece instável. 

Com eles, aprendemos sobre coragem, sobre respeito às origens, e sobre a importância de caminhar com verdade. Essa energia desperta algo essencial na conexão com aquilo que é autêntico. Ela nos lembra que não somos separados da natureza, nem das histórias que nos formaram. Pelo contrário, somos continuidade, somos raiz, tronco e fruto ao mesmo tempo.



E, ao nos aproximarmos desse mistério, algo dentro de nós se organiza. A mente silencia, o coração escuta, e a vida passa a ser sentida com mais presença. Não como um peso, mas como um percurso cheio de significado, onde cada experiência é também um ensinamento.

No fim, o que esse caminho oferece não é apenas proteção ou orientação é consciência. É o entendimento de que crescer espiritualmente não é fugir do mundo, mas aprender a estar nele com mais verdade, mais firmeza e mais alma.

Tauhane de Oxum


terça-feira, 12 de maio de 2026

O sagrado feminino

 O sagrado feminino

Compreender o sagrado feminino é mergulhar na história da humanidade. Desde os primórdios, a psique humana projeta na figura da "Grande Mãe" o arquétipo da origem, aquela que gera, nutre e acolhe. Na psicologia analítica, o feminino é uma energia presente em todos os indivíduos, o Anima no homem e a essência da Self feminina, representando a função do sentir, da intuição e da conexão com as águas profundas da alma. Este fundamento atravessa culturas e religiões, manifestando-se em mitologias… Gaia, Lilith, Virgem Maria, ou até mesmo na força das nossas Yabás na Umbanda.

Historicamente, a mulher era vista como a própria divindade encarnada, pois seu corpo é o espelho da natureza: assim como a terra recebe a semente e a faz germinar, o útero é o solo fértil capaz de ancorar uma alma no plano físico. Por possuir o poder de gerar vida, a sexualidade e os ciclos femininos eram reverenciados. No entanto, como tudo que emana um poder gera medo, a sociedade buscou dominar o que não podia controlar. Ao longo dos séculos, as práticas ancestrais de cura e a autonomia feminina foram demonizadas e distorcidas, resultando em um controle institucional sobre o corpo e a subjetividade das mulheres, o que gerou um desequilíbrio na psique social que perdura até hoje.

O sagrado feminino não se refere aos papeis de gênero construídos pela modernidade, que muitas vezes são contraditórios e buscam justamente o apagamento dessa essência. Enquanto a sociedade impõe comportamentos rígidos, o sagrado nos lembra que somos todos compostos por polaridades. 

O masculino e o feminino, são energias complementares e interdependentes. O sagrado masculino traz o impulso da ação, do direcionamento e da proteção (o sol, o fogo), enquanto o sagrado feminino traz a profundidade das emoções, a gestação das ideias e a sabedoria do silêncio (a lua, a água).


Trabalhar essa energia é, portanto, buscar o equilíbrio. Não há movimento sem receptividade, assim como não há vida sem o mistério do útero, seja ele físico ou simbólico. Resgatar o sagrado feminino, é permitir que a intuição volte a guiar nossos passos e reconhecer que em cada um de nós reside uma centelha divina que pulsa no ritmo das marés e das fases lunares, lembrando-nos que somos, ao mesmo tempo, criatura e criador.

Axé!

Jéssica de Obaluaê




segunda-feira, 11 de maio de 2026

Oração a Xangô

 Oração a Xangô

Salve o senhor da justiça, que me chama para a verdade sobre mim mesma. Que seu machado desça com força e precisão, separando a ilusão da realidade, pois diante de sua presença, não há espaço para contradições.

Me dê forças para me despir da armadura do ego que muitas vezes me visto. Me dê discernimento para entender a balança da vida onde cada pensamento, escolha e ação têm um peso.

Me dê sabedoria para enxergar com clareza a responsabilidade de ser parte das dinâmicas que eu mesma crio, admitindo que, muitas vezes, sou autora de meus próprios desafios.

Que seu machado seja instrumento de consciência, me ensinando a abandonar a vaidade e o orgulho que tanto me distanciam do equilíbrio e da harmonia que a vida me convida a cultivar.



Que nesse processo de encontrar a verdade em mim mesma, eu possa abraçar a oportunidade de crescer, reconhecendo minha humanidade falha e, mais ainda, minha impotência em mudar, escolhendo o caminho da maturidade.

Que a sua força seja meu alicerce e esteja presente em minhas atitudes diárias, me trazendo a sabedoria e a retidão necessárias para agir com justiça, evitando julgamentos precipitados ou movidos por emoções negativas.

