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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Ubuntu: Eu sou porque nós somos

 Ubuntu: Eu sou porque nós somos

Existe um provérbio africano que sintetiza a filosofia Ubuntu, ele nos diz “eu sou porque nós somos”. Essa é uma das expressões mais conhecidas dessa filosofia, trazendo uma compreensão que ninguém existe plenamente sozinho. Nós, como seres humanos, somos construídos à partir do encontro, do cuidado e da responsabilidade que temos uns pelos e com os outros. E, levando esse pensamento em consideração, é impossível não pensar na filosofia Ubuntu e não a vinculá-la com os princípios da Umbanda e de nosso terreiro.

Pensando em uma sociedade que, cada vez mais, é construída em ideias de competição, de acumulação de reconhecimento e de colocar nossas próprias vontades acima do coletivo, nossa religião nos permite a ter um olhar e nos movimentar de forma diferente, aprendemos que o crescimento e evolução individual só faz sentido quando fortalecemos o que verdadeiramente importa, o amor e a caridade.

Nós não somos seres plenamente auto-suficientes. Ninguém consegue sustentar uma gira sozinho, estando na curimba ou na terra, estando incorporado ou dando auxílio às entidades; ninguém aprende sozinho; ninguém cuida sozinho, precisamos de cada energia para que o trabalho flua e funcione da maneira correta. Cada irmão presente na casa, do início ao final da fila, compõe um elo dessa corrente, quando um elo está fraco, o restante também se enfraquece e, o contrário também é verdadeiro, quando um elo está forte, dá força para os outros.

Por isso, não há espaço para narcisismo e egocentrismo em uma casa de umbanda, o terreiro não pode ser um lugar que o ego contempla sua própria imagem como em um espelho d’água. Gosto de enxergar o terreiro como uma água corrente e, quem corre junto com a água, não há espaço para sustentar um reflexo perfeito. Uma casa onde as pessoas estão dispostas a deixarem o Axé vir em primeiro lugar, é uma casa que abre espaço para que as nossas forças ancestrais estejam presentes, permitindo que os ensinamentos sejam passados e que nos tornemos pessoas melhores, mais próximas e conectadas às energias divinas.



O terreiro é um espaço de encontro e de trocas, onde cada um compõe um pedacinho do todo, com suas histórias, processos e experiências de vida diferentes. Por isso, o pensamento de comparação com o irmão ou de querer fazer/aparecer mais que o outro não faz sentido, pois ninguém atravessa a umbanda sem marcas e não se pode medir a própria caminhada usando como régua a caminhada e experiências do outro. Nossa convivência em grupo exige um valor raro nos tempos de hoje, humildade. Precisamos ser humildes para reconhecer que nem tudo é sobre o que pensamos, nem toda opinião precisa se transformar em crítica e acusações, nem todas as situações diárias precisam passar pelo nosso julgamento.

Quando entrei no terreiro, Pai Igor disse uma frase que carrego comigo até os dias de hoje, “precisamos guardar um pedacinho de decepção para todo mundo, pois somos humanos e também erramos”. Precisamos abandonar a ilusão da perfeição, nossa casa é viva, é como uma água corrente, é sustentada por pessoas, com qualidades, defeitos e limites. O terreiro não é feito para criar e sustentar pessoas impecáveis e sem defeitos, mas sim para fortalecer pessoas comprometidas com a sua autotransformação.

Dito isso, quando lembramos da filosofia Ubuntu, lembramos também que a essência de nossa existência é de partilha. O terreiro nos ensina exatamente isso: ninguém evolui somente para si mesmo, nós só somos plenamente quem somos porque existem outros caminhando conosco. Quando o coletivo é colocado acima das vaidades individuais de cada um, o terreiro cumpre sua missão de filhos que são capazes de honrar seus ancestrais.

Isabela de Iansã