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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Casca de coco no terreiro

 Casca de coco no terreiro

“Vovô não quer… Casca de coco no terreiro;

Porque faz lembrar… Dos tempos de cativeiro”

Cantamos muito esse ponto em nossa casa para a linha dos pretos velhos, um ponto cheio de significado e que evidencia a ancestralidade dentro da nossa religião. 

Na época da escravidão, a casca do coco era usada de várias maneiras porque era um material natural, gratuito e fácil de encontrar, permitindo que os escravizados improvisassem ferramentas e utensílios diante da extrema falta de recursos. Muitas vezes, as cascas eram amarradas aos pés como uma forma rudimentar de proteção, já que trabalhavam descalços em terrenos duros, quentes e cheios de pedras ou espinhos. Embora desconfortáveis, pesadas e abrasivas, essas cascas ajudavam a evitar ferimentos mais graves e tornaram-se símbolo de improviso forçado.

Além disso, a casca de coco era utilizada como cuia para comer e beber, para carregar pequenas quantidades de água ou comida, e até como ferramenta de trabalho, servindo como concha para escavar ou alimentar animais. Esses usos, tão ligados ao cotidiano de exploração, reforçaram sua associação com pobreza extrema, humilhação e desumanização. 

Para os escravizados, que não tinham acesso a objetos básicos como sapatos, utensílios domésticos ou instrumentos de trabalho dignos, a casca de coco representava a dureza cruel da vida no cativeiro.

Uma imagem contendo pessoa, no interior, homem, frente

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Conhecer a história dos pontos cantados é fundamental para compreender a profundidade espiritual, cultural e ancestral que sustenta cada canto dentro do terreiro. Os pontos não são apenas músicas, são vibrações e ensinamentos dos guias e a memória sagrada do povo que construiu essa religião. 

Renata de Iansã 


terça-feira, 28 de abril de 2026

Oxotocanxoxo: O caçador de uma única flecha

 Oxotocanxoxo: O caçador de uma única flecha

Em épocas de festas no reino, foi dada uma grande festa e o rei decidiu não chamar uma feiticeira temida pelo povo. Sabendo disso, a feiticeira mandou um grande pássaro enfeitiçado amaldiçoar o reino, os rios secaram, a colheita fracassou, as chuvas abandonaram a região e um período de fome se instalou para esse povo. Após os melhores caçadores fracassarem na tentativa de matar o temido pássaro, Oxotocanxoxo decidiu enfrentá-lo. No entanto, apesar desse caçador ser majestoso naquilo que fazia, diferente de outros caçadores, ele carregava uma única flecha, fazendo com que essa flecha fosse suficiente para ter sucesso em suas caçadas. E assim fez: foi ao encontro do pássaro e, com sua única flecha, o abateu, trazendo a paz e salvando o reino. Oxotocanxoxo foi nomeado Oxóssi: o caçador do povo. 

O reino de Oxóssi começa quando os caminhos desbravados por Ogum acabam, na beira do mato, na entrada para a mata virgem. Oxóssi habita a floresta, onde os ventos fazem as folhas dançarem, onde o silêncio mascarado por sons da mata ressoa, onde o tempo não tem pressa, mas tem ânsia para caçar. 

Oxóssi é cultuado como o orixá da comunidade, é aquele que traz o sustento e a fartura para sua aldeia. Ele é decidido, faz o que for preciso e não espera aplausos por isso. 



Oxóssi caminha sozinho, mora nas matas e nos pensamentos. É o orixá da exatidão, não se move por impulso, traz a força da precisão e do pensar. Oxóssi analisa o que está entre o tempo de querer e o exato momento de atirar, pois não domina a caça, ele a acerta e mata com exatidão.

Para além de um exímio caçador, Oxóssi é o silêncio que anuncia, é o olho que vê tudo à sua volta, é o senhor que toca o mundo com a leveza e a precisão.  Oxóssi é o orixá que respira enquanto a mata está furiosa, é aquele que revela o silêncio enquanto o mundo grita. 

Oxóssi não é caçador apenas de alimento para seu povo. É a energia que caça o saber, o conhecimento, o sentido oculto do universo. É o impulso para buscar o novo, para aprender sobre si e sobre o mundo. E seu conhecimento não está em belas palavras ou em oratórias elaboradas, está em ações, em gestos, no cuidar da natureza, no papear sobre a grandeza do universo, está no invisível, que só os bons olhos de um exímio caçador pode encontrar.

