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terça-feira, 2 de junho de 2026

O livre arbítrio e a responsabilidade individual

 O livre arbítrio e a responsabilidade individual

O conceito mais difundido de livre arbítrio costuma estar associado à tradição cristã, especialmente à ideia de que Deus concedeu ao ser humano a liberdade de escolher seus caminhos. Em muitas leituras, essa liberdade aparece condicionada à promessa de recompensa ou punição (céu ou inferno) conforme as escolhas realizadas. No entanto, essa interpretação reduz a profundidade do que realmente significa ser livre.

Do ponto de vista filosófico, o livre arbítrio é compreendido como a capacidade humana de tomar decisões e agir de forma autônoma e consciente, segundo a própria vontade. Para Aristóteles, a escolha deliberada (prohairesis) nasce da reflexão sobre o que é justo e virtuoso; não é um impulso, mas uma decisão racional orientada pela ética. Já Santo Agostinho relaciona o livre arbítrio à capacidade de escolher o bem, entendendo que a verdadeira liberdade está alinhada à ordem divina. 

Sartre afirmava que o ser humano está “condenado a ser livre”, ou seja, não pode fugir da responsabilidade por suas escolhas. Para ele, a liberdade é inseparável da responsabilidade, pois cada decisão constroi quem somos. Em tradições orientais como o Budismo, a liberdade está associada à consciência das causas e consequências (karma). Não se trata de liberdade absoluta, mas da compreensão de que cada ação gera efeitos que retornam ao indivíduo.



Assim, podemos dizer que o livre arbítrio é um termômetro moral que nos conduz à nossa essência. Contudo, ele não existe isolado, pois vivemos em coletividade. Se utilizo minha escolha para ferir, manipular ou prejudicar o outro, minha ação deixa de ser expressão de liberdade consciente e passa a ser manifestação de ego ou ignorância. A verdadeira liberdade exige ética, consciência e responsabilidade.

Responsabilidade individual é o reconhecimento de que somos autores de nossos próprios atos. Não podemos atribuir ao outro, à sociedade ou ao destino as consequências daquilo que escolhemos fazer. Na perspectiva espírita, cada espírito é responsável por sua evolução. Não há punição eterna, mas aprendizado contínuo por meio das consequências naturais dos próprios atos.

Nesse sentido, responsabilidade individual é buscar o autoconhecimento, compreender limites, ambições e desejos para não ser dominado por eles. A única punição real é a própria consciência. Quando sabemos que determinada atitude pode magoar alguém e, ainda assim, escolhemos praticá-la, estamos assumindo o peso dessa consequência. Ser responsável é compreender que liberdade não é ausência de limites, mas consciência deles.



Em nossa casa, assim como em todas as religiões, existe uma hierarquia que deve ser respeitada. Hierarquia não é opressão, mas organização, pois ela garante equilíbrio, disciplina e harmonia espiritual. Na Umbanda de Jurema, aprendemos que mediunidade é compromisso. Não basta incorporar, cantar ou trabalhar espiritualmente, é preciso estar preparado moralmente para sustentar essa função. “Saber que posso não significa que devo.” Dominar as próprias vontades é ser livre. A liberdade não está em fazer tudo o que se quer, mas em fazer o que deve ser feito, como disse o Caboclo 7 Flechas.

Cada ação ecoa no plano espiritual, pois o médium que age por vaidade, orgulho ou disputa se desarmoniza não apenas a si, mas todo o coletivo. Já aquele que age com humildade compreende que sua liberdade está alinhada ao serviço.

A conclusão que se apresenta é que o livre arbítrio só encontra sentido pleno quando está conectado à responsabilidade individual e ao compromisso espiritual. Na Umbanda de Jurema, liberdade é consciência, é respeito à hierarquia, é compromisso com o axé da casa e com os guias que nos conduzem. Ser livre é escolher o bem; ser responsável é sustentar essa escolha. E no terreiro, essa verdade se manifesta na prática diária da caridade, da disciplina e do amor.


Jéssica de Obaluaê


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Sentimentos que conforta

 Sentimentos que conforta

Sábias palavras ditas por Zé Pelintra em uma quarta-feira, no dia 8 de abril, nos trouxeram ensinamentos sobre a grande trajetória de nosso Terreirinho. Ele trouxe uma reflexão poderosa: “Faça sempre o melhor para você e, em tudo o que fizer, busque o melhor. Mas não se prenda ao conforto, pois ele pode impedir o seu crescimento.

Zé Pelintra não falava apenas do conforto externo, dos bens materiais ou da rotina fácil. Ele nos alertava sobre os confortos invisíveis, aqueles que vêm de nossos próprios sentimentos e que nos aprisionam. Sentimentos que nos fazem recuar, travar e nos impedem de viver o melhor que poderíamos. Ele reforçou, inclusive, com uma lembrança direta da realidade: “Dentro do caixão, vai sobrar somente os ossos.”



Embora esse exemplo se refira ao conforto material, minha interpretação é que ele também nos alertava sobre os confortos emocionais aqueles que carregamos e que nos tornam acomodados.

São os sentimentos que nos deixam parados, que nos impedem de aprender, crescer e enfrentar o que realmente pode nos transformar. Esse conforto emocional faz com que percamos oportunidades, nos mantenha presos à dor familiar, às relações que nos limitam ou às chances que nos fariam evoluir. Muitas vezes, preferimos permanecer no conhecido, mesmo que ele seja insuficiente, apenas porque oferece uma sensação passageira de segurança.

Nessa mesma noite, Zé Pelintra nos convida a fazer uma reflexão, se você não tivesse continuado, como se imaginaria agora? O que estaria fazendo neste momento? Muitos relataram sentimentos que os prendiam, ambientes que pareciam confortáveis ou situações que, mesmo incertas, geravam indecisão e nos deixavam confusos. 

