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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Abacate

Abacate

O abacateiro é nativo das Américas, principalmente América Central e regiões do norte da América do Sul. Seu nome científico é Persea americana e evidências arqueológicas mostram seu cultivo há, pelo menos, 7 a 9 mil anos atrás. Povos como os Olmecas e, posteriormente, Astecas e Maias cultivavam e consideravam-o uma árvore sagrada, vendo o abacate como uma planta fundamental à vida, saúde e sustento do povo.  Para os astecas, o abacate era conhecido como “ãhuacatl”, significando fruto nutritivo e símbolo da fertilidade e vitalidade masculina. Esse povo usava o abacate principalmente para obter gordura vegetal, sustentando os guerreiros, trabalhadores e todo o povo de suas tribos. Era muito ofertado também a doentes, mulheres no pós parto, idosos e pessoas debilitadas, pois é um alimento que devolve a força e sustenta todo o corpo. 


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Em muitos estudos, é mostrado o uso medicinal do abacate entre os povos mesoamericanos: os Astecas usavam as folhas, sementes e cascas do abacate para problemas intestinais, parasitas e inflamações; já os Maias usavam-o como infusões para dores, principalmente para alívio de cólicas, tratamentos digestivos e recuperação física após as lutas e guerras.  

O abacate é uma planta de força, assim como moringa, jurema e cipó, que possuem como objetivo firmar, sustentar, ancorar e atuam do corpo para a terra. Diferente de plantas de luz: alecrim, manjericão e flores brancas, que são utilizadas para clarear, organizar os pensamentos e abrir a percepção de quem as usa. Dentro da Umbanda, o abacate traz força da terra, que sustenta o corpo e a energia do médium. As folhas do abacateiro são usadas para ancorar energia, para firmar o corpo espiritual e sustentam o campo energético após o descarrego, sendo utilizadas em banhos de firmezas, passes de sustentação e após descarrego e trabalhos pesados, as folhas não limpam, mas sim assentam a energia novamente, trazendo estrutura e base. 

A manipulação do abacate pode ser usando as folhas em banhos de firmeza e sustentação ou no Amaci, geralmente combinado ao manjericão e à moringa, por outro lado não pode ser feita em trabalhos de descarrego ou corte de demandas, pois o abacate firma, não faz limpezas por si só. 

Isabela de Iansã 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A porção individual do destino

 A porção individual do destino

No pensamento iorubá tradicional, a palavra Orí significa literalmente “cabeça”. Porém, espiritualmente, esse termo é entendido como a porção individual do destino. Ou seja, a centelha divina que cada pessoa carrega. Essa crença é historicamente fundamentada, mas em termos simples: Orí é o “eu interior”, nosso centro de consciência; a parte do ser humano que escolhe seu destino antes do nascimento; a ligação direta entre o indivíduo e Olodumaré (o Ser Supremo). Sendo assim, para o africano iorubá antigo, Orí é o verdadeiro guia da vida e nenhum orixá pode interferir no destino escolhido pelo Orí de uma pessoa sem seu consentimento. 

Em resumo: antes de nascer, o espírito da pessoa apresenta-se ao Ser Supremo, escolhendo seu destino e suas provações. Essa escolha se sela no Orí, que se torna guardião desse caminho. Desse modo, cada Orí é único e intransferível. As provações podem ser modificadas ao longo da existência, também por intermédio dos orixás, mas o destino não. O papel do Orí na vida prática é influenciar tudo que diz respeito ao percurso existencial. Respeitá-lo traz equilíbrio e prosperidade, enquanto ignorá-lo causa desarmonia e fracassos. 

Sendo assim, era comum nas tradições antigas iorubanas cultuar o Orí antes de cultuar orixás, pois acreditavam que o ser humano era responsável por agir de forma alinhada ao seu Orí, fazendo escolhas coerentes e honrando seu próprio destino. Essas crenças e tradições chegaram até o Brasil através desses povos, no entanto, sofrendo modificações. No Candomblé, é comum o que chamam de “Iniciação ao Orixá”, uma preparação da cabeça para receber o mesmo, através de um assentamento que é, na essência, um culto ao Orí primeiro. Já na Umbanda, a lavagem de cabeça (Amaci), pode ser entendida da mesma maneira. Outro exemplo é quando se toma um banho de descarrego ou carrego e só se lava da cabeça para baixo, para preservar o Orí. 


