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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Deus é o infinito?

 Deus é o infinito?

Quando pensamos em Deus, buscamos compreender a origem e o sentido de tudo o que existe. De acordo com o Livro dos Espíritos, Deus é definido como a “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Essa ideia apresenta Deus como a origem de toda a criação. O livro também diferencia Deus do infinito, o infinito é aquilo que não tem começo nem fim, enquanto Deus é uma inteligência suprema que possui infinitas perfeições. Portanto, não seria correto simplesmente dizer que Deus é o infinito.


A existência de Deus também é apresentada a partir da razão. O princípio de que “não há efeito sem causa” leva à reflexão de que, se o universo existe, deve haver uma causa para sua existência. Como o ser humano não poderia ser a causa de tudo o que existe, essa causa primeira é compreendida como Deus. Assim, a ideia de Deus não é apresentada apenas como uma questão de fé, mas também como uma reflexão sobre a própria existência, a organização do universo e a relação entre causa e efeito.

Mesmo reconhecendo sua existência, o ser humano não consegue compreender completamente a natureza de Deus, pois sua inteligência e sua linguagem são limitadas. Podemos, porém, formar uma ideia de suas perfeições. Ele é apresentado como eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom. Esses atributos mostram que Deus, nessa visão, não está sujeito às limitações e imperfeições que fazem parte da realidade humana.

Quanto mais desenvolvemos nossa razão e nossa compreensão, mais podemos refletir sobre essas características, embora nunca possamos compreender totalmente o que é Deus. Portanto, Deus pode ser compreendido como a inteligência suprema e a causa primária de tudo o que existe. Ele é apresentado como eterno, único, perfeito, justo e bom, mas sua natureza está além da compreensão completa do ser humano. 

Dessa forma, o ensinamento do Exu Sete Catacumbas nos leva a compreender também Deus não apenas por uma definição, mas pela reflexão sobre a existência, a criação e suas próprias perfeições. Deus é, assim, o princípio supremo de toda a existência, cuja grandeza ultrapassa os limites da compreensão humana.

Tauhane de Oxum


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Arruda

 Arruda

A arruda (Ruta graveolens) é uma das ervas mais conhecidas quando se fala em proteção espiritual. Presente em diversas culturas há séculos, ela é valorizada tanto por seu simbolismo quanto por suas características naturais, tornando-se uma planta de grande importância nas tradições populares e religiosas.

Na Umbanda, a arruda é considerada uma erva de limpeza e descarrego energético. É amplamente utilizada em banhos, defumações e benzimentos com o objetivo de afastar energias negativas, fortalecer o campo espiritual e restaurar o equilíbrio das vibrações. Por sua força simbólica, é frequentemente associada à proteção e à renovação energética.



Do ponto de vista científico, a arruda contém óleos essenciais e compostos bioativos que despertam o interesse da pesquisa. No entanto, seu uso exige cautela: a planta pode causar irritações na pele e, quando utilizada de forma inadequada, especialmente com exposição ao sol, pode provocar queimaduras conhecidas como fitofotodermatite. Além disso, seu consumo não é recomendado sem orientação profissional, pois pode ser tóxico em determinadas quantidades.

Uma curiosidade é que a arruda é conhecida por seu aroma intenso, que atua como um mecanismo natural de defesa da planta contra insetos e alguns animais. Na Umbanda, esse mesmo aroma é tradicionalmente associado ao poder de purificação e proteção espiritual.

Ao longo da história, Arruda tornou-se um símbolo de proteção em diversas culturas, atravessando gerações por seu significado espiritual e pelo respeito às suas características naturais.

Rebeca Galhardo de Ossain


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A ciência da árvore da Jurema

 A ciência da árvore da Jurema

A Jurema Sagrada é uma tradição religiosa de origem afro-ameríndia, que surgiu no Nordeste do Brasil com os índios da região, o culto Jurema abrange práticas oriundas do espiritismo, Catolicismo, da Umbanda, da Pajelança, das magias Europeia e oriental. É também conhecida como Jurema Nordestina ou Catimbó (Fumaça do cachimbo). O nome "Jurema" tem origem indígena, especificamente nas línguas tupi-guarani. No contexto indígena, Jurema refere-se a uma variedade de plantas espinhosas, como a jurema preta e a branca, as quais são usadas em rituais religiosos para usar de suas raízes na confecção de vinhos para os rituais.

A Jurema (Acacia Jurema) é uma das muitas espécies das quais a Acácia é o gênero. Várias espécies de Acácia nativas do nordeste brasileiro recebem o nome popular de Jurema. As Acácias sempre foram consideradas plantas sagradas por diferentes povos e culturas de todo o mundo; Os Egípcios e Hebreus veneravam a “Acacia nilotica” (Sant, Shittim, Senneh), os Hindus a “Acacia suma” (Sami), os Árabes a “Acacia arabica” (Al-uzzah), os Incas e outros povos indígenas da América do sul veneravam a “Acacia cebil” (vilca, Huillca, Cebil), os nativos do Orinoco a “Acacia niopo” (Yopo) e os índios do nordeste brasileiro tinham na “Acacia jurema” (Jurema, Jurema, Calumbi) a sua árvore sagrada, ao redor da qual se desenvolveu essa tradição hoje conhecida como “Jurema sagrada”.



O que simboliza o catimbó é a árvore jurema, que para os catimbozeiros é um símbolo de força e de energia e poder, e daí surgem os mestres juremeiros que trabalham nessa força, sendo caboclos, boiadeiros, ciganos, pretos velhos, baianos, marinheiros, sereias, príncipes, princesas, rei e rainhas. Da árvore jurema se retira sementes para unir e firmar novos discípulos, o tronco para levantar no mundo material a representação do mestre do invisível e prepara com a raiz uma bebida de força chamada, dependendo do lugar de: CAUIM, LICOR, JUREMA, MESTRE, e CIÊNCIA.

