segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Ensaio teórico da sensação nos espíritos

Ensaio teórico da sensação nos espíritos

O capítulo 6 do livro 2 do livro dos espíritos nos revela sobre um assunto intrigante e complexo que é como se dão as sensações nos espíritos. Afinal de contas, como não há corpo físico, não deve haver dor, certo? Veremos…
Relata-nos o texto que o corpo é instrumento da dor. A alma teria apenas a percepção da dor, sendo essa percepção o efeito da dor e não a causa. As lembranças da dor que a alma conserva, não têm ação física, mas podem também causar um sofrimento muito intenso e real. Nem o frio e nem o calor tem capacidade de desorganizar os tecidos da alma, não podendo esta se congelar ou se queimar. No entanto, é comum ver a recordação ou apreensão de um mal físico produzirem efeito, como se esse mal fosse atual e real.  Sabemos que, tanto na vida humana quanto no mundo dos espíritos, o medo de sofrer causa efeitos, como deixar de realizar algo, deixar de buscar um objetivo ou sonho. O medo de sofrer limita. Da mesma forma acontece com o trauma de um sofrimento passado, que se o espírito ou pessoa se fixa naquela mesma ideia é impossível superar e voltar a evoluir. Isso fica claro ao se ter contato com espíritos umbralinos, os quais muitos não conseguem sair do umbral devido à fixação em seus remorsos e traumas do passado. Existem pessoas que amputaram um membro de seu corpo e ainda assim conseguem sentir dor naquele membro que não existe mais. Isso seria impossível, já que o ponto de partida da dor já não existe. Essa dor não é nada mais do que as impressões que o cérebro guardou dessa dor. Um estudo aprofundado sobre o perispírito e sobre os espíritos que desencarnam quando ainda estão muito ligados à matéria nos traz luz sobre esse assunto.


O perispírito é a matéria que une o corpo ao espírito, é denominado, muitas vezes, como quintessência da matéria. É o princípio da vida orgânica, mas não o da vida intelectual que é própria do espírito. Além disso, é também agente das sensações exteriores, a quem os órgãos servem de condutos, onde se localizam as sensações. Quando não há mais corpo, essas sensações se tornam gerais. Isso pode ser identificado nos relatos dos sofrimentos dos espíritos, que não dizem sofrer da cabeça ou dos pés, por exemplo. O espírito livre do corpo pode sim sofrer, mas esse sofrimento não é corporal e nem exclusivamente moral(como o remorso) uma vez que existem queixas de espíritos sobre frio e calor. No entanto, já foram vistos espíritos atravessando até mesmo chamas, sem que experimentasse nenhuma dor. Desta forma fica claro que a temperatura não causa mal algum neles. A dor que sentem não é física, é como uma lembrança que ainda está impregnada na memória. Existem outros aspectos a serem analisados a seguir.
Quando ocorre a morte, o perispírito se desprende mais ou menos lentamente do corpo. Enquanto existir essa ligação com o corpo, o espírito ainda não compreende o que está acontecendo, não entende que está morto. Há relato de suicidas que diziam sentir os vermes roendo seus corpos, isso ocorre porque o elo entre o corpo e o espírito, o perispírito, ainda  não se  desprendeu do corpo, sendo capaz de transmitir essa sensação para o espírito, mesmo sabendo que os vermes não roíam seu espírito e perispírito, mas somente seu corpo físico.
 Durante a vida, as impressões exteriores são transmitidas para o espírito através do perispírito. Quando morto, o corpo já não sente nada, já que não existe com ele nem o espírito e nem o perispírito. O espírito, desprendido do corpo, ainda experimenta a sensação, mas como essas sensações não são enviadas através de uma parte sensorial limitada(como órgãos e membros) essa sensação é geral, não sentindo dor em uma parte específica, apenas sentido dor sem saber precisar em que parte. Como o perispírito é apenas um agente transmissor, se este pudesse existir sem estar ligado ao espírito, ele nada sentiria, exatamente como o corpo que já morreu. Seguindo esse raciocínio, percebe-se que se o espírito não tivesse perispírito, os estímulos não chegariam a ele, sendo impossível qualquer sensação dolorosa. É o que acontece com espíritos completamente purificados, quanto mais eles se purificam, mais seus perispíritos  tornam-se sutis, se eterizam. Desta forma, diminuindo também cada vez mais a influência material nestes e, consequentemente, diminuindo as sensações.