Oxóssi é uma energia livre que não se curva ao poder. Foi coroado Rei de Ketu por Oxum, mas nunca em seu coração, pois sabia que o peso de sentar no trono o aprisionava. Oxóssi é das matas, das florestas, das folhas e dos animais, esse é seu reino: onde pode ser livre, onde cada pisada é um risco e uma aventura. 

Oxóssi é a energia que nos ensina no silêncio. É o orixá que nos ensina que há forças que não precisam ser combativas e estrondosas, mas que também há muito o que se aprender na calma, na leveza e no silêncio. 

Seus filhos são silenciosos, analíticos, são mais adeptos à escuta do que a fala, preocupados com a família e seu sustento, pacientes, atentos, astutos, estrategistas, espontâneos, alegres, inteligentes, se interessam muito por coisas ocultas, ligados à natureza, inquietos, criativos, livres, desejam sempre buscar algo novo, discretos, carismáticos, sociáveis, normalmente são altos e magros. No negativo se isolam excessivamente, não são persistentes, pensam demais e agem de menos e acabam ficando estáticos, sofrem silenciosamente e desenvolvem um cansaço mental, bem como possuem dificuldade de pedir ajuda e são muito cabeça dura. 

Okê Arô, meu Pai Oxóssi! 

Isabela de Iansã


segunda-feira, 27 de abril de 2026

O que é a confiança?

 O que é a confiança?

Certamente um dos pontos mais complexos que podemos discutir. Para este estudo foi usado a ajuda dos guias do terreiro, como: Boiadeira, Preto velho, Caboclo 7 Flechas e outros guias que trouxeram seus posicionamentos.

A confiança nada mais é do que um sentimento próprio, sentimento esse que é aplicado e compartilhado com as outras pessoas. Por ser algo próprio temos que separar o que sentimos com a opinião dos outros. Ter confiança e ter a certeza de algo, quando se confia em um veículo, por exemplo, sabe-se que ele irá lhe locomover para onde se precisar, sem se preocupar se ele vai estragar ou apresentar uma pane. Assim também funciona para pessoas, quando se confia em alguém, é preciso entregar-se sem medo, sem receios, para que se possa viver com mais tranquilidade.



Um ponto muito importante é que quando tratamos deste assunto, não significa que devemos confiar 100% nas pessoas, pois isso seria muita ingenuidade e provavelmente você vai acabar se machucando. O que deve-se fazer é, aos poucos dando espaço para a pessoa, esse espaço vem através do merecimento, tende-se a merecer. Quando se entende isso, você percebe que a confiança é um sentimento valioso e que se perder não se conquista de novo.

Desta forma, devemos aprender a respeitar o próximo e reconhecer a confiança em nós depositada, fazer valer a pena cada palavra e cada ação, pois assim conseguiremos não somente viver mais leves, mas também valorizar o próximo.

Leonardo de Oxóssi”


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Zé Pelintra

 Zé Pelintra

    Sem sombras de dúvidas, Zé Pelintra é uma das entidades mais conhecidas da Umbanda, muito se fala e se mostra sobre essa falange espiritual. Com tantas informações, algumas acabam se misturando e se confundindo. 

Zé Pelintra é muitas vezes associado à Lapa do Rio de Janeiro, quando falamos em Zé, o malandro da Boemia sempre vem à nossa mente, porém a história deste espírito é muito mais bonita e repleta de detalhes do que a maioria das pessoas pensam. Porém Seu Zé tem suas origens no Nordeste, mais especificamente no catimbó de Jurema, Zé é um espírito do catimbó, assim ele é considerado um grande mestre juremeiro.


Dependendo das raízes, seu Zé pode ser visto como quase um ser Iluminado, um espírito superior, como se fosse um Orixá na Umbanda.

As histórias dizem que seu Zé veio ao Rio de Janeiro, buscando melhores condições de vida e  emprego. Assim, ele encontra a Lapa, se apaixona pela boemia, e assim começa as histórias de Zé Pelintra como malandro.

Independente de ser um grande mestre da jurema ou ser um grande malandro da Lapa, esse espírito é muito sábio e também muito respeitado. Saber as origens das entidades, nos proporciona muito a conhecer sua linha de trabalho e também como elas podem nos ajudar. 

Leonardo de Oxóssi ”


terça-feira, 21 de abril de 2026

Oração a Nanã

 Oração a Nanã

Salve a grande mãe da sabedoria, senhora do tempo antigo, que ensina através do silêncio e profundidade.