Alguns se acomodam em relações que não os valorizam, outros em hábitos que não acrescentam nada, mas todos se impedem de avançar. É nesse ponto que o ensinamento de Zé Pelintra se torna essencial não desistir daquilo que te faz bem é fundamental. Pequenos passos diários, mesmo que pareçam insignificantes, são capazes de romper a zona de conforto e abrir caminhos para o crescimento.

Desapegar desses confortos emocionais é um processo profundo. É encarar o medo sem permitir que ele decida, é reconhecer a dor sem escolher permanecer nela. É aceitar que o desconhecido assusta e muito, mas também transforma.

É compreender que cada oportunidade perdida por medo ou acomodação é uma chance que não volta. No fim, buscar o melhor para si é um ato de responsabilidade consigo mesmo sair do que é fácil de sustentar e caminhar em direção ao que, mesmo difícil, tem o poder de expandir quem você é.

E, como nos lembrava Zé Pelintra, não importa o que você acumule, no fim, no caixão, só sobram os ossos por isso, o que realmente vale é aquilo que você fez por si mesmo, os passos que deu para crescer e viver plenamente, sem se prender a confortos que apenas te impedem de ser o melhor que você pode ser.

Tauhane de Oxum



quinta-feira, 28 de maio de 2026

O arco-íris e a serpente

 O arco-íris e a serpente

O culto a Oxumarê teve origem em terras Mahin, do antigo Daomé, na região de Ifé, é chamado de Ajé Sàlugá, e é cultuado como a força que irá proporcionar riqueza a todos os homens. Seu nome possui raízes iorubás, significando “serpente que se move” ou “aquele que é dono do arco-íris”. “Òsù” é associado ao movimento e continuidade, já “Marè” remete à ideia da cobra, de algo que se alonga, assim como as serpentes. Dessa forma, pode-se entender a tradução como “a serpente do movimento contínuo”.

Oxumarê é o Orixá que personifica a mobilidade e a dualidade, sendo essa dualidade muito distante da confusão, representando para seus filhos a complementaridade e equilíbrio da vida. Oxumarê representa o eterno retorno, a renovação das energias, personificando a força do princípio e do fim, o masculino e o feminino, a transição de estados na matéria. Sua força traz a capacidade de unir energias opostas, como a união entre a água e a terra, a mortalidade e a imortalidade, proporcionando o início e o fim dos ciclos, atuando na renovação dos seres e conectando nosso mundo físico ao espiritual.

Os itãs iorubás, contam que Oxumarê, filho de Nanã, tinha como sua missão levar água para saciar a sede do mundo, trazendo o arco-íris após cada chuva, o qual simboliza esperança para que dias melhores aconteçam e, que ao final de seu arco-íris, terá prosperidade e abundância para seu povo. Oxumarê é a energia necessária para fazer com que o vapor da água ascenda até o céu e caia novamente sobre a terra em forma de chuva para os homens. Ademais, nos cultos iorubás, o arco-íris é um elemento divino e ativo, simbolizando a ponte entre o céu e a terra, seria o caminho por onde as forças divinas transitam, interligando o mundo espiritual e o material.

Outro símbolo importante deste grande Orixá é a serpente. Oxumarê representa tudo aquilo que é alongado, ele cuida desde o cordão umbilical dos recém nascidos até os ciclos durante toda a vida de cada filho. Oxumarê se manifesta como uma cobra que engole sua própria cauda, representando o eterno retorno e o ciclo da vida e da morte, da criação e da destruição, como também a continuidade, do movimento que nunca para. Assim como Oxumarê, a serpente também traz dualidade, ela pode curar, mas também mata, sendo muito temida e reverenciada. Traz também o ensinamento de renovação, da busca pela transformação constante e da adaptação, possibilitando que a pele velha se desfaz, dando lugar a uma nova pele.

Falado em mudanças e transformações, diferente de Iansã, a mudança de Oxumarê é uma mudança cíclica e contínua, associada, muitas vezes, com renovação periódica de um ciclo, trazendo prosperidade em um movimento serpentino (lento e ininterrupto). Oxumarê traz mudanças com constância, assim como as estações do ano, construindo estabilidade, de forma lenta, através de seu movimento. Por outro lado, o movimento de Iansã é impetuoso e avassalador, assim como os ventos e as tempestades, chegam e exigem ações rápidas, sendo uma mudança brusca e libertadora. Sendo assim, Oxumarê nos ensina constante adaptação aos ciclos e Iansã ensina a ter forças para mudar quando a vida nos exige coragem.



Oxumarê nos ensina que nada é estático, assim como a serpente que sempre muda de pele e o arco-íris vem após a chuva e sempre desaparece, a vida também se movimenta. Nos ensina que é importante não estagnar diante dos desafios, nos mostra que é importante e preciso dar pequenos passos constantemente em busca da evolução. Oxumarê traz o aprendizado que precisamos ser flexíveis, assim como o arco-íris se curva no céu, devemos nos adaptar à vida e suas mudanças. 

Esse grande Orixá nos mostra a valorizar diferentes forças e emoções que habitam nosso corpo físico, nos faz buscar a integração entre a razão e a emoção, o espiritual e o físico, nos ensina a acolher nossa totalidade, por mais contraditória que seja. Oxumarê nos mostra que, assim como no final de seu arco-íris existe um pote de ouro, há também esperança e beleza após as dificuldades da vida.

Que possamos cultuar a grande força de Oxumarê com respeito e sabedoria, para que nunca nos falte prosperidade e movimento constante.

Arroboboi, Oxumarê!

