quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Boiadeiros

Boiadeiros 



Linha relativamente nova na Umbanda, a linha dos Boiadeiros começou a se manifestar junto à linha dos Caboclos. Segundo a história na Umbanda, a primeira vez que essa linha se manifestou foi numa gira de Caboclos em que estava presente no terreiro um Caboclo Boiadeiro.

Essa linha vem geralmente sustentada num de seus mistérios por Ogum, por ser o senhor dos caminhos e das guerras, os Boiadeiros atuam nessa linha no sentido de conduzir a boiada (humanidade desviada) para os caminhos que levem a Olorum(Deus); nos mistérios de Oxóssi e Iansã, atuam no sentido de que praticamente toda a vida dos Boiadeiros se passa em contato estreito com a natureza, tendo muitas vezes o céu por teto, aprendendo a se relacionar com essa natureza com base no respeito e buscando nela, muitas vezes a cura (através do uso de ervas) para os males a que eram acometidos em virtude do trabalho de conduzir a boiada. Ainda  no Mistério de Iansã, receberam desta, a tarefa de conduzir Eguns(espíritos que ainda não encontraram a luz) onde não poderão fazer mal e terão oportunidade de crescimento. Podem, ainda, vir sob a irradiação de outros Orixás.

O arquétipo do boiadeiro é muito belo, pois traz a simplicidade do homem do campo, a lealdade e acima de tudo a força de vontade de domarem em si mesmos aquilo que precisa ser domado, ou seja: suas imperfeições. Ao mesmo tempo em que são cheios de atitudes, os Boiadeiros são também pacientes, pois se necessário, desaceleram seu ritmo a fim de que possam conduzir a boiada, quando essa se mostra lenta.

A lealdade do Boiadeiro se traduz no fato de que este, quando percebe que um boi está perdido ou atolado, toca seu berrante para que o perdido o encontre, mas quando isso não se dá, o Boiadeiro vai onde o boi está, ou seja: coloca a boiada em segurança e volta onde for para resgatar o boi perdido, fazendo lembrar a parábola do Bom Pastor.


Quando esses guias chegam no terreiro, descem geralmente aboiando o gado, conduzindo como carreiros ou empunhando laços e chicotes, costumam, também, chegar com uma dança que simula o movimento do peão sobre o cavalo, ou do peão domando boi, cavalo ou burro brabo. Agitam muito os braços, dependendo da região do país, usam roupas características do peão daquela região.

Para atuar na linha dos Boiadeiros, o espírito há de ter algumas características: ser leal, corajoso, livre, determinado, valoroso, geralmente sisudos e de poucas palavras, mas muita ação; sabem lidar com as intempéries do tempo e da vida, manifestam uma força de vontade inquebrantável não se detendo por nada no ofício de conduzir com segurança a boiada que lhe foi confiada.

Assim como nem todo Preto Velho foi negro ou passou pela escravidão, nem todo aquele que se manifesta na linha dos Boiadeiros foi de fato um, apenas possui características parecidas para fazer parte dessa egrégora tão valorosa.

Seus instrumentos magísticos geralmente são o chapéu, o laço, que usam para aprisionar espíritos em desequilíbrio  e o chicote, que usam para dispersar energias negativas, promovendo, por vezes, cortes em magias negras com o estalido do chicote; geralmente fumam cigarro de palha ou charutos, sua bebida mais comum é cachaça com mel.

Os trabalhos da linha dos Boiadeiros são geralmente no sentido de dispersar energias deletérias, promovendo o descarrego e preparo dos médiuns, são também, assim como os Exus e Pombogiras, protetores dos médiuns. Cuidam também da disciplina dentro do terreiro. Os Boiadeiros gostam que seus aparelhos mediúnicos demonstrem coragem, lealdade e honestidade.

Sua saudação: Getruá Boiadeiro, Xetro Marrumbaxêtro.
Cor, azul escuro e amarelo; algumas casas também usam marrom ou roxo, geralmente a cor relaciona-se com os Orixás que regem o trabalho do Boiadeiro; os elementos de trabalho são o berrante, chicotes, laços, pedras, sementes olho de boi. Nomes de alguns Boiadeiros:  Boiadeiro da Jurema, Boiadeiro do Lajedo, Boiadeiro do Rio, Carreiro, Boiadeiro do Ingá, Chico da Porteira, Zé do Laço,João boiadeiro, Zé da Campina, Tião, Zé do Facão, Zé Mineiro, João da Serra, João Boiadeiro, Boiadeiro Chapéu de Couro, Boiadeiro Juremá, Zé Mineiro, Boiadeiro do Chapadão; em nosso Terreiro, manifestam-se o Boiadeiro Carreiro e o Boiadeiro João Braço Forte.

Significado de algumas expressões usadas pelos Boiadeiros (Fonte: “Arquétipos da Umbanda”, Rubens Saraceni, 2007, Madras Editora, página 110)  :

Cavalos = filhos de fé;
Boi = espírito acomodado;
Boiada = grande grupo de espíritos reunidos por eles e reconduzidos lentamente às suas sendas evolucionistas;
Laçar = recolher à força os espíritos rebelados;
Boi atolado = espírito que afundou nos lamaçais e regiões pantanosas;
Boi açoitado pelos temporais = egum caído nos domínios de Iansã e do Logunam(Tempo), onde os “temporais são inclementes”;
Açoite ou chicote = instrumento mágico de Iansã, feito de fios de crina ou de rabo de cavalo;
Laço = instrumento do Tempo (Logunam -Tempo);
Bois afogados em rios = espíritos caídos nas águas profundas das paixões humanas;
Bois arrastados pelas correntezas = espíritos arrastados pelas correntezas turbulentas da vida;
Bois que se embrenharam nas matas e se perderam = espíritos que entraram de forma errada nos domínios de Oxóssi;
Bois atolados em lamaçais = espíritos caídos nos domínios de Nanã Buruquê;
Bois perdidos nos pantanais = espíritos que abandonaram a segurança da razão e se entregaram às incertezas das emoções.

Esperamos, que esse singelo texto possa esclarecer um pouco sobre essa valorosa falange que muitas vezes trabalham nos bastidores das giras e que poucas vezes nos dão a honra de um contato mais estreito.

Getruá Boiadeiro...

Hélida de Nanã

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