Que a sua luz me guie para a autocrítica e o meu alinhamento com os valores da verdade e do equilíbrio, me dando a capacidade de enxergar os meus erros e aprender com eles, não me tornando refém da razão. Ampare meu caminho quando a justiça parecer difícil e as escolhas complicadas. Expanda a minha comunicação e a minha honestidade.

Xangô, que sua energia se faça presente em minha vida, a enchendo de propósito, e me ensinando a amar de forma justa e intensa, para que eu possa construir relações que sejam reflexos de sua sabedoria e força. 

Que o discernimento, a prudência e a tolerância façam morada em meu coração e a sua luz possa me guiar sempre pelo caminho da equidade.

Salve Xangô, que me orienta na jornada!

Camila de Iemanjá



quinta-feira, 7 de maio de 2026

Salve a Malandragem!

 Salve a Malandragem!

Salve a malandragem, é uma das saudações que utilizamos para dar boas vindas a linha dos malandros e malandras. Mas afinal de que forma essa linha atua dentro dos trabalhos de umbanda? 

Malandros e malandras são entidades espirituais que trazem consigo a sabedoria e a esperteza adquirida pelas dificuldades da vida, injustiças, preconceitos entre outros. Podem vir na linha da esquerda, juntamente com exus como na linha da direita. “Saravá seu zé pilintra moço do chapéu virado,na direita ele é maneiro, na esquerda ele é pesado“.


 

Atuam na quebra de demandas, vícios, abertura de caminhos além de auxiliar aqueles que solicitam sua ajuda a retomada do seu amor próprio, ensinam a importância do posicionamento, da coragem e do saber agir no momento certo. 

Apesar de seus arquétipos trazerem consigo vestimentas que remetem a bohemia ou a malícia, os malandros e malandras não incentivam a desonestidade, mentiras e enganação.Com seus gingados, fala mansa e alegre, nos fazem refletir sobre a importância de transformar aquilo que é dor em aprendizado e que para toda dificuldade criada existe um caminho, uma direção. 

Em nossa casa não é uma linha que vem com frequência, mas quando temos o privilégio da sua presença podemos desfrutar do seu axé e sabedoria para olhar cada desafio como crescimento.

Saravá !

Natália S. de Ogum Megê


terça-feira, 5 de maio de 2026

Sob a proteção da espada de Ogum

 Sob a proteção da espada de Ogum

A erva Espada de Ogum carrega uma presença forte e simbólica, unindo natureza e espiritualidade. Suas folhas longas, firmes e apontadas para o alto lembram uma espada erguida, como se estivesse sempre em posição de guarda. Não é à toa que, na tradição da Umbanda, ela é associada a Ogum, o orixá guerreiro, senhor da proteção, da coragem e dos caminhos abertos.

Mais do que uma planta ornamental, a Espada de Ogum é vista como um escudo espiritual. Ela representa a força que afasta energias negativas, corta demandas e traz firmeza para quem está passando por lutas e desafios. Sua forma reta e resistente simboliza determinação, foco e a capacidade de seguir em frente mesmo diante das dificuldades.  



Muitas pessoas a colocam na entrada de casa, acreditando que ali ela atua como uma guardiã silenciosa, protegendo o ambiente e equilibrando as vibrações. Assim como o orixá que representa, a erva não é agressiva, mas é firme: defende, protege e fortalece.

A Espada de Ogum também fala sobre caminhos abertos e fé na caminhada. Ela nos ensina que proteção não é apenas afastar o mal, mas também ter força interior para tomar decisões, enfrentar batalhas diárias e manter a honra mesmo nos momentos difíceis. Sua energia simboliza disciplina, responsabilidade e coragem para agir.

Além disso, por ser uma planta resistente, que sobrevive a diferentes ambientes, ela lembra que a verdadeira força é constante e silenciosa. Não precisa de alarde para proteger — sua presença já basta. É como uma sentinela da natureza, firme, atenta e cheia de axé.

É a natureza expressando, em forma de folha e raiz, a energia do guerreiro que luta pelo bem, protege os seus e abre caminhos para que a vida siga com segurança, justiça e luz.

Tauhane de Oxum 


segunda-feira, 4 de maio de 2026

O preceito: um dos fundamentos sagrados da Umbanda

 O preceito: um dos fundamentos sagrados da Umbanda

O preceito é uma prática sagrada dentro da Umbanda, que tem como objetivo preparar para os trabalhos espirituais. Ritual que promove um alinhamento entre corpo, mente e espírito, elevando a vibração em sintonia com os trabalhos dos guias espirituais. 