Não me deixe confundir zelo com controle, mãe Nanã. Que eu saiba reconhecer que o outro também tem seu tempo, seus caminhos e encantos. E que nem tudo que é bom para mim, serve para o corpo e espírito do outro.

Você, que com sua mágica, molda a vida no barro das águas paradas, sabe bem que cada ser tem seu momento de maturação. Não apressa, não força, não impõe... apenas espera e observa. Me ensine a compreender o peso doce de algumas escolhas, pois cada uma delas possui raízes que não se veem.



Nanã, que eu não me deixe tomar pela ânsia de proteger que, muitas vezes, rouba do outro a chance de errar, viver e aprender com as próprias quedas. Que na pressa de evitar a dor, eu não sufoque a liberdade. Que eu não projete no outro aquilo que não resolvi em mim, interrompendo processos que não compreendo. Me dê o discernimento necessário para perceber que o amor que damos também carrega nossas próprias sombras e nunca pararemos de trabalhar para vencê-las.

Somente com a luz da sua paciência é possível reconhecer as verdades que não queremos encarar, grande mãe. Que eu tenha a humildade necessária para aprender com a sua força. Pois ela me mostra que o tempo pode ser lento, mas é certo. Nada se perde, tudo se transforma.

Que eu entenda que a sua paciência não é passividade. Ela apenas ensina que há um tempo de aguardar e um tempo de agir. E a sua força também move a justiça que vem do fundo da terra. Pois há coisas que o tempo assenta, mas outras que só mudam quando nos colocamos de pé.

Que no mangue do meu interior, onde a lama é fértil, a vida sempre renasça de formas surpreendentes e encorajadoras, para que eu não me esqueça que somos natureza, e ela sempre se regenera!

Que a luz de sua sabedoria ilumine a minha mente e o meu coração, assim como o meu caminhar. Saluba, grande Nanã!


Camila de Iemanjá



segunda-feira, 20 de abril de 2026

O poder da vibração

 O poder da vibração

Quando se entra em um terreiro é muito comum ouvir tanto dos médiuns, quanto da própria espiritualidade, falar sobre vibração.

A vibração está intrinsecamente ligada à energia que carregamos ou recebemos, assim, é muito importante que olhemos para como estamos trabalhando ela em nosso dia a dia. Diversas recomendações são passadas para que possamos levar uma vida mais leve e possuir uma boa vibração, dentre elas podemos citar: meditações, uma boa noite de sono, uma boa alimentação, rezar, controlar sentimentos e emoções, dentre outras.

Um ponto muito importante são os lugares que frequentamos e as pessoas que convivemos, pois tudo isso influencia o nosso emocional e a nossa energia. Um trabalho conflituoso, um lar com intrigas, lugares com muitas enfermidades ou ambientes de festas e bebidas, tudo isso reflete na nossa vibração e como nos sentiremos durante nosso dia a dia. Para que isso não nos afete tão diretamente podemos acender uma vela, pedir proteção ao nosso anjo da guarda, alguns recomendam até tampar o umbigo com esparadrapo, pois o chakra umbilical é responsável pelas emoções e sentimentos absorvidos e liberados. Que quando desequilibrado traz desgaste físico e mental ao sujeito.



Todo pensamento, palavra e ação também carrega uma força muito grande, e por isso, devemos cuidar. Aquilo que vibramos e jogamos no universo é devolvido para nós, pois ele entende que é aquilo que queremos na nossa vida. Então vibre como se você já fosse sua melhor versão.Todos sabemos que não é fácil se manter positivo ou em paz 100% do tempo, parece que quanto mais nos empenhamos mais a espiritualidade nos testa para ver nosso comprometimento, então não se deixe abater quando não conseguir se equilibrar. Faz parte do processo de evolução, os dias bons e ruins.

Assim, quando uma entidade fala que é preciso cuidar da nossa vibração, ela não está somente dando um conselho para resolver uma situação em específico, mas sim ela está dando um conselho para a vida. Pois quando se possui uma energia equilibrada, as coisas ao nosso redor também começam a se resolver.

Devemos sempre lembrar que nós somos energia, as plantas são energia, a água é energia, o universo é energia. Tudo ao nosso redor tem energia e vibra, por isso quando conseguimos nos equilibrar tudo ao nosso redor segue nossa vibração.