Isabela de Iansã


terça-feira, 26 de maio de 2026

Oroiná

 Oroiná

Dentro das forças sagradas que regem o universo espiritual, Oroiná também conhecida como Egunitá em algumas tradições se manifesta como o fogo divino que não apenas aquece, mas julga, purifica e transforma. Ela não é o fogo comum que se vê… é o fogo da alma, da consciência e da justiça que vem do alto.

Sua vibração está profundamente conectada ao povo cigano e encontra seu sincretismo em Santa Sara Kali, trazendo uma energia que une mistério, força espiritual, liberdade e destino. Assim como Santa Sara Kali é guia e protetora dos caminhos, Oroiná atua como aquela que enxerga além das aparências e coloca cada coisa em seu devido lugar.

Oroiná/Egunitá é o orixá do fogo e da justiça divina. Sua atuação é firme, reta e implacável quando necessário. Ela não age pelo impulso, mas pela verdade. Seu fogo não destroi por destruir ele queima aquilo que está em desequilíbrio, que não é justo, que não está alinhado com o propósito espiritual. É uma energia que limpa, corta demandas, desfaz injustiças e reorganiza caminhos.

Sua vibração é intensa e profundamente transformadora. É o tipo de força que não permite máscaras. Diante de Oroiná, tudo vem à tona. Tudo é revelado. Tudo é ajustado.



Os filhos de Oroiná carregam dentro de si essa mesma força. São pessoas de personalidade marcante, olhar firme e intuição afiada. Sentem quando algo não está certo e dificilmente conseguem ignorar injustiças. Têm um senso natural de verdade e justiça, o que muitas vezes os coloca em situações de confronto ao longo da vida.

São almas que passam por grandes processos de transformação como se fossem constantemente lapidadas pelo fogo. Caem, se reerguem e voltam ainda mais fortes. Carregam magnetismo, presença e uma conexão espiritual profunda, muitas vezes ligada à ancestralidade cigana, ao mistério e aos caminhos do destino.

Por outro lado, podem lidar com intensidade emocional, impulsos fortes e uma tendência a reagir quando feridos ou injustiçados. Seu aprendizado está no equilíbrio: usar o fogo como luz, e não como destruição.

Em nossa tradição, Oroiná/Egunitá é reverenciada no dia 24 de maio, data em que sua força se expande e pode ser cultuada com ainda mais conexão, fé e entrega.

Falar de Oroiná é falar de verdade, de lei divina e de transformação inevitável. É entender que existe um fogo que não falha…um fogo que não erra…um fogo que simplesmente coloca tudo no lugar.

 Erika de Ewá.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Mediunidade

 Mediunidade

Para falar sobre mediunidade, podemos nos basear nos ensinamentos do livro O Livro dos Médiuns e também na experiência prática vivida dentro da Umbanda.

A mediunidade pode ser entendida como uma faculdade natural do ser humano, que possibilita a comunicação entre o plano material e o plano espiritual. De acordo com essa visão, todas as pessoas possuem algum grau de mediunidade, embora em algumas ela se manifeste de forma mais sensível ou perceptível.

É importante compreender que a mediunidade não é um privilégio nem um poder extraordinário. Trata-se de uma capacidade humana que pode aparecer em diferentes níveis. Assim como outras habilidades, ela pode ser educada, desenvolvida e aprimorada por meio de estudo, disciplina, equilíbrio emocional e aprimoramento moral.

O exercício da mediunidade exige responsabilidade e consciência. Os espíritos que podem se comunicar através do médium apresentam diferentes níveis de evolução. Por isso, é fundamental cultivar pensamentos elevados, bom senso e discernimento, para manter sintonia com espíritos que tragam orientações positivas e construtivas. Nesse processo, atitudes como vigiar pensamentos, palavras e ações, além de praticar a humildade e o bem, tornam-se essenciais para um desenvolvimento mediúnico equilibrado.



Outro ponto importante é compreender que a mediunidade não tem como finalidade o espetáculo ou a curiosidade. Seu verdadeiro propósito é contribuir para o esclarecimento espiritual e para o progresso moral das pessoas. Quando bem orientada, ela pode servir como um instrumento de consolo, aprendizado e caridade, reforçando a compreensão de que a vida continua além do mundo material.

Dessa forma, a mediunidade deve ser encarada como um caminho de crescimento espiritual. Mais do que transmitir mensagens, ela convida o indivíduo a desenvolver responsabilidade, consciência e compromisso com o bem, tornando-se uma oportunidade de evolução moral e de maior compreensão das leis espirituais que regem a existência. 

Bruna de Obá


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Banho de ervas

Banho de ervas 

Na Umbanda, os banhos de ervas são bastante utilizados como um ritual sagrado de limpeza e conexão com o mundo espiritual. O banho é a renovação do corpo e da alma, pois para que a alma vibre harmoniosamente, o corpo precisa estar isento de cansaço e energias de baixas vibrações. 

Historicamente, os antigos Hebreus já usavam as abluções, que eram muito similares ao que hoje se conhece como os banhos de ervas. Na Índia, os banhos sagrados também são praticados há milênios, levando as pessoas para se banharem nas águas do Rio Ganges, cumprindo um ritual que, para esse povo, é sagrado. Já na África, a água é tida como uma portadora de grande força de poder e magia, o que reflete hoje em ritos de Candomblé e Umbanda, quando se fala nas Águas Sagradas de Oxalá. Além disso, para os indígenas, o banho nos rios era muito além de um banho, era uma busca por renovação de energia, de alegria, prazer e satisfação, o Rio Paraíba, por exemplo, é o rio sagrado para os povos Tupinambás, nele os indígenas faziam seus rituais sagrados. 