Durante o preceito, o médium se purifica, deixando de lado o que é denso e terreno para elevar sua vibração. Por isso, durante esse período, recomenda-se abster-se de sexo, álcool e carnes vermelhas. Práticas que ajudam a manter a energia mais leve e receptiva. É um tempo de silêncio interior, oração, meditação e fé, no qual se busca a paz necessária para servir à espiritualidade com amor e equilíbrio.



Algumas casas também recorrem aos banhos de ervas, às preces e às palavras de luz para fortalecer o axé e o vínculo com o sagrado. Cada casa de Umbanda tem suas próprias orientações, mas todas compartilham o mesmo propósito: preparar o médium para estar em sintonia com a espiritualidade, em humildade e entrega.

Bruna de Obá


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Casca de coco no terreiro

 Casca de coco no terreiro

“Vovô não quer… Casca de coco no terreiro;

Porque faz lembrar… Dos tempos de cativeiro”

Cantamos muito esse ponto em nossa casa para a linha dos pretos velhos, um ponto cheio de significado e que evidencia a ancestralidade dentro da nossa religião. 

Na época da escravidão, a casca do coco era usada de várias maneiras porque era um material natural, gratuito e fácil de encontrar, permitindo que os escravizados improvisassem ferramentas e utensílios diante da extrema falta de recursos. Muitas vezes, as cascas eram amarradas aos pés como uma forma rudimentar de proteção, já que trabalhavam descalços em terrenos duros, quentes e cheios de pedras ou espinhos. Embora desconfortáveis, pesadas e abrasivas, essas cascas ajudavam a evitar ferimentos mais graves e tornaram-se símbolo de improviso forçado.

Além disso, a casca de coco era utilizada como cuia para comer e beber, para carregar pequenas quantidades de água ou comida, e até como ferramenta de trabalho, servindo como concha para escavar ou alimentar animais. Esses usos, tão ligados ao cotidiano de exploração, reforçaram sua associação com pobreza extrema, humilhação e desumanização. 

Para os escravizados, que não tinham acesso a objetos básicos como sapatos, utensílios domésticos ou instrumentos de trabalho dignos, a casca de coco representava a dureza cruel da vida no cativeiro.

Uma imagem contendo pessoa, no interior, homem, frente

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Conhecer a história dos pontos cantados é fundamental para compreender a profundidade espiritual, cultural e ancestral que sustenta cada canto dentro do terreiro. Os pontos não são apenas músicas, são vibrações e ensinamentos dos guias e a memória sagrada do povo que construiu essa religião. 

Renata de Iansã 


terça-feira, 28 de abril de 2026

Oxotocanxoxo: O caçador de uma única flecha

 Oxotocanxoxo: O caçador de uma única flecha

Em épocas de festas no reino, foi dada uma grande festa e o rei decidiu não chamar uma feiticeira temida pelo povo. Sabendo disso, a feiticeira mandou um grande pássaro enfeitiçado amaldiçoar o reino, os rios secaram, a colheita fracassou, as chuvas abandonaram a região e um período de fome se instalou para esse povo. Após os melhores caçadores fracassarem na tentativa de matar o temido pássaro, Oxotocanxoxo decidiu enfrentá-lo. No entanto, apesar desse caçador ser majestoso naquilo que fazia, diferente de outros caçadores, ele carregava uma única flecha, fazendo com que essa flecha fosse suficiente para ter sucesso em suas caçadas. E assim fez: foi ao encontro do pássaro e, com sua única flecha, o abateu, trazendo a paz e salvando o reino. Oxotocanxoxo foi nomeado Oxóssi: o caçador do povo. 

O reino de Oxóssi começa quando os caminhos desbravados por Ogum acabam, na beira do mato, na entrada para a mata virgem. Oxóssi habita a floresta, onde os ventos fazem as folhas dançarem, onde o silêncio mascarado por sons da mata ressoa, onde o tempo não tem pressa, mas tem ânsia para caçar. 

Oxóssi é cultuado como o orixá da comunidade, é aquele que traz o sustento e a fartura para sua aldeia. Ele é decidido, faz o que for preciso e não espera aplausos por isso. 



Oxóssi caminha sozinho, mora nas matas e nos pensamentos. É o orixá da exatidão, não se move por impulso, traz a força da precisão e do pensar. Oxóssi analisa o que está entre o tempo de querer e o exato momento de atirar, pois não domina a caça, ele a acerta e mata com exatidão.

