Pesquisar

terça-feira, 10 de março de 2026

Oxalá - Itã do silêncio

 Oxalá - Itã do silêncio

Os itãs, em nossa religião, nos ajudam a compreender os orixás, a forma como suas forças atuam em nossas vidas e no mundo que nos cerca, além de possibilitarem uma associação direta com as experiências que vivemos nos dias de hoje. O itã abaixo nos auxilia a entender a sabedoria de Oxalá para além da ideia de passividade: o episódio em que Oxalá, na forma de Obatalá, aceita o silêncio como o maior dos sacrifícios. 

Conta a tradição que Oxalá, em uma de suas jornadas, foi injustamente acusado de um crime que não cometeu. Diferente de Xangô, que reagiria com o trovão, ou de Ogum, que sacou a espada, ele escolheu o silêncio. Foi aprisionado por sete anos, suportando a humilhação e o cárcere sem proferir uma única reclamação ou tentativa de se justificar pela força. Nesse período, a terra sentiu a injustiça: a chuva parou, as colheitas secaram e a fertilidade cessou, pois, a ordem do “Pai do Branco” estava ferida. Somente quando a verdade veio à tona, por meios naturais e pela insistência da justiça divina, é que o mundo voltou a prosperar. Esse relato, revela que a força de Oxalá reside na resistência ética, uma capacidade de sustentar quem se é, independentemente do que dizem as vozes externas.


A primeira bênção de Oxalá do Ano


Hoje, vivemos na era da “opinião instantânea” e do ruído constante. O conhecimento empírico das comunidades de terreiro nos ensina que o tempo da natureza é diferente do tempo do relógio. Enquanto a sociedade moderna exige respostas em segundos, o povo de santo precisa entender o tempo de maturação.

Ao compararmos a postura de Oxalá com a nossa realidade atual, notamos algumas lacunas a serem trabalhadas, como a reatividade crônica: Enquanto Oxalá utiliza a pausa estratégica, nós reagimos impulsivamente a estímulos digitais e ofensas banais e também a verdade como processo pois na espiritualidade popular, a verdade não precisa ser gritada para existir; ela se manifesta no resultado, na colheita. O axé exige um silêncio interior que o mundo moderno desaprendeu ao buscar validação externa imediata.

O aprendizado que esse itã nos deixa é o da temperança. Em um cenário onde a saúde mental é corroída pelo excesso de informação, a postura de Oxalá sugere que a integridade pessoal vale mais do que a vitória em uma discussão efêmera. O silêncio aqui não é omissão, mas uma forma de acumular Axé.

Aprender com Oxalá hoje significa entender que, muitas vezes, a maior força não está em quem grita mais alto, mas em quem consegue manter a calma e a dignidade enquanto o mundo ao redor parece desabar. No fim, a verdade e a paz não são conquistadas no grito, mas na persistência silenciosa de quem sabe quem é.

Renata de Iansã