Para alguns umbandistas (que como em nossa casa somos juremeiros graças a vertente espiritual seguida), a jurema traz consigo o equilíbrio e o direcionamento. Cada elemento do pé da árvore Jurema são caminhos e moradias de espíritos da qual são pertencentes para o culto a Jurema sagrada, cada elemento da árvore tem uma representatividade e é utilizado pelos juremeiros em trabalhos espirituais e até mesmo em ritualísticas. O pé da árvore Jurema se divide em: folhas, flores, sementes, tronco e raiz, cada um desses elementos são muito importantes para os caminhos dos juremeiros. Contam os mais antigos que quando o sangue do menino Jesus Cristo fez contato com o pé da árvore Jurema, ela se tornou sagrada e moradia dos espíritos. Os “5” caminhos são classificados em:

RAIZ DA JUREMA: na parte da raiz é onde vamos encontrar a purificação e os espíritos mais pesados, os “capangueiros” e os “mestres Quimbandeiros”

TRONCO DA JUREMA: na parte dos troncos iremos encontrar os mestres de direitas

FOLHA DA JUREMA: na parte das folhas iremos encontrar as senhoras mestras

FLOR DA JUREMA: na parte das flores iremos encontrar os príncipes e princesas

SEMENTES DA JUREMA: na parte das sementes iremos encontrar os Reis e Rainhas aonde mora toda a ciência


O cachimbo é um elemento primordial para o culto a Jurema, sem ele não há catimbó, assim sendo o cachimbo é feito dessa árvore sagrada e que contém casca sua casca. O cachimbo passa por um processo iniciático da qual ele também passa junto com o discípulo, e por esse motivo o cachimbo só servirá para o discípulo. 



O cachimbo também tem seu fundamento, o buraco que fica na cabeça do cachimbo onde a qual vai o fumo, ele representa a extensão da terra. O canudo a qual serve para soltar fumaça tem a ligação entre o discípulo com a entidade, quando o juremeiro fuma o cachimbo ele faz a ligação entre ele e a entidade fazendo assim o elo entre dois mundos o espiritual e o cívico, sendo assim o cachimbo tem a mesma prioridade da própria árvore sagrada.

Após a pequena compreensão da grandiosidade dessa árvore tão cultuada, devemos sempre lembrar de cuidá-la e proteger sua ciência, que a força dos mestres esteja presente em nossas vidas.

Saravá os mestres!

Leonardo de Oxossi.”


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Os Orixás e os caminhos da vida

 Os Orixás e os caminhos da vida

    Os ensinamentos reunidos neste texto surgiram a partir das orientações do guia-chefe de nossa casa, o Sr. Caboclo Sete Flechas, quando perguntei sobre os Orixás cultuados na casa, dentro da Umbanda de Jurema, e sobre as correlações entre essas forças. A partir dessas orientações, começamos a compreender que olhar para o congá também pode ser um exercício de reflexão. Mais do que observar as imagens ali dispostas, podemos meditar sobre aquilo que sua organização nos ensina e sobre como essas forças se relacionam comos diferentes momentos da nossa própria caminhada. 

    Esse entendimento começa ao olhar o congá de baixo para cima, seguindo um caminho que passa pela Geração, Evolução, Lei, Justiça, Conhecimento, Amor e Fé. Não devemos compreender essas etapas como algo rígido ou separado. São processos que se encontram, se complementam e se repetem ao longo da vida. 

    Tudo começa na Geração, onde encontramos Iemanjá e Omolu. É o princípio de gerar: gerar a vida, gerar as cabeças e permitir que algo novo possa existir. E esse processo continua durante toda a nossa existência. Geramos ideias, escolhas, projetos, sentimentos, mudanças e novos ciclos.  Aquilo que foi gerado segue para a Evolução, onde encontramos Obaluaê e Nanã. Evoluir é passar pelo tempo e permitir que as experiências nos transformem. É também nesse caminho que encontramos a sabedoria, tão presente nessa linha. 

    Algumas coisas somente conseguimos compreender depois de vivê-las. Nanã nos remete à ancestralidade, ao tempo, à maturidade e à sabedoria, enquanto Obaluaê nos mostra os processos de transformação necessários para continuar. Evoluir não significa não errar. Significa aprender com aquilo que vivemos, amadurecer e seguir adiante de uma maneira diferente.  Na sequência, chegamos à Lei, com Ogum e Oyá Egunitá. Dizemos que Ogum abre os caminhos, remove obstáculos e oferece os recursos necessários para a realização. É a força do trabalho, da tecnologia, do conhecimento e das oportunidades. Mas ter um caminho aberto não significa que ele será percorrido. De nada adianta possuir oportunidades, capacidades e ferramentas se não houver força de vontade para agir. É aí que compreendemos a força de Oyá Egunitá, trazendo movimento, determinação e transformação. Ogum abre o caminho, mas somos nós que precisamos ter força para percorrê-lo. 

    Depois encontramos a Justiça, representada por Xangô e Iansã. Xangô nos ensina sobre equilíbrio, retidão e responsabilidade diante de nossas escolhas. Iansã, com seus ventos e tempestades, traz movimento e mudanças que muitas vezes nos tiram de situações nas quais estávamos acomodados. Nem toda tempestade vem somente para destruir. Algumas chegam para movimentar aquilo que estava parado e nos fazer crescer. Assim, vamos aprendendo que não controlamos tudo o que acontece em nossa caminhada, mas somos responsáveis pela maneira como escolhemos seguir diante daquilo que acontece. 

    Após tantas experiências, chegamos ao Conhecimento, onde encontramos Oxóssi e Obá. Não basta simplesmente passar pelas situações da vida; precisamos aprender com elas. O conhecimento também nasce da prática, da observação e da vivência. Tudo aquilo que aprendemos durante a caminhada chega, nesse momento, à hora de ser colocado em prática. Aos poucos, aquilo que aprendemos deixa de ser somente algo que sabemos e começa a fazer parte da maneira como escolhemos e agimos. 