Para além de um exímio caçador, Oxóssi é o silêncio que anuncia, é o olho que vê tudo à sua volta, é o senhor que toca o mundo com a leveza e a precisão.  Oxóssi é o orixá que respira enquanto a mata está furiosa, é aquele que revela o silêncio enquanto o mundo grita. 

Oxóssi não é caçador apenas de alimento para seu povo. É a energia que caça o saber, o conhecimento, o sentido oculto do universo. É o impulso para buscar o novo, para aprender sobre si e sobre o mundo. E seu conhecimento não está em belas palavras ou em oratórias elaboradas, está em ações, em gestos, no cuidar da natureza, no papear sobre a grandeza do universo, está no invisível, que só os bons olhos de um exímio caçador pode encontrar.

Oxóssi é uma energia livre que não se curva ao poder. Foi coroado Rei de Ketu por Oxum, mas nunca em seu coração, pois sabia que o peso de sentar no trono o aprisionava. Oxóssi é das matas, das florestas, das folhas e dos animais, esse é seu reino: onde pode ser livre, onde cada pisada é um risco e uma aventura. 

Oxóssi é a energia que nos ensina no silêncio. É o orixá que nos ensina que há forças que não precisam ser combativas e estrondosas, mas que também há muito o que se aprender na calma, na leveza e no silêncio. 

Seus filhos são silenciosos, analíticos, são mais adeptos à escuta do que a fala, preocupados com a família e seu sustento, pacientes, atentos, astutos, estrategistas, espontâneos, alegres, inteligentes, se interessam muito por coisas ocultas, ligados à natureza, inquietos, criativos, livres, desejam sempre buscar algo novo, discretos, carismáticos, sociáveis, normalmente são altos e magros. No negativo se isolam excessivamente, não são persistentes, pensam demais e agem de menos e acabam ficando estáticos, sofrem silenciosamente e desenvolvem um cansaço mental, bem como possuem dificuldade de pedir ajuda e são muito cabeça dura. 

Okê Arô, meu Pai Oxóssi! 

Isabela de Iansã


segunda-feira, 27 de abril de 2026

O que é a confiança?

 O que é a confiança?

Certamente um dos pontos mais complexos que podemos discutir. Para este estudo foi usado a ajuda dos guias do terreiro, como: Boiadeira, Preto velho, Caboclo 7 Flechas e outros guias que trouxeram seus posicionamentos.

A confiança nada mais é do que um sentimento próprio, sentimento esse que é aplicado e compartilhado com as outras pessoas. Por ser algo próprio temos que separar o que sentimos com a opinião dos outros. Ter confiança e ter a certeza de algo, quando se confia em um veículo, por exemplo, sabe-se que ele irá lhe locomover para onde se precisar, sem se preocupar se ele vai estragar ou apresentar uma pane. Assim também funciona para pessoas, quando se confia em alguém, é preciso entregar-se sem medo, sem receios, para que se possa viver com mais tranquilidade.



Um ponto muito importante é que quando tratamos deste assunto, não significa que devemos confiar 100% nas pessoas, pois isso seria muita ingenuidade e provavelmente você vai acabar se machucando. O que deve-se fazer é, aos poucos dando espaço para a pessoa, esse espaço vem através do merecimento, tende-se a merecer. Quando se entende isso, você percebe que a confiança é um sentimento valioso e que se perder não se conquista de novo.

Desta forma, devemos aprender a respeitar o próximo e reconhecer a confiança em nós depositada, fazer valer a pena cada palavra e cada ação, pois assim conseguiremos não somente viver mais leves, mas também valorizar o próximo.

Leonardo de Oxóssi”


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Zé Pelintra

 Zé Pelintra

    Sem sombras de dúvidas, Zé Pelintra é uma das entidades mais conhecidas da Umbanda, muito se fala e se mostra sobre essa falange espiritual. Com tantas informações, algumas acabam se misturando e se confundindo. 

Zé Pelintra é muitas vezes associado à Lapa do Rio de Janeiro, quando falamos em Zé, o malandro da Boemia sempre vem à nossa mente, porém a história deste espírito é muito mais bonita e repleta de detalhes do que a maioria das pessoas pensam. Porém Seu Zé tem suas origens no Nordeste, mais especificamente no catimbó de Jurema, Zé é um espírito do catimbó, assim ele é considerado um grande mestre juremeiro.


Dependendo das raízes, seu Zé pode ser visto como quase um ser Iluminado, um espírito superior, como se fosse um Orixá na Umbanda.

