Animismo e mistificação
Na Umbanda, dois conceitos frequentemente discutidos dentro dos terreiros são animismo e mistificação. Ambos se referem a fenômenos que podem ocorrer durante a mediunidade, especialmente na incorporação, mas têm naturezas diferentes.
O animismo é frequentemente visto como um "tabu" ou um erro no desenvolvimento mediúnico, mas, na realidade, ele é uma parte normal de qualquer processo de comunicação espiritual. Entendê-lo é fundamental para o amadurecimento do médium e a pureza do trabalho no terreiro. O animismo refere-se aos fenômenos produzidos pela própria alma do médium. É a interferência da personalidade, das memórias, do subconsciente e da cultura do médium de incorporação na manifestação da entidade.
Não é farsa: o animismo não deve ser confundido com a "mistificação" (fingimento). No animismo, o médium acredita no que está ocorrendo, mas o conteúdo é filtrado por sua própria mente. O processo ocorre geralmente por ideoplastia (projeção de ideias). O guia projeta um sentimento ou imagem mental, e o cérebro do médium converte isso em palavras quase instantaneamente. No início do desenvolvimento, o médium perguntou: "Sou eu ou é o guia?". Na verdade, são os dois. É uma parceria.
Com o tempo, o médium aprende a identificar o "tom de voz" do pensamento do guia, que é diferente do seu fluxo de pensamento habitual. Nenhum médium é uma "folha em branco". O espírito utiliza o cérebro e o vocabulário do médium para se comunicar. Existe uma espécie de estoque mental. Se o médium, por exemplo, tem um vocabulário rico, a entidade terá mais facilidade em expressar conceitos complexos. O espírito não "injeta" palavras novas no cérebro do médium; ele manipula as que já existem.
Se o médium nunca ouviu uma palavra técnica, o guia terá que usar uma metáfora para explicar o conceito. É por isso que um Caboclo em um médium do Sul do Brasil pode usar expressões diferentes de um Caboclo em um médium do Nordeste. O arquétipo é o mesmo, mas a "ferramenta" (o médium) oferece materiais diferentes. Se o médium possui traumas ou opiniões muito rígidas, esses elementos podem camuflar um pouco a mensagem espiritual.
Quando o médium tem opiniões muito fortes ou preconceituosas, o espírito precisa "lutar" contra esse estoque para não deixar a mensagem ser distorcida. O Animismo traz junto com ele vários aspectos que necessitam de desenvolvimento pessoal para serem conduzidos e superados. O maior desafio enquanto desenvolvimento pessoal é aprender a distinguir o "eu" do "outro". Isso exige uma autoanálise profunda. O médium começa a questionar: "Esse pensamento é meu ou foi intuído?". Esse processo acelera a inteligência emocional.
Quando o médium percebe que sua mente interfere na mensagem, ele entende que precisa de reforma íntima. Se a mente do médium está "suja" de preconceitos ou raiva, a mensagem passará por esse filtro distorcido. Muitos médiuns travam por medo do animismo. O desenvolvimento pessoal aqui envolve superar a síndrome do impostor e entender que o médium é um canal, e todo canal possui alguma resistência ou característica própria.
Processo de confiança, busca por estudos. Para quem recebe a orientação (o consulente), a interferência anímica pode ser tanto um bálsamo quanto um risco. Se o médium atua de forma puramente anímica sem consciência, ele pode projetar seus próprios valores no consulente. Por exemplo, um médium conservador pode dar um conselho baseado em sua moral pessoal, e não na visão espiritual, o que pode atrasar a vida de quem busca ajuda.
O consulente que entende o animismo aprende a não "idolatrar" o médium. Ele passa a filtrar as orientações com o próprio discernimento, entendendo que a comunicação espiritual é uma parceria humana espiritual, e não uma verdade absoluta e infalível. O consulente geralmente busca evidências. Quando o animismo é excessivo, a mensagem se torna genérica ("você terá luz", "as coisas vão melhorar"). Isso pode gerar ceticismo ou uma dependência emocional de respostas vazias.
Por sua vez, a mistificação é uma falsa manifestação espiritual, podendo ser involuntária ou consciente. O objetivo é simular o fenômeno mediúnico, ou seja, fingir uma incorporação ou mensagem espiritual para enganar as pessoas, abusando da fé delas. Diferente do animismo, onde o médium interfere na incorporação sem a intenção de prejudicar, a mistificação envolve uma má intenção, que pode ser guiada de duas formas
- Ação dos espíritos: pode ocorrer pela interferência de espíritos levianos e zombeteiros se passando por guias sérios.
- Motivações pessoais: quanto isto acontece, e não deve acontecer, o médium interfere na incorporação, passando à frente do guia ou até se passando por ele.
Alguns médiuns desequilibrados fingem estar incorporados para suprir seu ego, vaidade, desejo de poder e atenção, ou até mesmo para enganar os consulentes. Quando isso ocorre podemos perceber que a qualidade da comunicação diminui, o fetichismo toma conta – em detrimento à qualidade da mensagem – a simplicidade da Umbanda dá lugar a manifestações emplumadas e estapafúrdias.
O médium pode imitar a fala de um caboclo, simular gestos, transmitir mensagens confusas, enfim, os conselhos da “entidade” não acrescentam e, por vezes, podem interferir até mesmo no livre arbítrio do consulente. Quando vemos médiuns neste estado, de querer mistificar, já sabemos que seu caminho será curto, pois a espiritualidade é séria e rígida quanto à questão ética. A demanda por um caráter reto é visível nos trabalhos mediúnicos, já que todos os guias são agentes da Lei Maior e da Justiça Divina (direta ou indiretamente).
Além de prejudicial ao trabalho espiritual e à egrégora da corrente, a mistificação interfere diretamente no crescimento pessoal e mediúnico. A mediunidade é desenvolvida com disciplina, autoconhecimento e sintonia espiritual. Quando ocorre a mistificação o médium passa a confundir suas próprias ideias com mensagens espirituais, deixando de distinguir intuição e enfraquecendo a comunicação com os guias.
Dessa forma, se cria um padrão de manifestação que é artificial, baseado apenas no que se quer mostrar, impedindo que a mediunidade se torne clara, equilibrada e confiável. Essa dificuldade que o médium passa a ter de se comunicar com os guias de luz o afasta deles, podendo aproximar outros espíritos, como os zombeteiros. A mediunidade também é, acima de tudo, um caminho de crescimento interior.
Quando alguém mistifica, evita confrontar suas próprias limitações, alimentando o ego espiritual e criando uma imagem falsa de si mesmo. Assim, a pessoa não aprende o caminho da humildade, não se dá a oportunidade de amadurecer e segue sem responsabilidade, emocional e espiritual. Enfim, o trabalho mediúnico depende muito de credibilidade e confiança. Um médium que mistifica e passa orientações incorretas ao consulente não está apenas interferindo no seu próprio crescimento pessoal, como interfere diretamente na vida da pessoa que foi buscar auxílio. E atitudes assim custam caro para todos.
Camila de Iemanjá e Renata de Iansã
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