Que possamos sempre carregar boas energias e trazer o acalanto da esperança para todos!

                                                                                                                           

Leonardo de Oxóssi


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Leis Herméticas

 Leis Herméticas

São leis que regem o universo, como na Umbanda temos os Orixás, no antigo livro “O Caibalion” existem leis que fazem com que você as siga, caso contrário sua vida não fluirá. São atribuídas a Hermes Trismegisto que viveu no antigo Egito, porém a autoria do livro O Caibalion não é de conhecimento e nem se Hermes existiu, porém essas leis fazem muito sentido no contexto da experiência de vida do ser humano.

Foi me dado pelo Caboclo Sete Flechas para serem estudadas e no final quando passei por ele para avisá-lo que já tinha estudado ele me perguntou, “qual a relação entre todas essas leis?”, confesso que já tinha estudo de várias formas como a leitura, assistido palestra da filósofa Lúcia Helena Galvão entre outras e não tinha percebido que era o “equilíbrio” todas as leis se tocam em um centro, quando vocês lerem vão entender melhor.



1ª "O Todo é Mente: o Universo é Mental." Tudo o que existe é manifestação do pensamento, e a mente é a força criadora primordial.

2ª Lei da Correspondência: "O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima." Há uma harmonia entre os diferentes planos da existência (físico, mental, espiritual)

3ª Lei da Vibração: "Nada está parado; tudo se move; tudo vibra." Tudo no universo está em constante movimento e energia, com diferentes frequências vibratórias.

4ª Lei da Polaridade: "Tudo é duplo; tudo tem dois pólos; tudo tem o seu oposto." Opostos são, na verdade, extremos da mesma coisa (ex: luz/escuridão, amor/ódio).

5ª Lei do Ritmo: "Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés." A vida oscila como um pêndulo, com fases de avanço e recuo, e o segredo é não ser levado pelos extremos.

6ª Lei de Causa e Efeito: "Toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa." Nada acontece por acaso, e somos responsáveis por nossas ações e suas consequências.

7ª Lei do Gênero: "O gênero está em tudo." O princípio masculino (ativo, criador) e feminino (receptivo, gerador) existe em todos os planos e em todos os seres.

Clodonaldo de Xangô


terça-feira, 14 de abril de 2026

Ego e Vaidade: Desafios da Postura do Médium de Umbanda Dentro e Fora do Terreiro

 Ego e Vaidade: Desafios da Postura do Médium de Umbanda Dentro e Fora do Terreiro

    Na Umbanda, o desenvolvimento mediúnico não é apenas um processo de aprendizado espiritual, mas, acima de tudo, um caminho de transformação íntima. Dentro desse percurso, o ego se apresenta como um dos principais pontos de atenção — não por ser algo negativo em si, mas por revelar onde o médium ainda precisa amadurecer. De acordo com definições clássicas, o ego pode ser entendido como a estrutura central da personalidade, responsável pela forma como o indivíduo se percebe e se posiciona no mundo. Na teoria psicanalítica, ele atua como mediador entre os impulsos do id (instintos), as exigências do superego (valores e moral) e a realidade externa, buscando equilíbrio.

    Nesse sentido, o ego é necessário. É ele que organiza o indivíduo, permite assumir responsabilidades, estabelecer limites e agir com coerência. Um ego saudável sustenta o médium emocionalmente, ajudando-o a diferenciar o que lhe pertence daquilo que vem do outro ou da espiritualidade. No entanto, quando desequilibrado, o ego tende a se inflar. Ele pode se manifestar como certeza absoluta, sensação de superioridade ou apego a um suposto conhecimento elevado. Nessa condição, o médium deixa de ouvir, de aprender e de se questionar, criando barreiras para o próprio desenvolvimento.

    No contexto mediúnico, isso pode gerar diversos impactos. Um deles é o bloqueio na incorporação, pois o excesso de controle e autoconfiança cria uma resistência energética que dificulta a sintonia com os guias espirituais. Outro efeito é a mistificação, quando o médium, muitas vezes sem perceber, passa a interferir na manifestação para atender expectativas pessoais.Também surge a falsa sensação de preparo. O médium acredita que já sabe o suficiente e, com isso, afasta-se do estudo, da disciplina e das orientações do dirigente. Esse comportamento interrompe o crescimento e compromete a qualidade do trabalho espiritual.