As histórias dizem que seu Zé veio ao Rio de Janeiro, buscando melhores condições de vida e  emprego. Assim, ele encontra a Lapa, se apaixona pela boemia, e assim começa as histórias de Zé Pelintra como malandro.

Independente de ser um grande mestre da jurema ou ser um grande malandro da Lapa, esse espírito é muito sábio e também muito respeitado. Saber as origens das entidades, nos proporciona muito a conhecer sua linha de trabalho e também como elas podem nos ajudar. 

Leonardo de Oxóssi ”


terça-feira, 21 de abril de 2026

Oração a Nanã

 Oração a Nanã

Salve a grande mãe da sabedoria, senhora do tempo antigo, que ensina através do silêncio e profundidade.

Não me deixe confundir zelo com controle, mãe Nanã. Que eu saiba reconhecer que o outro também tem seu tempo, seus caminhos e encantos. E que nem tudo que é bom para mim, serve para o corpo e espírito do outro.

Você, que com sua mágica, molda a vida no barro das águas paradas, sabe bem que cada ser tem seu momento de maturação. Não apressa, não força, não impõe... apenas espera e observa. Me ensine a compreender o peso doce de algumas escolhas, pois cada uma delas possui raízes que não se veem.



Nanã, que eu não me deixe tomar pela ânsia de proteger que, muitas vezes, rouba do outro a chance de errar, viver e aprender com as próprias quedas. Que na pressa de evitar a dor, eu não sufoque a liberdade. Que eu não projete no outro aquilo que não resolvi em mim, interrompendo processos que não compreendo. Me dê o discernimento necessário para perceber que o amor que damos também carrega nossas próprias sombras e nunca pararemos de trabalhar para vencê-las.

Somente com a luz da sua paciência é possível reconhecer as verdades que não queremos encarar, grande mãe. Que eu tenha a humildade necessária para aprender com a sua força. Pois ela me mostra que o tempo pode ser lento, mas é certo. Nada se perde, tudo se transforma.

Que eu entenda que a sua paciência não é passividade. Ela apenas ensina que há um tempo de aguardar e um tempo de agir. E a sua força também move a justiça que vem do fundo da terra. Pois há coisas que o tempo assenta, mas outras que só mudam quando nos colocamos de pé.

Que no mangue do meu interior, onde a lama é fértil, a vida sempre renasça de formas surpreendentes e encorajadoras, para que eu não me esqueça que somos natureza, e ela sempre se regenera!

Que a luz de sua sabedoria ilumine a minha mente e o meu coração, assim como o meu caminhar. Saluba, grande Nanã!


Camila de Iemanjá



segunda-feira, 20 de abril de 2026

O poder da vibração

 O poder da vibração

Quando se entra em um terreiro é muito comum ouvir tanto dos médiuns, quanto da própria espiritualidade, falar sobre vibração.

A vibração está intrinsecamente ligada à energia que carregamos ou recebemos, assim, é muito importante que olhemos para como estamos trabalhando ela em nosso dia a dia. Diversas recomendações são passadas para que possamos levar uma vida mais leve e possuir uma boa vibração, dentre elas podemos citar: meditações, uma boa noite de sono, uma boa alimentação, rezar, controlar sentimentos e emoções, dentre outras.

Um ponto muito importante são os lugares que frequentamos e as pessoas que convivemos, pois tudo isso influencia o nosso emocional e a nossa energia. Um trabalho conflituoso, um lar com intrigas, lugares com muitas enfermidades ou ambientes de festas e bebidas, tudo isso reflete na nossa vibração e como nos sentiremos durante nosso dia a dia. Para que isso não nos afete tão diretamente podemos acender uma vela, pedir proteção ao nosso anjo da guarda, alguns recomendam até tampar o umbigo com esparadrapo, pois o chakra umbilical é responsável pelas emoções e sentimentos absorvidos e liberados. Que quando desequilibrado traz desgaste físico e mental ao sujeito.



Todo pensamento, palavra e ação também carrega uma força muito grande, e por isso, devemos cuidar. Aquilo que vibramos e jogamos no universo é devolvido para nós, pois ele entende que é aquilo que queremos na nossa vida. Então vibre como se você já fosse sua melhor versão.Todos sabemos que não é fácil se manter positivo ou em paz 100% do tempo, parece que quanto mais nos empenhamos mais a espiritualidade nos testa para ver nosso comprometimento, então não se deixe abater quando não conseguir se equilibrar. Faz parte do processo de evolução, os dias bons e ruins.