Orí Mejí: o significado de ter dois Orixás regendo a cabeça - Respeite  Nosso Axé


Agora vamos falar da relação entre Orí e Orixá, de acordo com as crenças dos mesmos povos. O Orí escolhe o destino e os Orixás auxiliam na realização desse destino, potencializando, protegendo e orientando o caminho que o Orí determinou. Os orixás não anulam e não substituem o Orí, não podendo também conceder além do que este permita. Essa hierarquia não diminui os orixás, pelo contrário, são eles que fornecem o axé e os mecanismos para que possamos viver nossa existência em plenitude, alinhados ao nosso propósito. Cada orixá, com sua força e energia firmadas, irão amplificar nossas capacidades e nos proteger de infortúnios evitáveis e energias destrutivas. De forma didática, é como se o Orí traçasse o mapa e o Orixá nos entregasse a bússola. 

O que seria então seguir ou ignorar o Orí? Quando nego minhas aptidões naturais, vivo uma vida baseada em ilusões, repetindo os mesmos erros, sem ética e integridade, isso acarreta perda de energia “travamentos” existenciais mesmo sob a proteção dos orixás, não porque eles puniram, mas porque a pessoa se afastou de seu próprio eixo, ignorando o Orí. Já quando Orí e Orixá estão equilibrados, há um alinhamento natural nas escolhas de vida, capacidades espirituais e missão pessoal. As oportunidades surgem, o indivíduo sente ter propósito, a energia vital circula e a saúde espiritual se fortalece. E a maneira de trazer esse equilíbrio é cuidando do Orí, cultuando seus Orixás, mantendo a ética como princípio de vida e, buscando acima de tudo, autoconhecimento.

Descobrir os orixás que regem a sua coroa é isso: uma condução ao autoconhecimento. Essa descoberta vai despertar e organizar aspectos internos do indivíduo (ou pelo menos deveria). A relação com o orixá obriga o indivíduo a se observar, confrontar seus defeitos e virtudes, enfim, “organiza” seu caráter. O orixá não é você. Mas o caminho até o orixá ajuda você a entender quem você é.

Entender melhor os orixás, na prática, nos ajuda a cumprir nosso destino. Eles vão despertar virtudes com suas matrizes arquetípicas, como: Nanã com sua sabedoria ancestral, Oxóssi com sua inteligência estratégica ou Iemanjá trazendo estabilidade emocional. Essas qualidades vão facilitar o caminho do Orí. Lembrando que nenhuma provação é cancelada, mas através da força dos orixás, podemos ressignificá-las.

“Orixá não tira o peso do destino. Ele fortalece os ombros.”

Camila de Iemanjá



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Jurema

 Jurema

Uma vez eu perguntei a um mestre Juremeiro como faria para iniciar um estudo sobre a Jurema, pois estava com dúvidas sobre a entidade Jurema, a árvore Jurema e a bebida Jurema. Ele me pediu para estudar primeiro o Rei Salomão, filho do Rei Davi que segundo a Bíblia pediu a Deus sabedoria para governar e recebeu muito mais bençãos, pois a maioria dos governantes pediam riqueza e longevidade. 

Não achei fontes que ligam a árvore Jurema à Jesus Cristo somente um sincretismo religioso entre os dois e que séculos antes segundo contos antigos, mas sem base histórica. Salomão teria construído seu templo com ouro vindo das terras que hoje está situado o Brasil e que o nome do nosso país seria uma homenagem a “Barzilai” um amigo Feníncio de Davi.


As Ervas e as Forças da Jurema - Aldeia de Caboclos


Nas religiões afro-brasileiras a Jurema Sagrada ou catimbó, Jesus faz um sincretismo com a árvore, tornando-a uma espécie de portal sagrado para o mundo espiritual.