    No convívio dentro do terreiro, o ego se manifesta ainda por meio da comparação, do julgamento e da necessidade de destaque. Aparecem atitudes como competição entre médiuns, resistência a correções e até a sensação de “posse” sobre funções ou atividades espirituais.Os sinais de um ego inflado são sutis, mas perceptíveis: necessidade constante de reconhecimento, dificuldade em aceitar orientações, sentimento de superioridade e foco excessivo em si mesmo. Esses aspectos indicam um afastamento da essência do trabalho espiritual.

    É importante compreender que os guias não abandonam o médium por causa do ego. Pelo contrário, utilizam essas situações como ferramentas de aprendizado. Muitas vezes, diminuem sua atuação ou permitem que o médium enfrente dificuldades, não como punição, mas como forma de ensino e ajuste. Diante disso, o grande desafio é cultivar um ego estruturado, porém equilibrado. Um ego que sustente o trabalho mediúnico com responsabilidade, humildade e consciência, sem se colocar como protagonista. Afinal, na Umbanda, o verdadeiro protagonismo pertence à espiritualidade.

    A prática da auto-observação é fundamental nesse processo. Reconhecer pensamentos, sentimentos e reações permite identificar quando o ego está se manifestando de forma desequilibrada. Aceitar correções, manter a disciplina e permanecer aberto ao aprendizado são atitudes essenciais para um desenvolvimento saudável. Situações em que nos sentimos injustiçados, desvalorizados ou incompreendidos muitas vezes revelam feridas do ego que ainda precisam ser trabalhadas. Fingir que esses sentimentos não existem não os elimina. Pelo contrário, quando ignorados, tendem a crescer de forma silenciosa. O caminho mais adequado é observá-los com sinceridade, compreendê-los e lidar com eles de forma consciente.

    A vaidade, por sua vez, está diretamente ligada ao ego, mas possui características próprias. Ela pode ser entendida como o desejo excessivo de reconhecimento, admiração ou validação. Está associada ao que é ilusório, instável e pouco duradouro. No contexto mediúnico, a vaidade se manifesta quando o médium passa a buscar destaque, elogios ou uma posição de importância dentro do terreiro. Ainda que de forma sutil, esse comportamento desvia o foco do verdadeiro propósito da mediunidade, que é o serviço ao próximo. A vaidade pode se expressar de diversas maneiras: na necessidade de ser reconhecido como “mais preparado”, na comparação com outros médiuns, no desejo de chamar atenção durante as incorporações ou até na forma de se posicionar dentro da gira.

    Um ponto importante é que a vaidade não aparece apenas quando alguém se sente melhor que os outros. Ela também se manifesta quando o indivíduo acredita que sofre mais, que faz mais, que se dedica mais ou que é mais testado. Em ambos os casos, há um excesso de foco no “eu”. Esse comportamento enfraquece o senso coletivo e compromete a harmonia do trabalho espiritual. Quando o “eu” se sobrepõe ao “nós”, a egrégora se fragiliza.

    Além disso, a vaidade pode gerar desequilíbrios energéticos. A falta de humildade dificulta a sintonia com a espiritualidade superior, abrindo espaço para influências negativas que se alimentam dessas fragilidades. Outro aspecto relevante é a forma como a vaidade interfere até mesmo nas intenções do médium. Durante os trabalhos espirituais, pensamentos individualistas — como pedir apenas para si — podem impactar a energia do ambiente. O equilíbrio está em reconhecer as próprias necessidades sem perder a consciência do coletivo.

    É fundamental diferenciar amor-próprio de egoísmo. Cuidar de si é necessário, mas isso não deve excluir o cuidado com o outro. A espiritualidade está disponível para todos, e cada indivíduo recebe de acordo com seu momento e suas necessidades de aprendizado. Assim como o ego, a vaidade não deve ser negada, mas compreendida. Ela revela pontos de apego, insegurança e necessidade de validação. Ao ser reconhecida, pode ser transformada. O caminho para isso envolve vigilância constante sobre pensamentos e atitudes, alinhamento entre o que se pensa, sente e fala, além do compromisso com a verdade interior.

    No desenvolvimento mediúnico, a simplicidade é um dos maiores sinais de equilíbrio. Quanto maior a necessidade de reconhecimento, maior a distância do propósito espiritual. Por outro lado, quanto mais o médium se esvazia de si mesmo, mais a espiritualidade encontra espaço para atuar.O desenvolvimento mediúnico acontece dentro do terreiro, mas se estende por toda a vida do médium, assim como seus efeitos e desafios. O ego e a vaidade acompanham diariamente o indivíduo em suas relações, decisões e interpretações da realidade, e também se manifestam durante a gira e os trabalhos espirituais realizados dentro ou fora do terreiro.