Tendo chegado às conclusões do parágrafo anterior, nos vem outro pensamento à cabeça: se os espíritos puros se desligam da matéria e se tornam incapazes de sentir dor, eles também deveriam deixar de sentir as boas sensações. E assim o é, eles não conseguem sentir o cheiro das flores ou ouvir o som de uma música. No entanto, eles têm outros tipos de percepção que são incompreensíveis para nós. A nossa ciência ainda não é capaz de estudar e entender algo tão profundo da espiritualidade. No Espírito, há percepção, sensação, audição, visão. Sabemos que essas faculdades são atributos de todo o ser e não de apenas um órgão como nos homens, mas de que modo ele as têm? É impossível saber com o nosso desenvolvimento atual, nem a nossa linguagem é sofisticada o suficiente para que os espíritos possam nos dizer algo sobre isso.
Quando se diz que os espíritos são inacessíveis às impressões da matéria, nos referimos ao espíritos que já são muito elevados. Os espíritos que possuem o perispírito mais denso conseguem sentir nossos cheiros e sons. No entanto, percebem essas sensações em todo seu espírito e não apenas em uma parte do corpo (nariz ou ouvidos, por exemplo) como era quando estavam encarnados. Eles conseguem também ouvir a nossa voz, mas nos compreendem sem que digamos uma palavra, somente pela transmissão de pensamento. Quanto à vista, para o espírito independe da luz, como é com os encarnados. A faculdade de ver é própria do espírito, para o qual a obscuridade não existe.
Ao passarem de um mundo para outro, os espíritos mudam de envoltório, da mesma forma como mudamos de roupa quando está frio ou calor. Quando vêm nos visitar os mais elevados se cobrem com o perispírito denso da terra e então suas percepções tornam se como nos espíritos mais densos. Todos os espíritos, porém só ouvem e sentem aquilo o que querem sentir. Como não existem órgãos sensitivos, conseguem tornar ativas ou nulas suas percepções. Só não conseguem desativar a audição, principalmente quanto aos conselhos dos espíritos mais elevados. A visão também é sempre ativa, mas um espírito superior consegue se tornar invisível aos olhos de outro menos evoluído. Quando o espírito desencarna, sua visão é turva e confusa, vai se apurando à medida que este se desprende até alcançar a nitidez que tinha durante a vida terrena. Quanto a conseguir ver através do passado e futuro, isso depende do grau de pureza e elevação do espírito.
Muitos podem dizer que este texto causa grandes aflições em quem o lê, uma vez que no senso comum, pensa-se que quando há o desencarne o espírito passa a descansar, sem que haja sofrimento. É verdade, o nosso sofrimento pode durar muito tempo além da morte, por outro lado é possível deixar de sofrer até em vida, trabalhando pela nossa evolução espiritual e consequentemente tornando nosso perispírito mais sutil. 
Os sofrimentos que passamos na Terra são de grande maioria devido a nossa vontade. Se voltarmos na origem de cada um deles, veremos que a maior parte deles são efeitos de causas que poderiam e deviam ter sido evitadas. A enorme maioria dos males e enfermidades do homem tem origem em seus excessos, sua ambição e em suas paixões. Se não abusássemos de nada seríamos poupados de muito sofrimento. Da mesma forma acontece com o espírito, as tribulações por que passa são consequência do modo em que viveu enquanto encarnado. Os sofrimentos não são mais os mesmos, não são devido a doenças, mas serão novas dores que nada ficarão aquém destas. Como o laço com a matéria é a raiz do sofrimento do espírito, é possível ir trabalhando para desfazer esse vínculo mesmo encarnado. Dome suas paixões animais, não alimente ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho. Não se deixe dominar pelo egoísmo, purifique-se, nutrindo bons sentimentos, pratique o bem, não ligue às coisas deste mundo importância que não merecem. Desta forma, embora ainda encarnado, já estará depurado, estará liberto da matéria quando desencarnar e desta forma não sofrerá.


Para esse estudo Kardec interrogou e acompanhou milhares de espíritos recém desencarnados, de todas as classes e posições sociais, e foram os homens mais vulgares que forneceram os melhores elemento para o estudo. Foi possível notar que os sofrimentos tinham relação com o proceder que tiveram e as consequências que experimentavam e que a  vida pós-morte é uma libertação para aqueles que trilharam um bom caminho.  Desta forma, fica claro que os que sofrem, sofrem porque escolheram isso de acordo com suas opções de vida, assim só de si mesmo devem queixar-se, tanto em vida como também após o desencarne.
A Umbanda é uma religião espiritualista, portanto este ensinamento aqui explanado se aplica a nossa querida religião, posto que é assunto comum às religiões espiritualistas.
Axé.


Ricardo de Ogum Matinata

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