O banho com ervas pode ser um banho de descarrego, que são utilizadas ervas positivas, variando de acordo com a energia que a pessoa precisa recarregar e o que precisa ser mandado embora, envolvendo também quais Orixás carregam a força que será necessária nesse banho. O banho de descarrego deve ser tomado suavemente, com o pensamento voltado para energias positivas, firmando a força dos Orixás, guias e, principalmente, mentalizando a força de cada erva utilizada naquele banho, podendo também cantar os pontos cantados, invocando os espíritos que vibram com as plantas ali presentes. 

Ao finalizar o banho, deve-se recolher todas as ervas e jogá-las na natureza, seja em um rio, nas matas, no mar. Caso haja alguma dificuldade, também pode-se despachá-las em água corrente. 

A depender da tradição, após o banho de descarrego, deve-se fazer um banho de energização, com ervas de Oxalá ou dos Orixás que compõem a cabeça do médium. Esses banhos são feitos para ativar as forças dos Orixás, seus principais objetivos são revitalizar as funções psíquicas e abrir os chakras para que os guias se acoplem melhor. 

Outro banho de ervas que é popular nos rituais de Umbanda é o Amaci. Em alguns terreiros, o Amaci é feito somente quando há uma indicação feita por uma entidade, guia chefe do terreiro ou pai/mãe de santo. Sendo realizado da cabeça aos pés e é preparado de acordo com a coroa do médium que receberá o Amaci, que age como um neutralizador de energias de baixa vibração e, ao mesmo tempo, um energizador. 

Já em nosso terreiro, o Amaci é realizado visando àquela pessoa que já participa da casa e está decidido a continuar. É um compromisso firmado entre o médium e o terreiro, com a Umbanda e toda a espiritualidade. É preparado adicionando ervas maceradas à água e lava-se a cabeça do filho de santo com ela, bem como o médium também é instruído a permanecer em boas vibrações para receber a energia sagrada que o Amaci carrega. 

Deve-se lembrar que nenhum banho deve ser jogado sobre a cabeça, com exceção àqueles que forem orientados que sejam a partir da cabeça por um guia chefe de terreiro ou do próprio(a) pai/mãe de santo, pois banhos, normalmente, são do pescoço para baixo. É necessário atentarmos para o fato que banhos de ervas são manipuladores de energias, tendo situações específicas para serem usados, por isso deve-se sempre consultar guias e dirigentes da casa antes de utilizá-los. 

Isabela de Iansã



terça-feira, 19 de maio de 2026

Animismo e mistificação

 Animismo e mistificação

Na Umbanda, dois conceitos frequentemente discutidos dentro dos terreiros são animismo e mistificação. Ambos se referem a fenômenos que podem ocorrer durante a mediunidade, especialmente na incorporação, mas têm naturezas diferentes.

O animismo é frequentemente visto como um "tabu" ou um erro no desenvolvimento mediúnico, mas, na realidade, ele é uma parte normal de qualquer processo de comunicação espiritual. Entendê-lo é fundamental para o amadurecimento do médium e a pureza do trabalho no terreiro. O animismo refere-se aos fenômenos produzidos pela própria alma do médium. É a interferência da personalidade, das memórias, do subconsciente e da cultura do médium de incorporação na manifestação da entidade. 

Não é farsa: o animismo não deve ser confundido com a "mistificação" (fingimento). No animismo, o médium acredita no que está ocorrendo, mas o conteúdo é filtrado por sua própria mente. O processo ocorre geralmente por ideoplastia (projeção de ideias). O guia projeta um sentimento ou imagem mental, e o cérebro do médium converte isso em palavras quase instantaneamente. No início do desenvolvimento, o médium perguntou: "Sou eu ou é o guia?". Na verdade, são os dois. É uma parceria. 



Com o tempo, o médium aprende a identificar o "tom de voz" do pensamento do guia, que é diferente do seu fluxo de pensamento habitual. Nenhum médium é uma "folha em branco". O espírito utiliza o cérebro e o vocabulário do médium para se comunicar. Existe uma espécie de estoque mental. Se o médium, por exemplo, tem um vocabulário rico, a entidade terá mais facilidade em expressar conceitos complexos. O espírito não "injeta" palavras novas no cérebro do médium; ele manipula as que já existem. 

Se o médium nunca ouviu uma palavra técnica, o guia terá que usar uma metáfora para explicar o conceito. É por isso que um Caboclo em um médium do Sul do Brasil pode usar expressões diferentes de um Caboclo em um médium do Nordeste. O arquétipo é o mesmo, mas a "ferramenta" (o médium) oferece materiais diferentes. Se o médium possui traumas ou opiniões muito rígidas, esses elementos podem camuflar um pouco a mensagem espiritual. 

Quando o médium tem opiniões muito fortes ou preconceituosas, o espírito precisa "lutar" contra esse estoque para não deixar a mensagem ser distorcida. O Animismo traz junto com ele vários aspectos que necessitam de desenvolvimento pessoal para serem conduzidos e superados. O maior desafio enquanto desenvolvimento pessoal é aprender a distinguir o "eu" do "outro". Isso exige uma autoanálise profunda. O médium começa a questionar: "Esse pensamento é meu ou foi intuído?". Esse processo acelera a inteligência emocional. 

Quando o médium percebe que sua mente interfere na mensagem, ele entende que precisa de reforma íntima. Se a mente do médium está "suja" de preconceitos ou raiva, a mensagem passará por esse filtro distorcido. Muitos médiuns travam por medo do animismo. O desenvolvimento pessoal aqui envolve superar a síndrome do impostor e entender que o médium é um canal, e todo canal possui alguma resistência ou característica própria. 