    Quando esse conhecimento amadurece, começamos a compreender o Amor, representado por Oxum e Oxumaré. Percebemos que nossa caminhada não pode ser construída apenas pela força, pela justiça ou pelo conhecimento. O amor nos ensina a acolher, compreender, renovar e olhar para o outro e para nós mesmos de uma maneira diferente. É também através dele que começamos a enxergar nossas próprias experiências com mais compreensão. Quando aprendemos sobre o Amor, passamos a olhar de outra maneira para tudo aquilo que já atravessamos. As dificuldades, os caminhos que não deram certo, as tempestades, as correções e até mesmo nossos próprios erros passam a ser vistos não somente pelo sofrimento que produziram, mas também pelo aprendizado que deixaram.O Amor nos permite compreender sem deixar de reconhecer a responsabilidade. Amar não significa retirar a Lei ou a Justiça, mas aprender a enxergá-las com consciência e equilíbrio. 

    E é justamente quando conseguimos reunir aquilo que vivemos — a Geração, a Evolução e sua sabedoria, os caminhos da Lei, as experiências da Justiça, o Conhecimento adquirido e o aprendizado sobre o Amor — que começamos a olhar para nossa própria caminhada de outra maneira e alcançamos a Fé, onde encontramos Oxalufã, Oxaguiã e Oyá Tempo.  A Fé, nesse entendimento, vai além de simplesmente acreditar. Ela nasce também da compreensão da nossa caminhada, daquilo que já atravessamos e da confiança necessária para continuar, mesmo quando ainda não sabemos o que encontraremos adiante. Oyá Tempo nos faz refletir justamente sobre os ciclos e sobre a importância de entendermos em qual momento da nossa caminhada estamos. Há momentos de gerar, momentos de amadurecer, momentos de caminhar e outros de transformar. Há situações que nos pedem Justiça, outras que nos trazem conhecimento, algumas que nos ensinam sobre o Amor e aquelas em que precisamos, principalmente, sustentar nossa Fé. 

    Talvez um dos grandes ensinamentos esteja justamente em aprender a reconhecer esses momentos. Muitas vezes queremos respostas imediatas para aquilo que estamos vivendo, quando talvez precisemos primeiro compreender qual processo a vida está nos convidando a atravessar. Nem sempre é hora de avançar. Algumas vezes é hora de aprender. Nem sempre é hora de colher; algumas vezes ainda estamos no momento de gerar. Existem momentos de transformação, de espera, de movimento, de conhecimento, de amor e de fé. Quando compreendemos isso, passamos a olhar para nossa caminhada de outra maneira. Entendemos que aquilo que vivemos hoje também participa da construção daquilo que seremos amanhã. 

    Os caminhos abertos precisam ser percorridos, as experiências precisam ser compreendidas e o conhecimento adquirido precisa encontrar lugar em nossas atitudes. E o caminho não termina quando chegamos à Fé. A vida continua e novos ciclos começam. Aquilo que hoje termina pode abrir espaço para algo novo ser gerado. Aquilo que hoje não compreendemos pode se tornar sabedoria com o tempo. E um caminho que hoje parece difícil pode nos conduzir a um aprendizado necessário. Assim seguimos: gerando, evoluindo, caminhando, escolhendo, aprendendo, amando e fortalecendo nossa Fé. Não para chegarmos a um ponto em que teremos aprendido tudo, mas para vivermos cada novo ciclo com um pouco mais de consciência, sabedoria e compreensão sobre nós mesmos, sobre o próximo e sobre os caminhos da vida. 

Com isso, ao olhar e meditar sobre o congá, podemos também olhar para dentro de nós mesmos e nos perguntar:

Em qual momento dessa caminhada eu estou? 

O que este momento está tentando me ensinar? 

O que já foi colocado diante de mim e que ainda preciso aprender a utilizar? 

O que precisa ser transformado para que eu possa continuar? 

Por fim, não estaríamos somente observando os Orixás individualmente, mas buscando compreender como cada uma dessas forças se relaciona com os diferentes momentos da nossa existência e como, juntas, podem nos ensinar sobre o processo de viver, aprender e evoluir. 

Axé! 

Marina de Nanã Buruquê


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Exu 7 Catacumbas e Exu Tiriri

 Exu 7 Catacumbas e Exu Tiriri 

Nesse  texto falarei de dois Exus que trabalham em nossa casa, uma breve explicação sobre seu trabalho, os orixás que os regem e algumas características dos seus instrumentos de trabalho.

Exu 7 catacumbas é o Exu que trabalha com nosso Pai de Santo Igor, é um Exu de Calunga ou seja seu ponto de força é a Calunga pequena (o cemitério). Trabalha na força de Exu e Omolu, senhor da transformação, atua na cura das doenças da alma. Fuma charuto, bebe Marafo (o ruim, que toma normalmente ou bom que toma em ocasiões especiais, esse é presente que ganha), bebe junto uma bebida de macerado de ervas feito pelo cambone. Usa cartola, camisa e capa todos ganhados. Usa uma guiada cruzada no peito e nas costas para ter vários caminhos, essa foi a única coisa que pediu. Ao lado de sua cadeira colocam-se duas caveiras, referente a João caveira e Zé Caveira que trabalham ao seu lado, trazendo equilíbrio e abrindo e fechando as porteiras.



Exu Tiriri é o Exu que atualmente trabalha com nossa Mãe Pequena Railany, também é um Exu de Calunga, trabalha na força de Exu e Omolu. Seu trabalho é naquilo que mais incomoda, nas dores mais profundas, se tem algo que te aflige, é só falar que ele vai desenterrar. Ele fuma charuto, bebe marafo (qualquer um, mas prefere conhaque), usa cartola e capa por elegância. Embaixo da sua cadeira fica um cajado, feito de mangueira, pois a mangueira é uma árvore que tem as raízes profundas, assim como ele trabalha nas profundezas. Exu Tiriri me disse uma vez que ele se apresenta de várias formas, que ele pode vir de acordo com o ponto que cantamos (eu vi o moço bonito), ou de forma bem desagradável, dependendo de como ele quer se apresentar ou de como ele precisa trabalhar.

Exu é guardião, Exu merece respeito e impõe respeito.