Assim, quando uma entidade fala que é preciso cuidar da nossa vibração, ela não está somente dando um conselho para resolver uma situação em específico, mas sim ela está dando um conselho para a vida. Pois quando se possui uma energia equilibrada, as coisas ao nosso redor também começam a se resolver.

Devemos sempre lembrar que nós somos energia, as plantas são energia, a água é energia, o universo é energia. Tudo ao nosso redor tem energia e vibra, por isso quando conseguimos nos equilibrar tudo ao nosso redor segue nossa vibração.

Que possamos sempre carregar boas energias e trazer o acalanto da esperança para todos!

                                                                                                                           

Leonardo de Oxóssi


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Leis Herméticas

 Leis Herméticas

São leis que regem o universo, como na Umbanda temos os Orixás, no antigo livro “O Caibalion” existem leis que fazem com que você as siga, caso contrário sua vida não fluirá. São atribuídas a Hermes Trismegisto que viveu no antigo Egito, porém a autoria do livro O Caibalion não é de conhecimento e nem se Hermes existiu, porém essas leis fazem muito sentido no contexto da experiência de vida do ser humano.

Foi me dado pelo Caboclo Sete Flechas para serem estudadas e no final quando passei por ele para avisá-lo que já tinha estudado ele me perguntou, “qual a relação entre todas essas leis?”, confesso que já tinha estudo de várias formas como a leitura, assistido palestra da filósofa Lúcia Helena Galvão entre outras e não tinha percebido que era o “equilíbrio” todas as leis se tocam em um centro, quando vocês lerem vão entender melhor.



1ª "O Todo é Mente: o Universo é Mental." Tudo o que existe é manifestação do pensamento, e a mente é a força criadora primordial.

2ª Lei da Correspondência: "O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima." Há uma harmonia entre os diferentes planos da existência (físico, mental, espiritual)

3ª Lei da Vibração: "Nada está parado; tudo se move; tudo vibra." Tudo no universo está em constante movimento e energia, com diferentes frequências vibratórias.

4ª Lei da Polaridade: "Tudo é duplo; tudo tem dois pólos; tudo tem o seu oposto." Opostos são, na verdade, extremos da mesma coisa (ex: luz/escuridão, amor/ódio).

5ª Lei do Ritmo: "Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés." A vida oscila como um pêndulo, com fases de avanço e recuo, e o segredo é não ser levado pelos extremos.

6ª Lei de Causa e Efeito: "Toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa." Nada acontece por acaso, e somos responsáveis por nossas ações e suas consequências.

7ª Lei do Gênero: "O gênero está em tudo." O princípio masculino (ativo, criador) e feminino (receptivo, gerador) existe em todos os planos e em todos os seres.

Clodonaldo de Xangô


terça-feira, 14 de abril de 2026

Ego e Vaidade: Desafios da Postura do Médium de Umbanda Dentro e Fora do Terreiro

 Ego e Vaidade: Desafios da Postura do Médium de Umbanda Dentro e Fora do Terreiro

    Na Umbanda, o desenvolvimento mediúnico não é apenas um processo de aprendizado espiritual, mas, acima de tudo, um caminho de transformação íntima. Dentro desse percurso, o ego se apresenta como um dos principais pontos de atenção — não por ser algo negativo em si, mas por revelar onde o médium ainda precisa amadurecer. De acordo com definições clássicas, o ego pode ser entendido como a estrutura central da personalidade, responsável pela forma como o indivíduo se percebe e se posiciona no mundo. Na teoria psicanalítica, ele atua como mediador entre os impulsos do id (instintos), as exigências do superego (valores e moral) e a realidade externa, buscando equilíbrio.

    Nesse sentido, o ego é necessário. É ele que organiza o indivíduo, permite assumir responsabilidades, estabelecer limites e agir com coerência. Um ego saudável sustenta o médium emocionalmente, ajudando-o a diferenciar o que lhe pertence daquilo que vem do outro ou da espiritualidade. No entanto, quando desequilibrado, o ego tende a se inflar. Ele pode se manifestar como certeza absoluta, sensação de superioridade ou apego a um suposto conhecimento elevado. Nessa condição, o médium deixa de ouvir, de aprender e de se questionar, criando barreiras para o próprio desenvolvimento.

    No contexto mediúnico, isso pode gerar diversos impactos. Um deles é o bloqueio na incorporação, pois o excesso de controle e autoconfiança cria uma resistência energética que dificulta a sintonia com os guias espirituais. Outro efeito é a mistificação, quando o médium, muitas vezes sem perceber, passa a interferir na manifestação para atender expectativas pessoais.Também surge a falsa sensação de preparo. O médium acredita que já sabe o suficiente e, com isso, afasta-se do estudo, da disciplina e das orientações do dirigente. Esse comportamento interrompe o crescimento e compromete a qualidade do trabalho espiritual.

