Atabaques
O atabaque é um instrumento musical sagrado, amplamente utilizado em rituais de Umbanda e em diversas outras religiões de origem afro-brasileira e afro-ameríndias. Sua origem remonta à África chegando ao Brasil durante o período da Diáspora Africana. O tambor e as cantigas eram elementos essenciais de conexão com o plano espiritual. No Brasil, os atabaques são geralmente encontrados em um trio, cada um com uma função e tonalidade distintas:
Rum (grave): O maior, geralmente tocado pelo Ogã chefe ou Alabê. Sua função é conduzir os trabalhos, dar os primeiros toques, repicar e impulsionar energias.
Rumpi (médio): De tamanho mediano, responsável por dar o ritmo e manter a harmonia, sustentando a energia básica do toque.
Lé (agudo): O menor, tocado por Ogãs ou atabaqueiros iniciantes, seguindo os toques do Rumpi.
Historicamente, a confecção tradicional dos atabaques (e dos tambores Batá cubanos) era feita a partir de troncos de árvores escavados para formar uma peça única. Contudo, por questões econômicas, esse método foi, por vezes, substituído pelo uso de ripas de madeira recicladas (como barris). A comercialização de tambores religiosos chegou a ser proibida no Brasil em retaliação a revoltas, como a Revolta dos Malês em 1835.
No plano espiritual, os atabaques são um dos principais pontos de atração e distribuição de vibrações de um Terreiro. Eles acionam vibrações dos planos material e espiritual, aguçando, preparando e estimulando todos para a captação de energias. Após serem consagrados, deixam de ser meros instrumentos de percussão e tornam-se portais ou veículos para o Divino. Na África, existia o culto ao orixá Ayangalu (Ian/Ayãn), que era cultuado nos tambores e fazia a intermediação entre o chamamento do Sagrado ao profano na hora do rito, mas o culto a ele acabou se perdendo ou sendo transformado no Brasil. Contudo, a memória das obrigações e da alimentação do tambor, como qualquer Orixá, ainda existe.
A responsabilidade do Ogã/atabaqueiro é, portanto, atuar como um mensageiro entre o plano material e o espiritual, manipulando as energias básicas de sustentação, ordem e movimento através dos toques sagrados.
Representação dos elementos do atabaque
A madeira, que é regida por Xangô, tem a função de equilibrar a vibração do som e sustentar o cumprimento da justiça divina durante os trabalhos.
O ferro, que é regido por Ogum, tem a função de fortalecer o trabalho realizado no atabaque, dando garra e força ao Ogan e demais atabaqueiros, para enfrentar as dificuldades que ocorrerem durante os trabalhos, e energeticamente garantir a ordem.
O couro, que é regido por Exu, tem a função de atrair parte das energias condensadas trabalhadas dentro do congá, auxiliando na limpeza das mesmas, e quando o Ogã toca o couro do atabaque, a vibração produzida pelo toque, quebra a contraparte etérea destas energias, dissolvendo-as no astral.
Em suma, a história do atabaque é a história da fé afro-brasileira: um objeto material, vindo da África, que, uma vez consagrado e tocado por iniciados, transcende sua forma física para se tornar o ponto de convergência de forças ancestrais e divinas, onde, literalmente, o som do tambor se torna a linguagem de comunicação com os deuses. É como se o atabaque fosse um coração pulsante do terreiro: ele não apenas dita o ritmo, mas também regula a circulação de energia vital e espiritual, garantindo que o axé flua e o corpo ritual se mantenha vivo e conectado ao divino.
Thiago Cecílio de Oxóssi
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