Laroyê Exu

Rebeca de Ossain


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Exu

 Exu

Entre as diversas linhas de trabalho da Umbanda, Exu ocupa uma posição de grande importância. Conhecido como o Guardião dos Caminhos, é uma entidade que atua na manutenção da ordem espiritual, na proteção dos trabalhos mediúnicos e na execução da Lei Divina. Sua missão está diretamente ligada à justiça, ao equilíbrio e à movimentação das energias, sempre em conformidade com a vontade do Alto.

Ao contrário de muitos conceitos equivocados difundidos ao longo da história, Exu não representa o mal nem possui qualquer relação com figuras demoníacas. Na Umbanda, Exu é compreendido como um espírito trabalhador, disciplinado e altamente consciente de suas responsabilidades espirituais. Sua atuação é pautada na caridade, na proteção e na evolução daqueles que buscam auxílio com sinceridade e merecimento.



Uma das principais funções de Exu é atuar como guardião dos caminhos espirituais. Ele protege os terreiros, ampara os médiuns durante os trabalhos, organiza as correntes espirituais e auxilia na limpeza de energias desequilibradas que possam interferir nas atividades da casa. Por sua grande capacidade de transitar entre diferentes faixas vibratórias, Exu também exerce o papel de mensageiro, estabelecendo a comunicação entre os planos espiritual e material e colaborando com as demais linhas de trabalho da Umbanda.

Sua energia é dinâmica, firme e transformadora. Quando necessário, Exu auxilia na abertura de caminhos, na remoção de obstáculos espirituais, na quebra de influências negativas e no fortalecimento da proteção energética. Entretanto, sua atuação nunca acontece para satisfazer interesses egoístas ou prejudicar outras pessoas, mas sempre em conformidade com a Lei Maior e com os princípios da justiça divina.

Cada Exu possui sua própria identidade espiritual, sua história e sua forma particular de trabalhar. Por isso, existem diversas falanges e linhas de atuação, como Exu Tranca-Ruas, Exu Marabô, Exu Tiriri, Exu Veludo, Exu Caveira, Exu Gira Mundo, entre muitas outras. Cada falange desenvolve determinados tipos de trabalho espiritual, embora todas estejam comprometidas com a proteção, à ordem e o cumprimento da Lei.

Na Umbanda, Exu é frequentemente representado como um guardião forte, decidido e vigilante. Essa imagem simboliza sua firmeza diante das dificuldades e sua capacidade de enfrentar as energias mais densas, impedindo que elas interfiram no desenvolvimento espiritual dos filhos de fé. Sua linguagem costuma ser direta, objetiva e, muitas vezes, marcada por ensinamentos profundos transmitidos de forma simples e acessível. É importante compreender que Exu não age de maneira independente da espiritualidade superior. Sua atuação acontece sob a orientação dos Orixás e das hierarquias espirituais da espiritual.

Bruna de Obá


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Ubuntu: Eu sou porque nós somos

 Ubuntu: Eu sou porque nós somos

Existe um provérbio africano que sintetiza a filosofia Ubuntu, ele nos diz “eu sou porque nós somos”. Essa é uma das expressões mais conhecidas dessa filosofia, trazendo uma compreensão que ninguém existe plenamente sozinho. Nós, como seres humanos, somos construídos à partir do encontro, do cuidado e da responsabilidade que temos uns pelos e com os outros. E, levando esse pensamento em consideração, é impossível não pensar na filosofia Ubuntu e não a vinculá-la com os princípios da Umbanda e de nosso terreiro.

Pensando em uma sociedade que, cada vez mais, é construída em ideias de competição, de acumulação de reconhecimento e de colocar nossas próprias vontades acima do coletivo, nossa religião nos permite a ter um olhar e nos movimentar de forma diferente, aprendemos que o crescimento e evolução individual só faz sentido quando fortalecemos o que verdadeiramente importa, o amor e a caridade.

Nós não somos seres plenamente auto-suficientes. Ninguém consegue sustentar uma gira sozinho, estando na curimba ou na terra, estando incorporado ou dando auxílio às entidades; ninguém aprende sozinho; ninguém cuida sozinho, precisamos de cada energia para que o trabalho flua e funcione da maneira correta. Cada irmão presente na casa, do início ao final da fila, compõe um elo dessa corrente, quando um elo está fraco, o restante também se enfraquece e, o contrário também é verdadeiro, quando um elo está forte, dá força para os outros.

Por isso, não há espaço para narcisismo e egocentrismo em uma casa de umbanda, o terreiro não pode ser um lugar que o ego contempla sua própria imagem como em um espelho d’água. Gosto de enxergar o terreiro como uma água corrente e, quem corre junto com a água, não há espaço para sustentar um reflexo perfeito. Uma casa onde as pessoas estão dispostas a deixarem o Axé vir em primeiro lugar, é uma casa que abre espaço para que as nossas forças ancestrais estejam presentes, permitindo que os ensinamentos sejam passados e que nos tornemos pessoas melhores, mais próximas e conectadas às energias divinas.



O terreiro é um espaço de encontro e de trocas, onde cada um compõe um pedacinho do todo, com suas histórias, processos e experiências de vida diferentes. Por isso, o pensamento de comparação com o irmão ou de querer fazer/aparecer mais que o outro não faz sentido, pois ninguém atravessa a umbanda sem marcas e não se pode medir a própria caminhada usando como régua a caminhada e experiências do outro. Nossa convivência em grupo exige um valor raro nos tempos de hoje, humildade. Precisamos ser humildes para reconhecer que nem tudo é sobre o que pensamos, nem toda opinião precisa se transformar em crítica e acusações, nem todas as situações diárias precisam passar pelo nosso julgamento.

Quando entrei no terreiro, Pai Igor disse uma frase que carrego comigo até os dias de hoje, “precisamos guardar um pedacinho de decepção para todo mundo, pois somos humanos e também erramos”. Precisamos abandonar a ilusão da perfeição, nossa casa é viva, é como uma água corrente, é sustentada por pessoas, com qualidades, defeitos e limites. O terreiro não é feito para criar e sustentar pessoas impecáveis e sem defeitos, mas sim para fortalecer pessoas comprometidas com a sua autotransformação.