    A mediunidade não é uma prática isolada, mas sim uma extensão da própria consciência. O médium mantém sua condição espiritual ao entrar e sair do terreiro. Ele não possui um controle para ligar e desligar sua mediunidade quando deseja, e sua forma de pensar, sentir e agir no dia a dia interfere diretamente em sua sintonia com o mundo espiritual.

    No ambiente profissional, uma forma corriqueira de manifestação do ego é a constante necessidade de reconhecimento, a dificuldade de receber críticas e a sensação de injustiça quando o indivíduo pensa que não recebe a devida valorização pelo trabalho que executa. No relacionamento afetivo, o ego pode aparecer quando a pessoa sente que recebe menos do que oferece, deseja controlar a relação e tem dificuldade para ceder. Na vida familiar e social, o ego surge nas comparações, na necessidade de impor pensamentos e ideias, na crença de que sempre tem razão e no julgamento do outro. Esse excesso de identificação com o “eu” na vida cotidiana dificulta a conexão com a espiritualidade, da mesma maneira que ocorre dentro do terreiro.

    Já a vaidade não se satisfaz somente com a busca por elogios e reconhecimento dentro do terreiro; ela vai além quando o indivíduo busca aprovação social, constrói uma imagem idealizada de si mesmo e necessita de uma constante validação do outro. O médium deve levar os aprendizados adquiridos dentro do terreiro para sua vida social. Porém, muitas vezes, pode não perceber que está repetindo fora os mesmos padrões que acredita combater internamente.

    Os comportamentos movidos pelo ego e pela vaidade impactam diretamente no desenvolvimento mediúnico. Um médium que, em sua vida cotidiana, alimenta conflitos internos, possui uma imagem inflada de si mesmo, necessita manter o controle das situações, tem sentimento de superioridade e busca incessantemente a admiração do outro, pode carregar essas mesmas vibrações para o terreiro. Dessa forma, a sintonia do médium se torna instável e, onde há desequilíbrio, a percepção se confunde e a conexão com os guias se torna mais difícil.

    Em contrapartida, o médium que utiliza as situações vivenciadas em seu cotidiano como oportunidades de autoconhecimento fortalece seu equilíbrio emocional e sua mediunidade. Cada dificuldade e desafio enfrentado fora do terreiro — seja uma frustração, um conflito ou uma crítica — pode se tornar um exercício de humildade, escuta e consciência.

    Sendo assim, a vida cotidiana é um verdadeiro campo de treinamento espiritual. É nas relações familiares, sociais e profissionais que o médium tem a oportunidade de desenvolver paciência e humildade, aprender a lidar com suas emoções, reconhecer suas limitações e trabalhar suas tendências egoicas e vaidosas.

    Para que aconteça um desenvolvimento mediúnico consistente, é necessário que haja conexão entre o que se vive dentro e fora do terreiro. A postura que o médium mantém durante a gira precisa ser sustentada em seu cotidiano, não como perfeição, mas como prática constante de consciência. A busca pela evolução espiritual é importante, mas o médium precisa, mais do que isso, assumir a responsabilidade pelo seu próprio comportamento em todas as áreas de sua vida. Só assim acontece o verdadeiro crescimento, quando o espiritual e o humano são integrados.

    Dessa forma, o ego e a vaidade não serão inimigos a serem eliminados, nem obstáculos para o crescimento e desenvolvimento pessoal e espiritual, mas sim indicadores do que ainda precisa ser compreendido e equilibrado, porque eles mostram, com clareza, onde há apego, insegurança ou necessidade de reconhecimento. Quando o médium consegue olhar para dentro de si mesmo de forma honesta e constante, reconhecendo o que precisa ser modificado, ele encontra a possibilidade real de evolução. Reconhecer as próprias sombras é um passo essencial para permitir que a espiritualidade conduza o caminho com mais clareza.

    Servir sem se colocar acima, trabalhar sem buscar reconhecimento e manter a humildade são pilares fundamentais para uma caminhada mediúnica verdadeira.