A "Cabocla Jurema", quando personificada como entidade, tem sua lenda de origem atrelada ao Brasil, Caboclo Tupinambá. Os espíritos incorporados (Mestres, Caboclos, Malunguinho) trabalham sob as ordens de Jesus e do Criador, utilizando a ciência da Jurema para orientar e curar.

Clodonaldo Couto de Xangô


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Deus na Umbanda de Jurema

 Deus na Umbanda de Jurema

Primeiramente devo dizer o de praxe. Sim, a Umbanda de Jurema é uma religião monoteista, como a grande maioria das religiões ocidentais do mundo moderno. Venho neste texto tentar trazer um pouco dos ensinamentos que obtive ao longo destes anos praticando esta religião brasileira. Devo ressaltar que tudo o que for dito aqui está dentro da minha realidade e ela é edificada a partir dos aprendizados que obtive na Tenda de Umbanda Caboclo Sete Flechas e Jurema, a sua realidade e sua doutrina pode ser diferente.

Afinal, o que é Deus?

Deus é o tudo e o nada, Deus é a possibilidade de existência, vivência e morte. Deus é o infinito, a coesão entre os mundos e a possibilidade de algo. Difícil sintetizar Deus e trazer de uma forma clara o que é. Porém devo dizer que Deus não tem gênero, não tem local e nem tem finitude. 

Quando pensamos num Deus que não tem gênero logo podemos compreender que ele é isento de dualidades, pois Deus não é dual. Ele é único, único na sua existência e nas suas capacidades. A questão de gênero é meramente carnal, ou seja, o masculino e feminino estão embutidos EXCLUSIVAMENTE no plano material. Isso acontece porque a dualidade é necessária para a reprodução. Os animais se reproduzem e precisam de gametas distintos para se reproduzir, raros são as espécies hermafroditas. Ou seja, a reprodução, a dualidade e o gênero são características canais e físicas. Deus, dentro da sua grandiosidade, não necessitará de uma dualidade para existir, ele é tudo e todos ao mesmo tempo. O dia e a noite, o masculino e o feminino, etc., etc.  

Muitas vezes pensamos em Deus habitando planos superiores, distante da nossa realidade, em um céu onde apenas existe a bondade. Porém devemos repensar sobre isso. Quando voltamos nossos olhos para a Bíblia, em Gênesis 2:2-3 temos:

2E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.

3E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera.



Quando pensamos no descanso de Deus não devemos pensar naquele que pega suas coisas e vai pra casa dormir. O descanso de Deus está vinculado à aproveitar a criação, Deus descansa em tudo aquilo que foi criado por ele mesmo. Até porque não faria menor sentido Deus criar tudo aquilo que conhecemos e desconhecemos e após isso ele se distanciar de tudo, muito pelo contrário. Deus está em tudo aquilo que nos rodeia, no ar, nos animais, no espaço vazio e em nós. Deus não está no céu, distante e impossível de ser acessado, muito pelo contrário, Deus vivencia e está ao nosso redor diariamente.

Pensar em algo infinito é o desafio mais intrigante para a mente humana. No momento em que você pensar numa estrada infinita, sua mente, instantaneamente, irá começar a desenhar uma estrada, que em algum momento começou. Isso é Deus, Deus é infinito, difícil de pensar. Exatamente por isso que Deus é além de nossa compreensão humana. Nós, como seres encarnados, temos limitações físicas, mentais e espirituais, logo imaginar e vivenciar algo que está além do nosso conhecimento e vivência é muito difícil, na verdade impossível.

Deus na Umbanda de Jurema, a qual pratico a alguns anos, não difere das demais formas de ver Deus. O que tenho aprendido ao longo destes anos é que Deus vive na criação e possibilita que ela desenvolva e tome seus próprios caminhos. Deus não é punitivo, muito pelo contrário, o ser tende a vivenciar coisas ao longo de sua existência, que farão com que ele cresça moralmente e espiritualmente, sem pensar em um crescimento elitista e hierárquico. Deus, dentro da minha doutrina é amor e caridade, pois só assim assim tendemos ao crescimento e às boas práticas morais e éticas.

Enfim, onde estaria Deus? 