Processo de confiança, busca por estudos. Para quem recebe a orientação (o consulente), a interferência anímica pode ser tanto um bálsamo quanto um risco. Se o médium atua de forma puramente anímica sem consciência, ele pode projetar seus próprios valores no consulente. Por exemplo, um médium conservador pode dar um conselho baseado em sua moral pessoal, e não na visão espiritual, o que pode atrasar a vida de quem busca ajuda. 



O consulente que entende o animismo aprende a não "idolatrar" o médium. Ele passa a filtrar as orientações com o próprio discernimento, entendendo que a comunicação espiritual é uma parceria humana espiritual, e não uma verdade absoluta e infalível. O consulente geralmente busca evidências. Quando o animismo é excessivo, a mensagem se torna genérica ("você terá luz", "as coisas vão melhorar"). Isso pode gerar ceticismo ou uma dependência emocional de respostas vazias.

Por sua vez, a mistificação é uma falsa manifestação espiritual, podendo ser involuntária ou consciente. O objetivo é simular o fenômeno mediúnico, ou seja, fingir uma incorporação ou mensagem espiritual para enganar as pessoas, abusando da fé delas. Diferente do animismo, onde o médium interfere na incorporação sem a intenção de prejudicar, a mistificação envolve uma má intenção, que pode ser guiada de duas formas 

- Ação dos espíritos: pode ocorrer pela interferência de espíritos levianos e zombeteiros se passando por guias sérios. 

- Motivações pessoais: quanto isto acontece, e não deve acontecer, o médium interfere na incorporação, passando à frente do guia ou até se passando por ele. 

Alguns médiuns desequilibrados fingem estar incorporados para suprir seu ego, vaidade, desejo de poder e atenção, ou até mesmo para enganar os consulentes. Quando isso ocorre podemos perceber que a qualidade da comunicação diminui, o fetichismo toma conta – em detrimento à qualidade da mensagem – a simplicidade da Umbanda dá lugar a manifestações emplumadas e estapafúrdias. 

O médium pode imitar a fala de um caboclo, simular gestos, transmitir mensagens confusas, enfim, os conselhos da “entidade” não acrescentam e, por vezes, podem interferir até mesmo no livre arbítrio do consulente. Quando vemos médiuns neste estado, de querer mistificar, já sabemos que seu caminho será curto, pois a espiritualidade é séria e rígida quanto à questão ética. A demanda por um caráter reto é visível nos trabalhos mediúnicos, já que todos os guias são agentes da Lei Maior e da Justiça Divina (direta ou indiretamente). 

Além de prejudicial ao trabalho espiritual e à egrégora da corrente, a mistificação interfere diretamente no crescimento pessoal e mediúnico. A mediunidade é desenvolvida com disciplina, autoconhecimento e sintonia espiritual. Quando ocorre a mistificação o médium passa a confundir suas próprias ideias com mensagens espirituais, deixando de distinguir intuição e enfraquecendo a comunicação com os guias. 

Dessa forma, se cria um padrão de manifestação que é artificial, baseado apenas no que se quer mostrar, impedindo que a mediunidade se torne clara, equilibrada e confiável. Essa dificuldade que o médium passa a ter de se comunicar com os guias de luz o afasta deles, podendo aproximar outros espíritos, como os zombeteiros. A mediunidade também é, acima de tudo, um caminho de crescimento interior. 

Quando alguém mistifica, evita confrontar suas próprias limitações, alimentando o ego espiritual e criando uma imagem falsa de si mesmo. Assim, a pessoa não aprende o caminho da humildade, não se dá a oportunidade de amadurecer e segue sem responsabilidade, emocional e espiritual. Enfim, o trabalho mediúnico depende muito de credibilidade e confiança. Um médium que mistifica e passa orientações incorretas ao consulente não está apenas interferindo no seu próprio crescimento pessoal, como interfere diretamente na vida da pessoa que foi buscar auxílio. E atitudes assim custam caro para todos. 

Camila de Iemanjá e Renata de Iansã


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Alfazema

 Alfazema

As ervas são consideradas elementos sagrados dentro da Umbanda. Elas são muito utilizadas em rituais para limpeza, proteção, equilíbrio e cura espiritual. Podem ser usadas de várias formas, como em banhos, chás, defumações, entre outros trabalhos espirituais. Existem muitas ervas importantes dentro da Umbanda, mas neste estudo vamos falar especificamente sobre a alfazema, também conhecida como lavanda.

A alfazema pertence ao grupo das plantas chamadas Lavandula, da família Lamiaceae. Ela é muito conhecida pela sua beleza, com flores em tons de roxo e azul, sendo bastante usada na decoração de jardins e ambientes. Além de bonita, essa planta possui diversas propriedades benéficas.

Quando falamos em lavanda, uma das primeiras coisas que vem à mente é seu efeito calmante. Por isso, ela é muito utilizada em óleos essenciais na aromaterapia, ajudando a relaxar o corpo e a mente. A alfazema é considerada uma planta medicinal. Ela possui propriedades calmantes, ajuda a reduzir a ansiedade e tem ação anti-inflamatória. Pode ser usada para aliviar estresse, insônia, dores de cabeça, cólicas menstruais e tensões musculares. Além disso, também ajuda na cicatrização da pele e tem efeito antisséptico.



No campo espiritual, a alfazema se destaca por promover uma limpeza energética suave. Diferente de outras ervas mais fortes, ela atua de forma delicada, sendo ideal para pessoas mais sensíveis ou que estejam passando por momentos emocionais difíceis. Ela limpa as energias negativas sem causar desgaste espiritual.

Outro ponto importante é seu poder de acalmar. A alfazema ajuda a tranquilizar a mente, diminuir a ansiedade e facilitar a concentração em orações e práticas espirituais. Por isso, é muito indicada antes de dormir ou antes de trabalhos mediúnicos.