Marina de Nanã e Adriana de Oxum

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Iansã e Logunan: O movimento que transforma a vida

 Iansã e Logunan: O movimento que transforma a vida

Iansã e Logunan atuam juntas como duas forças diferentes que conduzem o movimento da vida, mas de maneiras complementares. Iansã é o movimento externo, visível e intenso o vento que muda situações, encerra ciclos de forma rápida, traz acontecimentos, decisões e viradas inesperadas. Já Logunan é o movimento interno, silencioso o tempo que amadurece, organiza, cura por dentro e coloca cada coisa no momento certo. Quando as duas energias atuam juntas, acontece algo profundo, pois Iansã provoca a mudança, e Logunan sustenta e dá sentido a ela.

Iansã tira a pessoa de onde não pode mais ficar. Ela corta, rompe, sacode estruturas e traz coragem para agir. Depois da tempestade, é Logunan quem entra, acalmando, reorganizando emoções, ajudando a compreender o que aconteceu e transformando a dor em aprendizado. Uma movimenta os caminhos; a outra movimenta a consciência. É como se, diante de uma situação que já não faz bem, Iansã trouxesse a coragem para decidir, falar, sair, mudar de direção. Ela é a atitude, o impulso necessário para romper o que aprisiona.



Em seguida, Logunan age no tempo do coração e da mente. Ela ajuda a pessoa a entender a experiência, a aceitar o que passou e a crescer com isso. É o processo de cura, reflexão e amadurecimento que vem depois da decisão. 

Juntas, elas mostram que a vida não se transforma só com ação, nem só com espera. Primeiro vem o movimento que tira do lugar; depois vem o tempo que organiza o que foi vivido. Iansã abre caminhos que pareciam fechados. Logunan fortalece por dentro para que a pessoa consiga caminhar por eles com equilíbrio.

Assim, as mudanças não acontecem por impulso vazio, mas com propósito. O que Iansã move, Logunan consolida. O que Iansã inicia, Logunan desenvolve. É dessa união que nasce um crescimento verdadeiro, mudança por fora, entendimento por dentro, e evolução acontecendo no ritmo certo da vida. 

Tauhane de Oxum


quinta-feira, 9 de abril de 2026

O que é o amor?

 O que é o amor?

A definição de amor é complexa e pode variar de pessoa para pessoa, por exemplo: Algumas pessoas gostam de correr, sendo assim elas amam o seu esporte. Outras por sua vez gostam de ficar mais reservadas e em silêncio, assim elas amam seu momento de paz. Ou seja, o amor é um sentimento individual, algo quase que indecifrável. 


O amor é algo que muda as pessoas, transforma pensamentos, faz coisas inimagináveis por simplesmente sentir. O amor é algo puro e sincero, algo que se sente e se vive, não existe nenhum sentimento melhor do que amar e se sentir amado. A confiança, a paciência e o amor são coisas importantes para a sociedade em geral. As pessoas buscam incessantemente o amor, seja ele próprio ou de terceiros, e isso não está errado. 

O que deve ser observado é como isso está sendo feito, de que maneira está sendo feito, para que você não se machuque e nem machuque as outras pessoas.

O amor pode ser de várias maneiras, pode ser próprio, casais, de emprego, de sonhos, de animais e entre outros. O amor não tem outra finalidade a não ser a de existir. As pessoas sentem uma necessidade gigantesca de se amar e amarem.

Devemos estudar sobre esse sentimento e compreender como ele age em nossas vidas, pois quando sabemos disto, conseguimos equilibrar nosso lado sentimental.

Leonardo de Oxóssi”



terça-feira, 7 de abril de 2026

Leis

 Leis

As leis que regem o universo sempre foram objeto de reflexão em diversas tradições espirituais. Entre essas tradições, os ensinamentos do O Caibalion, inspirados na sabedoria atribuída a Hermes Trismegisto, apresentam sete princípios universais conhecidos como leis herméticas. Esses princípios descrevem a forma como a realidade se organiza, revelando que tudo no universo está submetido a uma ordem divina. Embora não façam parte oficialmente da doutrina da Umbanda, muitos desses conceitos encontram paralelos profundos com a compreensão das leis divinas presentes na prática e na filosofia umbandista.

Na Umbanda, acredita-se que o universo é regido por uma inteligência suprema, manifestada por Deus, muitas vezes chamado de Zambi ou Olorum. Essa compreensão se aproxima do Princípio do Mentalismo, que ensina que tudo o que existe tem origem em uma mente universal. Assim, o mundo material e o espiritual não são separados, mas expressões de uma mesma consciência criadora. Na vivência umbandista, esse entendimento se manifesta na fé de que todas as coisas estão sob a orientação divina e que os espíritos trabalham dentro de uma ordem cósmica estabelecida por Deus.



