Orixá Ayra
No amplo universo das divindades de origem afro-diaspórica, Ayrá figura como uma entidade de caráter enigmático e, não raro, subestimado. Orixá dos ventos fortes, dos trovões, teve seu culto aglutinado ao de Xangô, mesmo sendo específico.
Historicamente, Ayrá tem origem entre os iorubás da África Ocidental, sendo referido como um antigo rei de Ilá-Ifé, cidade sagrada da civilização iorubá. Seu culto é originário de Savé, próximo de Keto. Após sua morte, ele teria sido divinizado, tornando-se um orixá ligado ao trovão e à sabedoria. Sua divinização, como no caso de muitos orixás, se deu a partir da crença ancestral de que reis notáveis e ancestrais veneráveis tornam-se forças espirituais após a morte.
Comumente associado aos ventos raios e ao fogo, elementos que também pertencem a Xangô, orixá da justiça, há distinções importantes entre eles: Ayrá é mais velho e introspectivo - historicamente, seu culto precede o de Xangô -, é tido como portador de uma justiça serena e sábia, que se manifesta de forma silenciosa, forte e potente (que respinga nos filhos). Sua natureza é fria e contemplativa, ligado ao tempo, ao céu e à sabedoria dos antigos.
O professor e sociólogo Reginaldo Prendi, diz em uma de suas obras que Ayrá "conhece os segredos do tempo", o que o torna também um orixá das transições e das encruzilhadas espirituais, mas não do cruzamento dos caminhos físicos, como Exu, e sim das encruzilhadas internas da alma e da vida.
Orixá antigo, é descrito como pertencente à linhagem de Obatalá, Ele ultrapassa o arquétipo guerreiro e adentra o reino da ancestralidade e da criação cósmica, domínio típico dos funfun, família a qual faz parte. Iniciados e historiadores o entendem como um “orixá de fundamento/base”, que atua nos bastidores do axé, com sua presença essencial para a manutenção e equilíbrio do universo. Ayrá também representa a própria transmissão do axé original, a continuidade do tempo sagrado, a ligação entre passado e futuro, entre o humano e o divino.
Com pouco conhecimento e ferramenta de culto, esse orixá aparece de vez em pouco nas casas de axé, onde com sua energia firme e sutil, nos ensina que nem toda força é barulhenta, e há muito poder na contenção e no recolhimento estratégico. Nos lembra também que há mistérios que só se acessam com humildade, paciência e preparação, pois a sabedoria não é imediata, mas se revela a quem se compromete com o caminho e honra os antigos.
“O orixá Ayrá, como Oxalufã, não grita, não luta — ele pesa e transforma” (Prandi, 2001).
Laura de LogunEdé