Como disse anteriormente, em tudo aquilo que nos rodeia, naquilo que é visível e no invisível, no universo mapeável e naquele ainda desconhecido dentro dos buracos negros. Deus não está dentro de uma igreja, nem mesmo num livro sagrado com escritas feitas por mãos humanas. Deus está em tudo, nas matas, na noite, nas flores e até mesmo nas dificuldades da vida. Isso mesmo, Deus também está nos momentos conturbados, até porque se não fossem eles, nós não teríamos objetivos na nossa vivência humana. 

Pai pequeno Victor de Oxumarê


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O amaci na Umbanda: Conexão, destino e o poder das ervas

 O amaci na Umbanda: Conexão, destino e o poder das ervas

O Amaci é um ritual, que assim como qualquer outro ritual de Umbanda acontecerá tendo como orientação os fundamentos de cada casa, sendo assim seus ritos e rituais podem variar a depender da casa e sua doutrina. O ritual tem como intuito aproximar o médium da espiritualidade, dos Guias espirituais e Orixás, e renovar suas energias trazendo equilíbrio para seu Orí, ou seja, “firmando a cabeça do médium”.

Conta que, no Orun (plano espiritual), antes de vir ao Aiê (terra), a pessoa escolhe seu destino (o Ori). No entanto, algumas pessoas, na pressa ou descuido,

escolhem cabeças mal moldadas ou destinadas a sofrimentos. Após a escolha, antes de partir, a pessoa deve reverenciar e cultuar seu Orí, e assim deve fazê-lo por toda sua existência terrena, pois sem uma boa cabeça, você não pode ser nada. O Amaci age diretamente no Ori, na região da coroa (Chakra Coronário), que é o nosso principal ponto de conexão com o divino, é a nossa essência divina, aquilo que somos e devemos ser, devemos cuidar dele, pois ele é nós mesmos.



Voltemos ao ritual do Amaci, para realizar tal ritual, utiliza-se de um macerado de ervas e água, as folhas são escolhidas de acordo com a tradição de cada casa. Como sabemos, cada folha tem seu Axé, e quando são maceradas essa força da erva é liberada. Desta forma, durante o Amaci quando o médium tiver sua cabeça (Ori) lavada pelo representante religioso, normalmente o pai ou mãe de santo, também receberá o Axé daquela erva. Esse processo limpa, descarrega e energiza o campo mediúnico, trazendo equilíbrio, renovando as forças e abrindo caminho para a caminhada espiritual do filho de fé. Sendo assim, participar de um Amaci é um compromisso com a fé, com a espiritualidade e com seu Ori.

Axé.

Jéssica de Obaluaê


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Alecrim

 Alecrim

O alecrim é uma erva considerada do Orixá Oxóssi, muito utilizada por entidades nos trabalhos espirituais. Tem muitas características que auxiliam nos trabalhos, como limpeza de ambientes , proteção espiritual , harmonização de ambientes , equilíbrio de energias vitais , revitalização e conexão espiritual . Pode ser utilizada de diversas formas como banhos, defumações, fumos de entidades , ou até mesmo sendo cultivada em ambientes que necessitam de limpeza e equilíbrio. 


Um exemplo de utilização do alecrim na nossa casa é o fumo do boiadeiro das Sete Estradas, que é composto por tabaco e alecrim, na proporção de um terço de alecrim e o restante de fumo, o alecrim no fumo desta entidade age para equilibrar a energia do consulente para que a fumaça do fumo faça a manutenção da energia e abertura de caminho do mesmo.

No ponto de vista medicinal o alecrim pode agir como anti inflamatório, antioxidante e neuroprotetor .

Thiago Costa de Oxóssi


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Ewá é o véu que cobre e revela

 Ewá é o véu que cobre e revela

Na neblina que envolve os caminhos ela se manifesta como mistério e encanto, guardiã dos segredos que só os olhos da alma conseguem decifrar. Sua beleza não é apenas contemplação: é magia que envolve, é poder que transforma, é enigma que, se não for compreendido, paralisa e cega.