Dito isso, quando lembramos da filosofia Ubuntu, lembramos também que a essência de nossa existência é de partilha. O terreiro nos ensina exatamente isso: ninguém evolui somente para si mesmo, nós só somos plenamente quem somos porque existem outros caminhando conosco. Quando o coletivo é colocado acima das vaidades individuais de cada um, o terreiro cumpre sua missão de filhos que são capazes de honrar seus ancestrais.

Isabela de Iansã


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Fumo

 Fumo

O fumo é amplamente utilizado na Umbanda para trabalhos em defumação e energização dos guias. Sua utilização traz característica ancestral, pois desde os primórdios nossos ancestrais fazem uso do fumo para manipulação energética.

Além do fumo utilizado puramente, na maioria dos trabalhos de umbanda mistura-se ervas específicas conforme a necessidade de cada trabalho.



A fumaça gerada através do fogo no fumo gera a "queima", não ao do fumo mas também energética, podendo dependendo do trabalho ocasionar também a "impregnação " da energia emanada, no caso de energização através do  fumo.

Não se pode ignorar a importância e a essência da utilização do fumo e demais itens energéticos nos trabalhos, pois tudo tem um porquê.

Mylene de Ogum Rompe Mato


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Exu Arranca Toco

 Exu Arranca Toco

Certa vez, o Exu Arranca Toco me contou como passou a trabalhar na falange de Arranca Toco. Para compreender sua história, é preciso primeiro entender a missão dessa linha de trabalho. Os Exus Arranca Toco atuam sobre tudo aquilo que se encontra enraizado na vida das pessoas, sejam dores, vícios, traumas, obsessões, padrões de comportamento ou situações que impedem seu crescimento espiritual material. Seu trabalho é encontrar a origem do problema e arrancá-lo pela raiz.

Durante nossa conversa, ele me perguntou se eu já tinha visto alguém arrancar o toco de uma árvore. Respondi que sim e que era um trabalho difícil, pois não bastava cortar o tronco; era necessário retirar as raízes que permaneciam presas à terra. Então ele me explicou que sua missão era exatamente essa: ajudar a remover aquilo que mantém os filhos presos ao sofrimento, impedindo-os de seguir adiante. 

Em sua última encarnação, segundo me contou, foi uma pessoa de temperamento difícil e acabou atraindo muitos inimigos. Sua vida terminou de forma violenta, sendo assassinado e enterrado em uma mata fechada, próximo ao toco de uma árvore. Por muito tempo, permaneceu ligado à dor daquela experiência, preso às lembranças, às mágoas e aos sentimentos que ainda o mantinham conectado ao passado.

Foram necessários muitos anos de aprendizado e transformação para que pudesse se libertar dessas correntes invisíveis. Quando finalmente aceitou o amparo da espiritualidade, encontrou uma nova oportunidade através do trabalho na caridade. Foi então que passou a integrar a falange dos Arranca Toco, transformando a própria experiência de sofrimento em instrumento de auxílio para aqueles que também precisam se libertar de suas dores.

Desde então, trabalha auxiliando aqueles que buscam orientação e fortalecimento. Seu olhar sempre me chamou a atenção. Quando o questionei sobre isso, ele me explicou que os olhos de um Exu não se prendem às aparências. Eles enxergam além das máscaras, alcançando aquilo que muitas vezes tentamos esconder dos outros e até de nós mesmos. Ele vê os medos, os conflitos e as raízes dos problemas que carregamos em silêncio, trazendo à luz aquilo que precisa ser trabalhado e transformado. 



Seu trabalho carrega a força das matas e dos caminhos. Por isso, em sua atuação estão presentes as energias de Oxóssi e Ogum. De Oxóssi vem a sabedoria para identificar a raiz do problema, a paciência do caçador e o conhecimento daquilo que está oculto. De Ogum vem a coragem, a firmeza e a força necessária para cortar as demandas e remover os obstáculos que impedem o avanço daqueles que buscam auxílio.

Ao longo da minha caminhada, ele se tornou uma presença muito importante em minha vida. Como sua incorporação não acontece com frequência, ensinou-me algo que considero um dos seus maiores ensinamentos: a importância da conexão através da fé e do pensamento. Aprendi que não é necessário esperar uma manifestação física para conversar com os guias. Sempre que surge uma dúvida, uma angústia ou uma decisão importante, recorro a ele em pensamento, e essa conexão fortalece minha confiança na espiritualidade.

Foi também com ele que aprendi que nenhum guia resolve sozinho os problemas de alguém. Os guias nos oferecem amparo, direção e confiança, mas cada pessoa precisa encontrar dentro de si a coragem para dar os próprios passos. Muitas vezes esperamos soluções prontas, quando, na verdade, o maior trabalho é nosso. O guia aponta o caminho, sustenta e fortalece, mas a caminhada continua sendo responsabilidade de cada um.

Esse é o Exu Arranca-Toco que conheço: uma entidade firme e acolhedora, cuja história de superação se transformou em missão. Através de seus ensinamentos, compreendo diariamente que muitas das raízes que nos aprisionam precisam ser arrancadas por nós mesmos.

Eu sou pequenininho, de mim não faça pouco, olha lá ele é Exu, Exu Arranca Toco

Eu sou pequenininho, ninguém tem nada com isso, tem gente que é grande e não dá conta do serviço.

Laroyê, meu padrinho.

Jéssica de Obaluaê


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Medicina indígena

 Medicina indígena

Os povos indígenas trazem culturas ricas de tradições ancestrais e conhecimentos em todas as áreas da vida, principalmente quando se trata da área da saúde, de modo que as diversas práticas e saberes ficaram popularmente conhecidos como medicina indígena e esse conhecimento é transmitido de geração em geração, através de cada ancestral físico e espiritual da floresta.

Na floresta, o cuidado é coletivo, ou seja, sempre é cuidado o corpo, o espírito e a terra. Assim, quando um integrante da aldeia está doente, todos da aldeia se encontram doentes, pois o um é coletivo. As práticas de cura indígena envolvem rituais de banho, defumação, garrafadas, xaropes e chás.