Além de limpar, a alfazema também ajuda a elevar a energia. Ela melhora a vibração do ambiente e da pessoa, favorecendo a aproximação de energias mais leves e espirituais. Sua proteção espiritual também é mais sutil. Em vez de combater energias negativas, ela cria um ambiente de paz e harmonia, onde essas energias não conseguem permanecer.

A alfazema também está ligada ao sagrado feminino, trazendo energias de doçura, sensibilidade, intuição e cura emocional. Por isso, é muito utilizada em trabalhos voltados ao amor, acolhimento e conexão espiritual.

De forma geral, a alfazema nos ensina que a transformação espiritual não precisa acontecer pela força, mas sim pela elevação da energia. Quando elevamos nossa vibração, tudo o que é negativo naturalmente se afasta.

Bruna de Obá


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A cura da raiz ancestral

 A cura da raiz ancestral

Nas veredas do sagrado, há um caminho que nasce da terra e se eleva como sopro antigo, carregado de memória e força. É um saber que brota das raízes, profundo como o silêncio das matas e firme como aquilo que resiste ao tempo. Nesse território invisível aos olhos apressados, habitam presenças que ensinam sem impor, que conduzem sem prender, que despertam sem exigir. 

Ali, o aprendizado não vem em palavras diretas, mas em sensações, e intuições que atravessam o peito como um chamado. É uma escola onde o sentir vale mais que o explicar, e onde cada passo revela algo sobre quem somos e sobre aquilo que ainda precisamos curar, fortalecer e compreender. As forças que ali atuam carregam a sabedoria de quem conhece a dor e a transformação. São guias que ensinam através da simplicidade, mostrando que a verdadeira grandeza está em manter-se firme, mesmo quando tudo ao redor parece instável. 

Com eles, aprendemos sobre coragem, sobre respeito às origens, e sobre a importância de caminhar com verdade. Essa energia desperta algo essencial na conexão com aquilo que é autêntico. Ela nos lembra que não somos separados da natureza, nem das histórias que nos formaram. Pelo contrário, somos continuidade, somos raiz, tronco e fruto ao mesmo tempo.



E, ao nos aproximarmos desse mistério, algo dentro de nós se organiza. A mente silencia, o coração escuta, e a vida passa a ser sentida com mais presença. Não como um peso, mas como um percurso cheio de significado, onde cada experiência é também um ensinamento.

No fim, o que esse caminho oferece não é apenas proteção ou orientação é consciência. É o entendimento de que crescer espiritualmente não é fugir do mundo, mas aprender a estar nele com mais verdade, mais firmeza e mais alma.

Tauhane de Oxum


terça-feira, 12 de maio de 2026

O sagrado feminino

 O sagrado feminino

Compreender o sagrado feminino é mergulhar na história da humanidade. Desde os primórdios, a psique humana projeta na figura da "Grande Mãe" o arquétipo da origem, aquela que gera, nutre e acolhe. Na psicologia analítica, o feminino é uma energia presente em todos os indivíduos, o Anima no homem e a essência da Self feminina, representando a função do sentir, da intuição e da conexão com as águas profundas da alma. Este fundamento atravessa culturas e religiões, manifestando-se em mitologias… Gaia, Lilith, Virgem Maria, ou até mesmo na força das nossas Yabás na Umbanda.

Historicamente, a mulher era vista como a própria divindade encarnada, pois seu corpo é o espelho da natureza: assim como a terra recebe a semente e a faz germinar, o útero é o solo fértil capaz de ancorar uma alma no plano físico. Por possuir o poder de gerar vida, a sexualidade e os ciclos femininos eram reverenciados. No entanto, como tudo que emana um poder gera medo, a sociedade buscou dominar o que não podia controlar. Ao longo dos séculos, as práticas ancestrais de cura e a autonomia feminina foram demonizadas e distorcidas, resultando em um controle institucional sobre o corpo e a subjetividade das mulheres, o que gerou um desequilíbrio na psique social que perdura até hoje.

O sagrado feminino não se refere aos papeis de gênero construídos pela modernidade, que muitas vezes são contraditórios e buscam justamente o apagamento dessa essência. Enquanto a sociedade impõe comportamentos rígidos, o sagrado nos lembra que somos todos compostos por polaridades. 

O masculino e o feminino, são energias complementares e interdependentes. O sagrado masculino traz o impulso da ação, do direcionamento e da proteção (o sol, o fogo), enquanto o sagrado feminino traz a profundidade das emoções, a gestação das ideias e a sabedoria do silêncio (a lua, a água).


Trabalhar essa energia é, portanto, buscar o equilíbrio. Não há movimento sem receptividade, assim como não há vida sem o mistério do útero, seja ele físico ou simbólico. Resgatar o sagrado feminino, é permitir que a intuição volte a guiar nossos passos e reconhecer que em cada um de nós reside uma centelha divina que pulsa no ritmo das marés e das fases lunares, lembrando-nos que somos, ao mesmo tempo, criatura e criador.

Axé!

Jéssica de Obaluaê




segunda-feira, 11 de maio de 2026

Oração a Xangô

 Oração a Xangô

Salve o senhor da justiça, que me chama para a verdade sobre mim mesma. Que seu machado desça com força e precisão, separando a ilusão da realidade, pois diante de sua presença, não há espaço para contradições.

Me dê forças para me despir da armadura do ego que muitas vezes me visto. Me dê discernimento para entender a balança da vida onde cada pensamento, escolha e ação têm um peso.

Me dê sabedoria para enxergar com clareza a responsabilidade de ser parte das dinâmicas que eu mesma crio, admitindo que, muitas vezes, sou autora de meus próprios desafios.

Que seu machado seja instrumento de consciência, me ensinando a abandonar a vaidade e o orgulho que tanto me distanciam do equilíbrio e da harmonia que a vida me convida a cultivar.