Filha de rios e das águas turvas, ela dança entre os véus da existência, conduzindo o olhar para além da superfície. A serpente que a acompanha não é apenas guardiã, mas símbolo da transformação constante, da pele que se renova, da vida que se recicla. Assim é Ewá: movimento e quietude, mistério e revelação, morte e renascimento.

No campo sagrado dos cemitérios, ela habita como senhora do silêncio e do tempo. Ali, onde muitos veem apenas o fim, Ewá enxerga o portal da eternidade. Seus passos caminham entre os mundos, e é nesse espaço de transição que sua beleza se mostra mais plena: delicada como a neblina da manhã, mas firme como a certeza da noite.

Ewá é o equilíbrio que me sustenta, a adjunta que me guia. Quando a contemplo, percebo que sua beleza não é mero ornamento: é força, é lição, é prova. Quem não a estuda, quem não se aprofunda em seu mistério, corre o risco de se perder na contemplação, enfeitiçado por um encanto que prende ao invés de libertar.



Mas eu, como filha, aprendi que sua beleza é o caminho. Ela me ensina a atravessar a neblina sem medo, a honrar o silêncio do cemitério como um berço de sabedoria, a compreender a serpente como renascimento. Sua presença é meu espelho e meu guia, meu equilíbrio e minha força.

Ewá é o reflexo de tudo o que é sutil e grandioso. É a certeza de que a verdadeira beleza é mistério, é poder, é sabedoria e que só quem ousa ir além do encanto descobre a profundidade de sua luz.

Erika de Ewá


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O fumo e suas lendas

 O fumo e suas lendas

De modo amplo, o fumo é a folha da planta Nicotiana tabacum (e de espécies próximas). Após colhida e curada, seu uso é diverso: queimada, inalada, mastigada ou cheirada, dependendo da cultura e do contexto. Contém nicotina, substância de ação psicoativa e altamente viciante, além de outros compostos aromáticos e químicos que variam conforme o cultivo, a cura e o preparo. Muitas das histórias sobre o uso dessa planta estão ligadas aos rituais e práticas espirituais dos povos indígenas, especialmente na América antes da chegada dos europeus. Uma grande persona conhecida através desses costumes, é a Caipora. 



Segundo uma das lendas, na mitologia indígena Tupi-guarani, a Caipora é uma entidade que protege os animais das florestas; aparece para assustar e confundir caçadores que entram na mata com intenção de matar mais do que precisam. Ela pune aqueles que caçam por ganância, espantando os animais, confundindo os cães de caça e os enganando com sons, assobios e pistas falsas para que se percam. Essa figura pode ser homem ou mulher, dependendo de quem a conta; tem o corpo pequeno, coberto de pelos, cabelos vermelhos e volumosos, alguns dizem que seus pés são virados pra trás, e vem sempre montada num queixada, o porco-do-mato, carregando uma lança na mão e seu fumo na boca.


 

Figura do folclore brasileiro, seu nome no tupi antigo é Caaporã, que significa “habitante do mato”, e se mostra presente através do assobio e do cheiro do fumo queimado. Os antigos diziam que quando o assobio tá perto é porque ela tá longe, e quando o assobio tá longe, é porque ela está por perto. Caipora teme a claridade, por isso o fogo é usado como forma de afastá-la. Mas há também quem prefira fazer um trato com ela: antes de adentrar a mata, o caçador deve deixar um pedaço de fumo de corda no tronco de uma árvore pedindo permissão pra caçar e voltar, dizendo em voz firme: “Toma, Caipora, deixa eu ir embora.”, e ela deixa mesmo. 

É imperioso destacar que a prática de usar o fumo como oferenda, se dá pela cultura indígena que acredita no espírito do fumo. Um deus que habita em suas folhas, e que com sua fumaça, leva mensagens, acorda entidades e se entranha nas raízes dos vivos e dos mortos.