Muito se observa os processos ensinados dos ancestrais para os mais jovens e a importância de preservarmos esses ricos rituais através de plantas medicinais como o cumaru, mucuíba, copaíba, andiroba. São usadas também raízes de árvores, folhas, sementes trituradas, óleos e leites das próprias plantas, cada uma tendo sua rica importância. A forma em que esses conhecimentos são passados para os mais novos é através de cantos, muito da cultura indígena é ensinado através de cantigas e de histórias nos encontros das aldeias.

Para os povos tradicionais, a medicina indígena não é apenas uma forma de cura do físico, está ligada à identidade dos povos e à natureza, é a mais pura raiz da ancestralidade brasileira, é uma energia vital para cada um que compõe o coletivo indígena, é uma forma de cuidar de si mesmo, do próximo e de preservar a natureza.



Os indígenas acreditam que muitas doenças acontecem por causa da destruição que causamos ao ambiente, seja ele terrestre ou aquático, pois o princípio de tudo é a Mãe Terra e ela é habitada pelos Waimahsã, que são seres guardiões da natureza, com os quais todos os seres humanas devem interagir e se comunicar para pedir licença e usufruir dos recursos que nossa casa pode nos dar. De outro lado, ao destruirmos os ambientes, estaremos destruindo a casa dos Waimhsã, assim eles lançariam doenças, conflitos e feitiçarias para àqueles que destruíram seu lar.

Nesse contexto, os povos tradicionais creem que não é possível tratar doenças apenas com medicamentos, a cura depende de uma combinação de vários fatores: medicina das plantas, benzimentos e, principalmente, mudança de costumes como dietas específicas para cada mazela, exclusão de carne, sexo, álcool, bem como diferentes tratamentos à mãe natureza.

Quando se há preconceito, as pessoas vestem uma ignorância enorme, a qual impossibilita o entendimento do conhecimento indígena. Digo isso pois várias pessoas acreditam que a cura tradicional e espiritual é na verdade uma cura que envolve magia e energias negativas, quando na verdade, é apenas uma medicina diferente da medicina branca e ocidental. 

É importante valorizarmos cada ensinamento trazido pela espiritualidade e por povos indígenas, sempre mantendo o respeito para compreendermos cada aspecto cultural de seus rituais e cerimônias de cura. Que os encantados das matas nos direcionam e nos guie na busca pelo conhecimento ancestral! 

Isabela de Iansã


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Música

 Música

Música refere-se a combinação e a organização de sons e silêncios ao longo do tempo. É uma forma de expressão que utiliza os sons como matéria prima, assim como a linguagem convencional utiliza palavras. Dentro da música existem algumas divisões importantes:

Melodia: Normalmente é a parte que você cantarolar (assobiar, gruda na cabeça);

Harmonia: É a combinação de vários sons tocando de forma compatível (todos os instrumentos conversando entre si, sintonizados, harmoniosos);

Ritmo: É a pulsação da música, quem organiza o tempo musical. (palmas, balanço da cabeça, pé batendo);

Timbre: Identidade de cada som, cada voz tem um timbre único, assim como os instrumentos, por mais que toquem a mesma nota.

Resumidamente é isso, a arte de combinar sons e silêncios a fim de transmitir algo.

Em termos de respostas, perguntas como: “Em que momento surgiu a música?” ou “Quando e como o homem primitivo começou a fazer música?” entram no campo do impossível, porém, sabe-se que a origem e desenvolvimento da música acompanham e se confundem com a história da humanidade. O som e o ritmo estão presentes na natureza e são, possivelmente, os primeiros componentes da linguagem musical com os quais o homem entrou em contato, já no útero, através das pulsações do coração materno. O homem experimenta a existência de elementos rítmicos e sonoros em seu próprio corpo, através dos batimentos cardíacos, na respiração, ao caminhar e produzindo sons com o corpo, através das mãos, dos pés e da voz. Não há arquivos sonoros das épocas primitivas, porém existem algumas hipóteses sobre a origem do canto humano.

Alguns pesquisadores afirmam que o canto surge pela necessidade de expressar sentimentos (PAHLEN, 1965); outros, ainda, acreditam que o homem, encantado com os ruídos emitidos pela natureza, tenta imitar o som dos pássaros, de ondas, ventos e trovões, iniciando seu próprio (BAITELLO JR. apud ZAREMBA; BENTES, 1999). O ritmo pessoal que cada homem possui facilita o desenvolvimento da sua capacidade musical. O homem primitivo, ao observar fenômenos da natureza e animais, pôde experimentar sentimentos impossíveis de serem expressados em seu vocabulário restrito. Dessa forma, desde a Pré-história é impossível dissociar a música da emoção.

Apesar das diferenças entre os pensamentos sobre a origem do canto e da fala, há uma concordância que a música é um meio de comunicação muito importante entre os homens. E através dessa comunicação musical, o ser humano conseguiu também se fortalecer como espécie, pois através desse entendimento entre espécies, foi possível a aproximação e a formação de grupos, tornando o homem um ser social. Além do canto, o homem pré-histórico percebeu que ao assoprar ossos furados, bater palmas ou percutir em peles de animais curtidas e esticadas poderia produzir diferentes sons. 

Todas as hipóteses da prática musical no período pré-histórico foram traçadas a partir de pesquisas arqueológicas, antropológicas e musicológicas. Os instrumentos mais antigos, flautas feitas de ossos com apenas um orifício, são do Paleolítico Inferior (período mais antigo da Pré-História dos humanos), usados provavelmente em caçadas para imitar sons ou cantos de animais e pássaros, ou para os homens se comunicarem. No Paleolítico Médio foram encontradas flautas com três a cinco orifícios. Em 2009 foi descoberta no sul da Alemanha, próximo à caverna de Hohle Fels, uma flauta feita de osso de abutre, datada de 35 mil anos, com quase 22 centímetros e cinco buracos, o osso tem marcas de linhas em volta dos buracos, sugerindo que os buracos foram calibrados para produzir um som melhor. Vários instrumentos musicais foram encontrados nessa área, reforçando a ideia de que os humanos paleolíticos desenvolveram uma cultura rica. Foram encontrados no total quatro fragmentos de quatro flautas. Além da flauta quase inteira em osso de urubu, três instrumentos foram feitos em marfim de mamute.