Que nesse processo de encontrar a verdade em mim mesma, eu possa abraçar a oportunidade de crescer, reconhecendo minha humanidade falha e, mais ainda, minha impotência em mudar, escolhendo o caminho da maturidade.

Que a sua força seja meu alicerce e esteja presente em minhas atitudes diárias, me trazendo a sabedoria e a retidão necessárias para agir com justiça, evitando julgamentos precipitados ou movidos por emoções negativas.

Que a sua luz me guie para a autocrítica e o meu alinhamento com os valores da verdade e do equilíbrio, me dando a capacidade de enxergar os meus erros e aprender com eles, não me tornando refém da razão. Ampare meu caminho quando a justiça parecer difícil e as escolhas complicadas. Expanda a minha comunicação e a minha honestidade.

Xangô, que sua energia se faça presente em minha vida, a enchendo de propósito, e me ensinando a amar de forma justa e intensa, para que eu possa construir relações que sejam reflexos de sua sabedoria e força. 

Que o discernimento, a prudência e a tolerância façam morada em meu coração e a sua luz possa me guiar sempre pelo caminho da equidade.

Salve Xangô, que me orienta na jornada!

Camila de Iemanjá



quinta-feira, 7 de maio de 2026

Salve a Malandragem!

 Salve a Malandragem!

Salve a malandragem, é uma das saudações que utilizamos para dar boas vindas a linha dos malandros e malandras. Mas afinal de que forma essa linha atua dentro dos trabalhos de umbanda? 

Malandros e malandras são entidades espirituais que trazem consigo a sabedoria e a esperteza adquirida pelas dificuldades da vida, injustiças, preconceitos entre outros. Podem vir na linha da esquerda, juntamente com exus como na linha da direita. “Saravá seu zé pilintra moço do chapéu virado,na direita ele é maneiro, na esquerda ele é pesado“.


 

Atuam na quebra de demandas, vícios, abertura de caminhos além de auxiliar aqueles que solicitam sua ajuda a retomada do seu amor próprio, ensinam a importância do posicionamento, da coragem e do saber agir no momento certo. 

Apesar de seus arquétipos trazerem consigo vestimentas que remetem a bohemia ou a malícia, os malandros e malandras não incentivam a desonestidade, mentiras e enganação.Com seus gingados, fala mansa e alegre, nos fazem refletir sobre a importância de transformar aquilo que é dor em aprendizado e que para toda dificuldade criada existe um caminho, uma direção. 

Em nossa casa não é uma linha que vem com frequência, mas quando temos o privilégio da sua presença podemos desfrutar do seu axé e sabedoria para olhar cada desafio como crescimento.

Saravá !

Natália S. de Ogum Megê


terça-feira, 5 de maio de 2026

Sob a proteção da espada de Ogum

 Sob a proteção da espada de Ogum

A erva Espada de Ogum carrega uma presença forte e simbólica, unindo natureza e espiritualidade. Suas folhas longas, firmes e apontadas para o alto lembram uma espada erguida, como se estivesse sempre em posição de guarda. Não é à toa que, na tradição da Umbanda, ela é associada a Ogum, o orixá guerreiro, senhor da proteção, da coragem e dos caminhos abertos.

Mais do que uma planta ornamental, a Espada de Ogum é vista como um escudo espiritual. Ela representa a força que afasta energias negativas, corta demandas e traz firmeza para quem está passando por lutas e desafios. Sua forma reta e resistente simboliza determinação, foco e a capacidade de seguir em frente mesmo diante das dificuldades.  



Muitas pessoas a colocam na entrada de casa, acreditando que ali ela atua como uma guardiã silenciosa, protegendo o ambiente e equilibrando as vibrações. Assim como o orixá que representa, a erva não é agressiva, mas é firme: defende, protege e fortalece.

A Espada de Ogum também fala sobre caminhos abertos e fé na caminhada. Ela nos ensina que proteção não é apenas afastar o mal, mas também ter força interior para tomar decisões, enfrentar batalhas diárias e manter a honra mesmo nos momentos difíceis. Sua energia simboliza disciplina, responsabilidade e coragem para agir.

Além disso, por ser uma planta resistente, que sobrevive a diferentes ambientes, ela lembra que a verdadeira força é constante e silenciosa. Não precisa de alarde para proteger — sua presença já basta. É como uma sentinela da natureza, firme, atenta e cheia de axé.

É a natureza expressando, em forma de folha e raiz, a energia do guerreiro que luta pelo bem, protege os seus e abre caminhos para que a vida siga com segurança, justiça e luz.

Tauhane de Oxum 


segunda-feira, 4 de maio de 2026

O preceito: um dos fundamentos sagrados da Umbanda

 O preceito: um dos fundamentos sagrados da Umbanda

O preceito é uma prática sagrada dentro da Umbanda, que tem como objetivo preparar para os trabalhos espirituais. Ritual que promove um alinhamento entre corpo, mente e espírito, elevando a vibração em sintonia com os trabalhos dos guias espirituais. 

Durante o preceito, o médium se purifica, deixando de lado o que é denso e terreno para elevar sua vibração. Por isso, durante esse período, recomenda-se abster-se de sexo, álcool e carnes vermelhas. Práticas que ajudam a manter a energia mais leve e receptiva. É um tempo de silêncio interior, oração, meditação e fé, no qual se busca a paz necessária para servir à espiritualidade com amor e equilíbrio.



Algumas casas também recorrem aos banhos de ervas, às preces e às palavras de luz para fortalecer o axé e o vínculo com o sagrado. Cada casa de Umbanda tem suas próprias orientações, mas todas compartilham o mesmo propósito: preparar o médium para estar em sintonia com a espiritualidade, em humildade e entrega.