Lívia de Obaluaê


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Arruda em rituais de benzimento na Umbanda

 Arruda em rituais de benzimento na Umbanda

A arruda na Umbanda é mais do que uma mera erva: é proteção, limpeza e coragem. Originária dos Balcãs, introduzida na Europa e trazida para o Brasil no contexto colonial, a arruda já era venerada desde a Antiguidade como escudo contra energias ruins, na Grécia usada para afastar doenças, na Roma antiga para proteger do mal e na Idade Média contra feitiçarias e até a Peste Negra. Essa reputação atravessou séculos para entrar com força na Umbanda, angariando saberes populares e religiosos


 

Na umbanda, especialmente nos trabalhos de benzimento conduzidos por Pretos Velhos, a arruda é presença constante. A erva é classificada como quente, expressando sua potência em cortar o mau-olhado, esfriar obsessores e dissolver energias densas. Observa-se seu uso em passes nos consulentes, em defumações, banhos de descarrego, amuletos e patuás (cruzes, figas) que carregam proteção e vibrações de prosperidade. 

Além do uso prático, há um fundamento espiritual, ao “passar” os ramos sobre o corpo, o benzedor atua como canal para a arruda realizar sua tarefa de purificação. A fumaça forte dessas folhas queima o ambiente carregado, abrindo espaço para a luz espiritual, e o simples aroma já afasta espíritos negativos. 

Um detalhe curioso e revelador de como a Umbanda trabalha em sintonia com a natureza é que se acredita que a arruda se torna um tipo de termômetro espiritual: se o ambiente está muito pesado, ela murcha ou morre, como se “cedesse sua vida” para restaurar equilíbrio. Isso costuma servir de alerta para defumações e limpeza energética mais profundas.

Outro contraste interessante é entre arruda “macho” e “fêmea”: a macho, de folhas grandes e odor intenso, é associada à proteção e ao descarrego pesado; a fêmea, mais suave, frequentemente guardada para banhos de cura emocional e limpeza mais delicada. 

E, claro, o uso dessa planta tóxica requer cautela: seu uso interno pode ser perigoso podendo até causar abortos ou reações alérgicas. Por isso, na Umbanda, seu uso é restrito à aplicação externa jamais em chás ou ingestões caseiras. 

Renata de Iansã


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A lei do retorno

 A lei do retorno

Embora os conceitos de Karma, Dharma e Lei do Retorno sejam parecidos e muitas vezes usados juntos, eles têm significados distintos em suas tradições originais e funções espirituais.

Enquanto o Kharma e o Dharma vão ter sua origem nas religiões indianas como o budismo e o hinduísmo, a Lei do Retorno vai estar presente em diversas tradições espirituais (Espiritismo) e afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé.  De forma resumida, poderíamos dizer que cumprir o Dharma gera um bom Kharma, que ativa uma Lei do Retorno positiva. Mas então, o que é a Lei do Retorno e qual o seu papel dentro da Evolução Espiritual?

A Lei do Retorno é uma crença espiritual e filosófica que afirma que tudo o que fazemos, seja bom ou ruim, retorna para nós de alguma forma. Essa ideia está presente em diversas tradições religiosas e também no nosso cotidiano, quando dizemos coisas como "aqui se faz, aqui se paga" ou "você colhe o que planta". Reuni alguns princípios que regem essa lei e que são fundamentais para que

entendamos como é o seu funcionamento:

1) Causa e efeito espiritual: toda ação gera uma consequência. Nossas atitudes, pensamentos e intenções criam uma energia que retorna para nós de forma equivalente.

2) Tempo e paciência: o retorno nem sempre é imediato. Pode vir em dias, anos ou até em outras encarnações (segundo doutrinas reencarnacionistas).

3) Justiça divina: está ligada à ideia de que o universo, Deus ou os orixás regulam as consequências com base na Justiça Maior, mesmo quando não compreendemos os porquês.

A Lei do Retorno não é punição, mas aprendizado. Ela nos convida à responsabilidade sobre nossos atos, palavras e pensamentos, pois tudo que emitimos nos será devolvido, mais cedo ou mais tarde.



Na Umbanda, muito se fala sobre karma, merecimento, caminhos abertos ou fechados. Mas poucos compreendem a profundidade da Lei do Retorno e como ela está intimamente ligada ao verdadeiro processo de evolução espiritual. Dentro da religião, essa energia de retorno é observada e equilibrada com o auxílio dos orixás e guias espirituais. Ela não pune, apenas ensina, sendo assim, um espelho da nossa conduta espiritual.