Os sumérios possuíam um método próprio de leitura musical e se utilizavam de instrumentos para acompanhamento vocal. Sua música tinha o estilo religioso e estava presente em todas as cerimônias solenes ou familiares. Construíram instrumentos de sopro a partir de chifres de animais e produziram também instrumentos de percussão. A música era para os sumérios, assim como a literatura, a linguagem e a matemática, uma das disciplinas básicas do ensino formal.

Para os babilônios, a música estava associada à animação de tropas durante as batalhas; alegravam os banquetes e festas em tempos de paz. O canto era utilizado para a caça, o amor, o ódio, a guerra, evocação dos mortos, estados de transe, entre outros. Para os assírios, a música era símbolo de poder, respeito e vitória. Os músicos eram mais reverenciados e estimados que os próprios sábios. A música hebraica sofreu influência de outros povos, porém consolidou-se com características próprias: caráter religioso, guerreiro, festivo e de lamentação. A Bíblia constitui a principal fonte documental sobre a referência à música hebraica. Não há muitas informações sobre a música fenícia, os fenícios são considerados os inventores de alguns instrumentos musicais, como a flauta dupla. 

Os egípcios tinham uma abundante atividade musical e diversidade de instrumentos musicais. A música egípcia estava ligada à religião, mas possuía um estilo de música para cada ocasião: de caráter religioso, nos cultos aos mortos e aos deuses; de caráter militar, quando eram cantados hinos em honra aos vencedores; de caráter social, animando banquetes solenes, cantos de trabalho, entre outros. A música egípcia era composta por cantos acompanhados por instrumentos e danças. Era coletiva e as mulheres tinham um papel importante e os músicos uma situação social inferior. A única notícia que se tem da cultura musical medo-persa antiga é que ela abrangeu toda a música e instrumentos musicais dos egípcios e mesopotâmicos, especialmente assírios, babilônios. A música persa é monofônica, ou seja, todos os instrumentos têm o mesmo padrão melódico sem conotações harmônicas. Na Grécia antiga, a música estava vinculada a todas as manifestações sociais, culturais e religiosas. Era a mais importante das artes, essencial para a educação e considerada uma força obscura, conectada com potenciais do bem e do mal. Bem ensinada, poderia ser um dos meios para atingir a virtude, segundo Platão. (do grego surgiu o a palavra mousiké téchne, que significa “a arte das musas”)

A música cristã não surgiu do nada; ela herdou a estrutura das sinagogas judaicas da Antiguidade. Nos primeiros séculos, a música era estritamente monofônica (apenas uma melodia, sem harmonia ou acordes). Os salmos bíblicos eram cantados de forma direta, herdando a tradição dos levitas de Jerusalém. Diferente dos Caldeus, os primeiros cristãos evitavam instrumentos em cultos públicos para se diferenciarem dos rituais pagãos romanos. O foco era a "música do coração" e a clareza da palavra. Com o tempo, essa tradição se consolidou no Canto Gregoriano. O ritmo aqui não era marcado por batidas de tambor, mas pelo ritmo da respiração e das sílabas do texto em latim. A música era vista como um reflexo da harmonia celestial. Cantar em coro simbolizava a união da comunidade ("um só corpo, uma só voz").

Enquanto a tradição europeia focou na melodia, a música africana desenvolveu uma complexidade rítmica e tímbrica inigualável. A polirritmia é o coração da música africana. Diferentes ritmos são tocados ao mesmo tempo por vários instrumentos de percussão (como o Djembe ou o Talking Drum). O que parece confuso para ouvidos destreinados é, na verdade, uma sobreposição matemática perfeita de tempos. Na maioria das línguas tradicionais africanas, não existia uma palavra isolada para "música". Ela estava integrada à vida: existiam canções específicas para plantar, para colher, para rituais de passagem e para contar a história da tribo (preservada pelos Griots, os contadores de histórias). A “Chamada e Resposta” é uma técnica onde um líder canta uma frase e o grupo responde. Essa estrutura é a base de quase tudo que ouvimos hoje, do Blues ao Jazz e ao Samba. O uso da Kora (harpa-alaúde) e da Kalimba (piano de polegar) demonstra uma busca por timbres metálicos e ressonantes que imitam elementos da natureza ou vozes ancestrais.

Dentro da cultura indígena a música é transmitida dos mais velhos para as crianças de forma oral. Ela pode estar ligada a momentos especiais, como festas, rituais, narrativas míticas e também ao dia a dia da aldeia! Os povos também cantam para brincar, caçar, pescar e construir as suas malocas. O canto e o som do Maracá servem para abrir canais de comunicação com a pajelança e realizar curas. Diferente dos Caldeus, as culturas indígenas das Américas focaram menos em cordas e mais em aerofones. É comum encontrar flautas e apitos que muitas vezes são feitos de bambu, ossos de animais ou argila, com afinações que imitam o som da floresta. Também é encontrada a percussão de corpo e solo, constituídas por batidas de pés rítmicas que conectam o corpo do indígena à terra, criando uma vibração que ressoa no solo.Introdução dos instrumentos na Umbanda.


 

O primeiro terreiro fundado por Pai Zélio e o Caboclo das 7 Encruzilhadas trabalhava sem atabaques, usando apenas as palmas e cantos na sustentação das giras, alguns terreiros ainda mantêm essa tradição. Outras tendas fundadas por Pai Zélio e o Caboclo das 7 Encruzilhadas, introduziram os atabaques devido, principalmente, à influência das culturas africanas e do Candomblé. Os pontos de umbanda trazem no corpo e na letra uma grande miscigenação, atribuindo ritmo, palavras de origem indígena e africana, nomes de santos.