    No convívio dentro do terreiro, o ego se manifesta ainda por meio da comparação, do julgamento e da necessidade de destaque. Aparecem atitudes como competição entre médiuns, resistência a correções e até a sensação de “posse” sobre funções ou atividades espirituais.Os sinais de um ego inflado são sutis, mas perceptíveis: necessidade constante de reconhecimento, dificuldade em aceitar orientações, sentimento de superioridade e foco excessivo em si mesmo. Esses aspectos indicam um afastamento da essência do trabalho espiritual.

    É importante compreender que os guias não abandonam o médium por causa do ego. Pelo contrário, utilizam essas situações como ferramentas de aprendizado. Muitas vezes, diminuem sua atuação ou permitem que o médium enfrente dificuldades, não como punição, mas como forma de ensino e ajuste. Diante disso, o grande desafio é cultivar um ego estruturado, porém equilibrado. Um ego que sustente o trabalho mediúnico com responsabilidade, humildade e consciência, sem se colocar como protagonista. Afinal, na Umbanda, o verdadeiro protagonismo pertence à espiritualidade.

    A prática da auto-observação é fundamental nesse processo. Reconhecer pensamentos, sentimentos e reações permite identificar quando o ego está se manifestando de forma desequilibrada. Aceitar correções, manter a disciplina e permanecer aberto ao aprendizado são atitudes essenciais para um desenvolvimento saudável. Situações em que nos sentimos injustiçados, desvalorizados ou incompreendidos muitas vezes revelam feridas do ego que ainda precisam ser trabalhadas. Fingir que esses sentimentos não existem não os elimina. Pelo contrário, quando ignorados, tendem a crescer de forma silenciosa. O caminho mais adequado é observá-los com sinceridade, compreendê-los e lidar com eles de forma consciente.

    A vaidade, por sua vez, está diretamente ligada ao ego, mas possui características próprias. Ela pode ser entendida como o desejo excessivo de reconhecimento, admiração ou validação. Está associada ao que é ilusório, instável e pouco duradouro. No contexto mediúnico, a vaidade se manifesta quando o médium passa a buscar destaque, elogios ou uma posição de importância dentro do terreiro. Ainda que de forma sutil, esse comportamento desvia o foco do verdadeiro propósito da mediunidade, que é o serviço ao próximo. A vaidade pode se expressar de diversas maneiras: na necessidade de ser reconhecido como “mais preparado”, na comparação com outros médiuns, no desejo de chamar atenção durante as incorporações ou até na forma de se posicionar dentro da gira.

    Um ponto importante é que a vaidade não aparece apenas quando alguém se sente melhor que os outros. Ela também se manifesta quando o indivíduo acredita que sofre mais, que faz mais, que se dedica mais ou que é mais testado. Em ambos os casos, há um excesso de foco no “eu”. Esse comportamento enfraquece o senso coletivo e compromete a harmonia do trabalho espiritual. Quando o “eu” se sobrepõe ao “nós”, a egrégora se fragiliza.

    Além disso, a vaidade pode gerar desequilíbrios energéticos. A falta de humildade dificulta a sintonia com a espiritualidade superior, abrindo espaço para influências negativas que se alimentam dessas fragilidades. Outro aspecto relevante é a forma como a vaidade interfere até mesmo nas intenções do médium. Durante os trabalhos espirituais, pensamentos individualistas — como pedir apenas para si — podem impactar a energia do ambiente. O equilíbrio está em reconhecer as próprias necessidades sem perder a consciência do coletivo.

    É fundamental diferenciar amor-próprio de egoísmo. Cuidar de si é necessário, mas isso não deve excluir o cuidado com o outro. A espiritualidade está disponível para todos, e cada indivíduo recebe de acordo com seu momento e suas necessidades de aprendizado. Assim como o ego, a vaidade não deve ser negada, mas compreendida. Ela revela pontos de apego, insegurança e necessidade de validação. Ao ser reconhecida, pode ser transformada. O caminho para isso envolve vigilância constante sobre pensamentos e atitudes, alinhamento entre o que se pensa, sente e fala, além do compromisso com a verdade interior.