Existe uma crença entre as pessoas, de forma geral, de que evolução espiritual é sinônimo de ser "perfeito", ou de viver sem dor. Mas a Umbanda ensina o contrário: evoluir espiritualmente é reconhecer seus erros, assumir suas escolhas, e agir diferente a partir disso. E a Lei do Retorno é parte fundamental dessa evolução. A dor que retorna não é castigo, mas sim uma consequência educativa, um convite à mudança. O sofrimento, muitas vezes, não é sentença, mas sim uma ferramenta. Assim como o bem que volta não é um prêmio, é reflexo da vibração espiritual emitida.

O verdadeiro passo de evolução espiritual acontece quando a pessoa para de atribuir culpa aos outros (ou às entidades), e assume responsabilidade sobre sua própria vida.Esse entendimento liberta porque devolve ao espírito o poder de transformar sua jornada. Devemos, portanto, entender a Lei do Retorno como uma oportunidade de mudança, não um castigo divino. Ela orienta o espírito ao longo de sua jornada evolutiva, devolvendo com sabedoria tudo o que foi emitido, para que possamos aprender, curar e crescer. Desmistificar a evolução espiritual é compreender que não há atalho, mas há amparo. Evoluir não é se livrar do retorno, mas vivê-lo com consciência e fé.

Camila de Iemanjá



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Povo cigano na Umbanda: Magia, alegria e sabedoria ancestral

Povo cigano na Umbanda:  Magia, alegria e sabedoria ancestral 

Os ciganos são reconhecidos por sua alma livre, sua conexão com o movimento e o desapego da vida material. Na Umbanda, a Linha dos Ciganos representa essa essência vibrante, trazendo consigo uma força espiritual marcada por alegria, sabedoria ancestral e magia natural. A presença da energia dos ciganos é marcada por alegria, conexão com a natureza, músicas e trajes coloridos. Seus trabalhos espirituais trazem cura, proteção, e conhecimentos ligados ao amor e prosperidade.



A Linha dos Ciganos tem uma profunda conexão com a energia feminina, honrando a sensibilidade, a força interior e o poder da intuição. Quando atendem mulheres, esses guias trabalham especialmente para fortalecer a autoestima, resgatar a autoconfiança e promover o acolhimento espiritual. A Orixá que rege a linha dos ciganos é Oroiná, que tem sincretismo religioso com Santa Sara Kali, considerada a protetora dos ciganos.

Dia 24 de maio, comemoramos o dia dos ciganos, seu dia da semana é a sexta feira, e sua cor é o laranja. Seus instrumentos de trabalho podem ser cristais, ervas, incensos e cartas. Embora a cor laranja seja muito presente, os ciganos podem trabalhar com outras cores, cada cigano pode ter uma cor de vibração que ele trabalhe mais. As cores vão estar presentes em suas roupas, velas e instrumentos de trabalho. As oferendas destinadas aos ciganos podem ter flores, incensos, frutas, pães e vinho. Em suas celebrações e rituais, a palavra Optchá é usada para saudar e celebrar, carregando em si a vibração da alegria cigana.

Bruna de Obá


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A amizade desvirtuada nos tempos modernos

 A amizade desvirtuada nos tempos modernos

Na modernidade o ser humano tem se isolado cada dia mais, diante das rotinas corridas, entre o trabalho e outras obrigações. Não por acaso foi dito que o mal do século é a solidão. Diante disso, o ser humano, muitas vezes, se sente carente e vulnerável. Quer a todo custo preencher um vazio existencial, pois sente que a vida é muito mais do que sua rotina monótona. Devido a esse vazio, muitas vezes se criam laços tóxicos, podendo ser afetivos, de convivência ou amizades. Nesse texto falaremos mais profundamente das amizades. 

A verdadeira amizade é um presente para vida de qualquer um, mas se engana quem pensa que o amigo é aquele que sempre passará a mão em sua cabeça ou vai sempre te enaltecer, pois esse também é um falso amigo e sua máscara cairá mais cedo ou mais tarde.