Bruna de Obá


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Casca de coco no terreiro

 Casca de coco no terreiro

“Vovô não quer… Casca de coco no terreiro;

Porque faz lembrar… Dos tempos de cativeiro”

Cantamos muito esse ponto em nossa casa para a linha dos pretos velhos, um ponto cheio de significado e que evidencia a ancestralidade dentro da nossa religião. 

Na época da escravidão, a casca do coco era usada de várias maneiras porque era um material natural, gratuito e fácil de encontrar, permitindo que os escravizados improvisassem ferramentas e utensílios diante da extrema falta de recursos. Muitas vezes, as cascas eram amarradas aos pés como uma forma rudimentar de proteção, já que trabalhavam descalços em terrenos duros, quentes e cheios de pedras ou espinhos. Embora desconfortáveis, pesadas e abrasivas, essas cascas ajudavam a evitar ferimentos mais graves e tornaram-se símbolo de improviso forçado.

Além disso, a casca de coco era utilizada como cuia para comer e beber, para carregar pequenas quantidades de água ou comida, e até como ferramenta de trabalho, servindo como concha para escavar ou alimentar animais. Esses usos, tão ligados ao cotidiano de exploração, reforçaram sua associação com pobreza extrema, humilhação e desumanização. 

Para os escravizados, que não tinham acesso a objetos básicos como sapatos, utensílios domésticos ou instrumentos de trabalho dignos, a casca de coco representava a dureza cruel da vida no cativeiro.

Uma imagem contendo pessoa, no interior, homem, frente

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Conhecer a história dos pontos cantados é fundamental para compreender a profundidade espiritual, cultural e ancestral que sustenta cada canto dentro do terreiro. Os pontos não são apenas músicas, são vibrações e ensinamentos dos guias e a memória sagrada do povo que construiu essa religião. 

Renata de Iansã 


terça-feira, 28 de abril de 2026

Oxotocanxoxo: O caçador de uma única flecha

 Oxotocanxoxo: O caçador de uma única flecha

Em épocas de festas no reino, foi dada uma grande festa e o rei decidiu não chamar uma feiticeira temida pelo povo. Sabendo disso, a feiticeira mandou um grande pássaro enfeitiçado amaldiçoar o reino, os rios secaram, a colheita fracassou, as chuvas abandonaram a região e um período de fome se instalou para esse povo. Após os melhores caçadores fracassarem na tentativa de matar o temido pássaro, Oxotocanxoxo decidiu enfrentá-lo. No entanto, apesar desse caçador ser majestoso naquilo que fazia, diferente de outros caçadores, ele carregava uma única flecha, fazendo com que essa flecha fosse suficiente para ter sucesso em suas caçadas. E assim fez: foi ao encontro do pássaro e, com sua única flecha, o abateu, trazendo a paz e salvando o reino. Oxotocanxoxo foi nomeado Oxóssi: o caçador do povo. 

O reino de Oxóssi começa quando os caminhos desbravados por Ogum acabam, na beira do mato, na entrada para a mata virgem. Oxóssi habita a floresta, onde os ventos fazem as folhas dançarem, onde o silêncio mascarado por sons da mata ressoa, onde o tempo não tem pressa, mas tem ânsia para caçar. 

Oxóssi é cultuado como o orixá da comunidade, é aquele que traz o sustento e a fartura para sua aldeia. Ele é decidido, faz o que for preciso e não espera aplausos por isso. 



Oxóssi caminha sozinho, mora nas matas e nos pensamentos. É o orixá da exatidão, não se move por impulso, traz a força da precisão e do pensar. Oxóssi analisa o que está entre o tempo de querer e o exato momento de atirar, pois não domina a caça, ele a acerta e mata com exatidão.

Para além de um exímio caçador, Oxóssi é o silêncio que anuncia, é o olho que vê tudo à sua volta, é o senhor que toca o mundo com a leveza e a precisão.  Oxóssi é o orixá que respira enquanto a mata está furiosa, é aquele que revela o silêncio enquanto o mundo grita. 

Oxóssi não é caçador apenas de alimento para seu povo. É a energia que caça o saber, o conhecimento, o sentido oculto do universo. É o impulso para buscar o novo, para aprender sobre si e sobre o mundo. E seu conhecimento não está em belas palavras ou em oratórias elaboradas, está em ações, em gestos, no cuidar da natureza, no papear sobre a grandeza do universo, está no invisível, que só os bons olhos de um exímio caçador pode encontrar.

Oxóssi é uma energia livre que não se curva ao poder. Foi coroado Rei de Ketu por Oxum, mas nunca em seu coração, pois sabia que o peso de sentar no trono o aprisionava. Oxóssi é das matas, das florestas, das folhas e dos animais, esse é seu reino: onde pode ser livre, onde cada pisada é um risco e uma aventura. 

Oxóssi é a energia que nos ensina no silêncio. É o orixá que nos ensina que há forças que não precisam ser combativas e estrondosas, mas que também há muito o que se aprender na calma, na leveza e no silêncio. 

Seus filhos são silenciosos, analíticos, são mais adeptos à escuta do que a fala, preocupados com a família e seu sustento, pacientes, atentos, astutos, estrategistas, espontâneos, alegres, inteligentes, se interessam muito por coisas ocultas, ligados à natureza, inquietos, criativos, livres, desejam sempre buscar algo novo, discretos, carismáticos, sociáveis, normalmente são altos e magros. No negativo se isolam excessivamente, não são persistentes, pensam demais e agem de menos e acabam ficando estáticos, sofrem silenciosamente e desenvolvem um cansaço mental, bem como possuem dificuldade de pedir ajuda e são muito cabeça dura. 

Okê Arô, meu Pai Oxóssi! 

Isabela de Iansã