Na Jurema, o Maracá se fez presente desde o início do culto, tendo origem com a cultura indígena, ele tem a função de ritmar, dissipar energias e evocar a força dos ancestrais e encantados. A introdução do ilu (tambor) na Jurema Sagrada ocorreu como parte da influência e miscigenação com as religiões afro-brasileiras, especialmente no Nordeste, trazendo o tambor de origem iorubá, para conduzir o ritmo das giras e a chegada das entidades. Os pontos juremeiros possuem grande presença católica em sua estrutura, tanto na melodia cantada, quanto aos versos que citam os santos católicos.

A Curimba é quem compõem o grupo musical dentro do terreiro e cabe a curimba movimentar a energia vinda do congá, distribuindo-a pelo terreiro, potencializando, através das ondas sonoras, as vibrações e dissolvendo as energias negativas, criando assim um ambiente propício para os trabalhos que serão realizados. Seus integrantes devem cantar, bater palmas e tocar do início até o encerramento da gira para manter a vibração dos trabalhos e impedir que ela flua de maneira diferente do que está sendo exigido no momento. Qualquer desequilíbrio na energia pode atrapalhar a concentração dos médiuns incorporados, atrapalhando também o trabalho como um todo. A curimba auxilia na concentração e no foco dos médiuns de incorporação através dos toques e cantos que irão envolver suas mentes, ajudando na alteração de consciência e na criação de uma atmosfera psíquica positiva para os trabalhos. É também um grande polo movimentador, potencializando a energia que vem do congá. Além de auxiliar na sintetização da egrégora, a curimba, através da frequência emanada pela harmonia, é capaz de, por si só, auxiliar a quem necessita de um aumento vibracional, pois assim que a música entra em contato com o corpo (seja ele espiritual ou não), ela faz com que a frequência vibracional se modifique, mesmo que seja uma pequena porção.



O curimbeiro deve estar sempre atento à sua função para evitar confusões que possam atrapalhar o andamento dos trabalhos durante a gira. Pensamentos e emoções alheios podem gerar um contra fluxo energético, afetando negativamente os atendimentos. O fluxo de energia emanado pela curimba deve ser sempre ordenado e constante. Assim como os instrumentos que compõem a curimba, os seus integrantes também vão emanar energia. Por essa razão, é de extrema importância que o médium da curimba se monitore no decorrer do seu dia a dia e, principalmente, nos dias de gira. Durante a semana devem fazer suas firmezas, orações, vigiar os pensamentos, ações e palavras, sempre prezando pela paz e equilíbrio. 

Nos dias de gira o curimbeiro, assim como todos os integrantes da casa, devem se manter serenos, cumprir os preceitos e chegar mais cedo no terreiro para entrar em contato com as energias ali presentes. Caso o médium chegue agitado, ele deve se sentar, acalmar seus pensamentos, meditar, restabelecer o equilíbrio e adequar sua vibração. Se o médium está vibrando raiva, ansiedade, tristeza, desânimo, todos esses sentimentos serão emanados para o restante do terreiro, isso causará desequilíbrio na energia da gira e irá atrapalhar os trabalhos que estão sendo realizados. Por isso é tão importante que os curimbeiros sempre executam sua função com amor, gratidão e felicidade, para que possam emanar boas vibrações e contribuir positivamente para o resultado dos atendimentos.

Lays de Oxaguian


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Xangô

 Xangô

Falar sobre o Orixá Xangô é retratar a imposição de uma pedreira, a resistência de uma rocha e também a força que ela carrega para ocupar e sustentar seu espaço. Xangô é um orixá guerreiro, que irradia sua força através das pedreiras, que também são a base das cachoeiras de Oxum.

O símbolo de Xangô é um machado, uma mistura de sua pedreira e a demonstração da sua força para lutar. Não apenas força este Orixá demonstra, apesar de duras e aparentemente imutáveis, as pedreiras também se moldam ao tempo, à natureza, seja em seus formatos, ou em cachoeiras que passam por elas, mostrando a  necessidade de se adaptar, por mais que essa adaptação possa ser demorada.



Os filhos de Xangô carregam consigo a fortaleza de uma pedreira, a sabedoria de anos que uma Rocha carrega consigo, mas carregam a necessidade de aprender a se moldar conforme o mundo externo solicitar e demandar.

Xangô meu pai.

Mylene de Ogum Rompe Mato


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Omolu

 Omolu

Omolu é o Orixá que representa a transformação, a cura e a renovação da vida. Na Umbanda, sua força está ligada ao encerramento de ciclos, à purificação e ao renascimento, lembrando que toda cura começa quando aceitamos transformar aquilo que já não nos serve. 

Seu elemento é a terra, símbolo da vida, da decomposição e do recomeço. É da terra que tudo nasce e para ela tudo retorna, tornando Omolu um Orixá profundamente conectado aos ciclos naturais da existência.

Suas cores mais tradicionais são o preto e branco, que representam o equilíbrio entre os opostos, a passagem da dor para a cura e da escuridão para a luz. Em algumas tradições, também são utilizados tons de palha, em referência às vestes que simbolizam humildade, recolhimento e mistério.

Omolu é conhecido como o grande curador. Sua atuação vai além da cura física, alcançando também as feridas emocionais e espirituais. Ele ensina que o sofrimento não é um fim, mas uma oportunidade de aprendizado, fortalecimento e evolução.



Na Umbanda, Omolu é reverenciado com profundo respeito, pois sua energia convida ao silêncio, à reflexão e ao acolhimento. Seu axé nos lembra que a verdadeira cura acontece quando corpo, mente e espírito encontram equilíbrio.

Mais do que o Orixá das doenças, Omolu é o Orixá da superação. Onde muitos enxergam o fim, ele revela a possibilidade de um novo começo, mostrando que toda transformação exige paciência, humildade e confiança no tempo da vida.

Os filhos de Omolu costumam ser pessoas reservadas, resilientes e muito responsáveis. São conhecidos pela empatia, pelo acolhimento e pela capacidade de superar desafios com serenidade. Valorizam relações verdadeiras, possuem grande força interior e, muitas vezes, encontram propósito em cuidar e ajudar o próximo. Entre seus aprendizados está equilibrar a dedicação aos outros com o cuidado consigo mesmos.

Erika de Ewá