Pesquisar

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Abebé de Oxum e Iemanjá

 Abebé de Oxum e Iemanjá

Embora Oxum e Iemanjá compartilhem o domínio das águas e o uso do Abebé, a essência de seus espelhos revela facetas distintas da psique humana, funcionando como portais para diferentes níveis de autoconhecimento. Enquanto Oxum rege as águas doces dos rios que serpenteiam e se adaptam, Iemanjá governa a imensidão salgada do oceano, a origem de toda a vida. Essa distinção geográfica e espiritual reflete-se na maneira como cada uma utiliza o espelho e, consequentemente, no que cada uma exige de nossa maturidade emocional.

O Abebé de Oxum é o espelho do indivíduo e da estratégia. No contexto das comunidades tradicionais, ele representa a construção do "eu" e a preservação do axé pessoal. É o espelho que reflete o detalhe, a joia, a identidade que se lapida para brilhar. Oxum utiliza o espelho para a autogestão: ela se olha para se reconhecer poderosa antes de agir. Para a nossa psique, esse espelho é o chamado para a autoestima e para a inteligência emocional; é a ferramenta que nos permite ver nossas próprias sombras para que possamos transmutá-las em luz, impedindo que o julgamento externo nos defina.


Quando o Rio Encontrou o Mar Oxum e Iemanjá – música e letra de Cae lopes |  Spotify


Por outro lado, o Abebé de Iemanjá é o espelho da coletividade e da ancestralidade. Sendo ela a "Mãe cujos filhos são peixes", seu espelho não reflete apenas um rosto, mas um oceano de histórias. Nas práticas empíricas dos terreiros, o espelho de Iemanjá está ligado ao equilíbrio da mente (o Orí) e à profundidade do inconsciente. Se o espelho de Oxum nos ensina a amar quem somos, o de Iemanjá nos ensina de onde viemos. Ele funciona como uma superfície que acalma as ondas mentais, permitindo que olhemos para as nossas raízes e para o impacto de nossas ações na família e na comunidade. É um espelho que exige responsabilidade, pois reflete não apenas o indivíduo, mas toda a linhagem que o sustenta.

Comparando essas duas ferramentas com as necessidades da vida moderna, percebemos que sofremos de uma desregulação entre esses dois espelhos. Vivemos em um olhar para si mal compreendido, focado apenas na estética e no ego, enquanto negligenciamos a profundidade de Iemanjá, que nos conectaria à empatia e ao cuidado com o coletivo. O conhecimento espiritual popular nos recorda que o equilíbrio é fundamental: é preciso o brilho de Oxum para não nos anularmos, mas é necessária a imensidão de Iemanjá para não nos tornarmos superficiais.

Aprender com esses dois instrumentos é entender que o autoconhecimento possui camadas. Às vezes, precisamos do espelho de Oxum para resgatar nossa dignidade e brilho pessoal em meio ao caos; em outras, precisamos mergulhar no espelho de Iemanjá para silenciar o ego e compreender que somos parte de um oceano muito maior. 

Renata de Iansã