    No desenvolvimento mediúnico, a simplicidade é um dos maiores sinais de equilíbrio. Quanto maior a necessidade de reconhecimento, maior a distância do propósito espiritual. Por outro lado, quanto mais o médium se esvazia de si mesmo, mais a espiritualidade encontra espaço para atuar.O desenvolvimento mediúnico acontece dentro do terreiro, mas se estende por toda a vida do médium, assim como seus efeitos e desafios. O ego e a vaidade acompanham diariamente o indivíduo em suas relações, decisões e interpretações da realidade, e também se manifestam durante a gira e os trabalhos espirituais realizados dentro ou fora do terreiro.

    A mediunidade não é uma prática isolada, mas sim uma extensão da própria consciência. O médium mantém sua condição espiritual ao entrar e sair do terreiro. Ele não possui um controle para ligar e desligar sua mediunidade quando deseja, e sua forma de pensar, sentir e agir no dia a dia interfere diretamente em sua sintonia com o mundo espiritual.

    No ambiente profissional, uma forma corriqueira de manifestação do ego é a constante necessidade de reconhecimento, a dificuldade de receber críticas e a sensação de injustiça quando o indivíduo pensa que não recebe a devida valorização pelo trabalho que executa. No relacionamento afetivo, o ego pode aparecer quando a pessoa sente que recebe menos do que oferece, deseja controlar a relação e tem dificuldade para ceder. Na vida familiar e social, o ego surge nas comparações, na necessidade de impor pensamentos e ideias, na crença de que sempre tem razão e no julgamento do outro. Esse excesso de identificação com o “eu” na vida cotidiana dificulta a conexão com a espiritualidade, da mesma maneira que ocorre dentro do terreiro.

    Já a vaidade não se satisfaz somente com a busca por elogios e reconhecimento dentro do terreiro; ela vai além quando o indivíduo busca aprovação social, constrói uma imagem idealizada de si mesmo e necessita de uma constante validação do outro. O médium deve levar os aprendizados adquiridos dentro do terreiro para sua vida social. Porém, muitas vezes, pode não perceber que está repetindo fora os mesmos padrões que acredita combater internamente.

    Os comportamentos movidos pelo ego e pela vaidade impactam diretamente no desenvolvimento mediúnico. Um médium que, em sua vida cotidiana, alimenta conflitos internos, possui uma imagem inflada de si mesmo, necessita manter o controle das situações, tem sentimento de superioridade e busca incessantemente a admiração do outro, pode carregar essas mesmas vibrações para o terreiro. Dessa forma, a sintonia do médium se torna instável e, onde há desequilíbrio, a percepção se confunde e a conexão com os guias se torna mais difícil.

    Em contrapartida, o médium que utiliza as situações vivenciadas em seu cotidiano como oportunidades de autoconhecimento fortalece seu equilíbrio emocional e sua mediunidade. Cada dificuldade e desafio enfrentado fora do terreiro — seja uma frustração, um conflito ou uma crítica — pode se tornar um exercício de humildade, escuta e consciência.

    Sendo assim, a vida cotidiana é um verdadeiro campo de treinamento espiritual. É nas relações familiares, sociais e profissionais que o médium tem a oportunidade de desenvolver paciência e humildade, aprender a lidar com suas emoções, reconhecer suas limitações e trabalhar suas tendências egoicas e vaidosas.

    Para que aconteça um desenvolvimento mediúnico consistente, é necessário que haja conexão entre o que se vive dentro e fora do terreiro. A postura que o médium mantém durante a gira precisa ser sustentada em seu cotidiano, não como perfeição, mas como prática constante de consciência. A busca pela evolução espiritual é importante, mas o médium precisa, mais do que isso, assumir a responsabilidade pelo seu próprio comportamento em todas as áreas de sua vida. Só assim acontece o verdadeiro crescimento, quando o espiritual e o humano são integrados.

    Dessa forma, o ego e a vaidade não serão inimigos a serem eliminados, nem obstáculos para o crescimento e desenvolvimento pessoal e espiritual, mas sim indicadores do que ainda precisa ser compreendido e equilibrado, porque eles mostram, com clareza, onde há apego, insegurança ou necessidade de reconhecimento. Quando o médium consegue olhar para dentro de si mesmo de forma honesta e constante, reconhecendo o que precisa ser modificado, ele encontra a possibilidade real de evolução. Reconhecer as próprias sombras é um passo essencial para permitir que a espiritualidade conduza o caminho com mais clareza.

    Servir sem se colocar acima, trabalhar sem buscar reconhecimento e manter a humildade são pilares fundamentais para uma caminhada mediúnica verdadeira.

Marina de Nanã e Adriana de Oxum