Se tornou muito comum ver amizades onde não existe respeito, onde um se aproxima do outro por algum tipo de interesse. Social, financeiro etc. Nada disso é durável. Outros pensam que ser amigo é ficar indo na casa do outro todo dia, mas na maioria das vezes não é assim. Muitas vezes isso pode ser um sintoma de falta de amor-próprio, onde a pessoa renuncia a seus próprios objetivos para viver o máximo que pode da vida do outro.


O verdadeiro amigo é aquele que aproveita da liberdade que tem para fazer críticas construtivas, para te dizer o que todos percebem e não tem coragem de te falar. Ele agrega, te faz encarar suas verdades e por mais dolorido que isso seja, depois que esse processo passa somos gratos a esse amigo, pois saímos fortalecidos. É tão mágico e incrível quando encontramos essas pessoas em nossas vidas, pois elas nos ensinam e aprendem naturalmente, sem nenhum esforço.

Muitos podem estar se perguntando o que isso tem a ver com a espiritualidade e com a umbanda, mas julgo ser uma reflexão importante, pois muitos podem estar presos nessas amizades destrutivas. Também é bom refletir em qual tipo de amigos temos sido. Será que estamos sendo luz, ou prejudicando os que estão à nossa volta?

Ricardo de Ogum Matinata


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Orixá Ayra

 Orixá Ayra

No amplo universo das divindades de origem afro-diaspórica, Ayrá figura como uma entidade de caráter enigmático e, não raro, subestimado. Orixá dos ventos fortes, dos trovões, teve seu culto aglutinado ao de Xangô, mesmo sendo específico. 

Historicamente, Ayrá tem origem entre os iorubás da África Ocidental, sendo referido como um antigo rei de Ilá-Ifé, cidade sagrada da civilização iorubá. Seu culto é originário de Savé, próximo de Keto. Após sua morte, ele teria sido divinizado, tornando-se um orixá ligado ao trovão e à sabedoria. Sua divinização, como no caso de muitos orixás, se deu a partir da crença ancestral de que reis notáveis e ancestrais veneráveis tornam-se forças espirituais após a morte.

  Comumente associado aos ventos raios e ao fogo, elementos que também pertencem a Xangô, orixá da justiça, há distinções importantes entre eles: Ayrá é mais velho e introspectivo - historicamente, seu culto precede o de Xangô -, é tido como portador de uma justiça serena e sábia, que se manifesta de forma silenciosa, forte e potente (que respinga nos filhos). Sua natureza é fria e contemplativa, ligado ao tempo, ao céu e à sabedoria dos antigos.

O professor e sociólogo Reginaldo Prendi, diz em uma de suas obras que Ayrá "conhece os segredos do tempo", o que o torna também um orixá das transições e das encruzilhadas espirituais, mas não do cruzamento dos caminhos físicos, como Exu, e sim das encruzilhadas internas da alma e da vida.





Orixá antigo, é descrito como pertencente à linhagem de Obatalá, Ele ultrapassa o arquétipo guerreiro e adentra o reino da ancestralidade e da criação cósmica, domínio típico dos funfun, família a qual faz parte. Iniciados e historiadores o entendem como um “orixá de fundamento/base”, que atua nos bastidores do axé, com sua presença essencial para a manutenção e equilíbrio do universo. Ayrá também representa a própria transmissão do axé original, a continuidade do tempo sagrado, a ligação entre passado e futuro, entre o humano e o divino.

Com pouco conhecimento e ferramenta de culto, esse orixá aparece de vez em pouco nas casas de axé, onde com sua energia firme e sutil, nos ensina que nem toda força é barulhenta, e há muito poder na contenção e no recolhimento estratégico. Nos lembra também que há mistérios que só se acessam com humildade, paciência e preparação, pois a sabedoria não é imediata, mas se revela a quem se compromete com o caminho e honra os antigos.

“O orixá Ayrá, como Oxalufã, não grita, não luta — ele pesa e transforma” (Prandi, 2001).

Laura de LogunEdé