Outro princípio hermético fundamental é o da Correspondência, resumido pela máxima “o que está em cima é como o que está embaixo”. Na Umbanda, essa ideia se reflete na relação entre o plano espiritual e o plano material. Os terreiros são vistos como pontos de ligação entre esses planos, onde os guias espirituais — pretos-velhos, caboclos, crianças e outros trabalhadores da luz — atuam para orientar, curar e equilibrar os encarnados. Dessa forma, compreende-se que aquilo que ocorre no campo espiritual pode influenciar diretamente a vida material das pessoas.

A Lei da Vibração também encontra forte correspondência na prática umbandista. Segundo esse princípio, tudo no universo está em constante movimento e possui uma frequência energética própria. Na Umbanda, essa vibração é percebida nas forças da natureza, nos Orixás, nas ervas sagradas, nos pontos cantados e nos rituais realizados nos terreiros. Cada elemento possui uma energia específica capaz de harmonizar o campo espiritual e emocional do indivíduo. Por isso, os rituais e trabalhos espirituais buscam sempre elevar a vibração do ambiente e das pessoas presentes.

Outro ponto de grande proximidade entre o hermetismo e a Umbanda é a Lei de Causa e Efeito, que afirma que toda ação gera uma consequência. Na visão espiritualista, essa lei representa a justiça divina que regula a evolução do espírito. Na Umbanda, entende-se que cada pensamento, palavra e atitude produz reflexos energéticos que retornam ao próprio indivíduo. Essa compreensão incentiva a prática da caridade, da humildade e do respeito ao próximo, pois a evolução espiritual acontece por meio das escolhas e atitudes que cada pessoa toma ao longo da vida.

Além disso, o Princípio do Ritmo pode ser relacionado aos ciclos naturais de aprendizado espiritual. A Umbanda ensina que cada espírito passa por experiências, provas e oportunidades de crescimento ao longo de sua jornada. Assim como a natureza possui ciclos de nascimento, crescimento e renovação, o espírito também percorre caminhos de aprendizado que fazem parte de sua evolução.

Dessa forma, as leis herméticas e as leis divinas compreendidas dentro da Umbanda apontam para uma mesma verdade espiritual: o universo é regido por princípios de equilíbrio, justiça e harmonia. Nada acontece por acaso, e cada experiência vivida contribui para o desenvolvimento da consciência espiritual. A prática da Umbanda, baseada na caridade, na mediunidade e na conexão com as forças da natureza, busca justamente alinhar o ser humano com essas leis universais, permitindo que ele evolua em sabedoria, amor e responsabilidade espiritual.

Rebeca de Ossain


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Iemanjá e seus filhos

 Iemanjá e seus filhos

Carregando o símbolo de grande mãe, Iemanjá é cultuada na praia. O oceano por si só carrega uma representação de vida muito grande, devido à sua diversidade de espécies que não se encontra em nenhum outro lugar; mas, ao mesmo tempo, representa renascimento e transformação, afinal, muitos foram os que morreram em suas águas e ali ficaram, ou utilizaram o mar como rota para diversos lugares. E, sendo o oceano o lugar menos explorado do planeta, nós sabemos muito pouco sobre ele e o que se tem em suas profundezas. Sendo assim, Iemanjá também carrega em si esse grande mistério, as incertezas daquilo que não sabemos ou que não queremos enfrentar.

Em suas imagens, é comum Iemanjá ser representada como uma figura feminina de seios fartos, representando aquela que nutre, aquela que entrega para todos que ama aquilo que tem, que dá tudo de si, todo o seu amor, seu alimento e sua sabedoria. Um símbolo disso é o Itan (uma lenda do povo africano) que conta quando Nanã Buruquê abandona Omolu, seu filho, na beira da praia, por ele possuir muitas chagas. Iemanjá então o acolhe e o cria como se fosse seu. Isso mostra a enorme capacidade de doação e disponibilidade deste orixá e de quem a carrega em sua coroa. 

A capacidade de amar e acolher mesmo que aquela pessoa não seja de sua linhagem, de sua família, não faça parte “dos seus”. Um amor que não se importa com o que a pessoa carrega, pois vai além. Esse Itan também nos mostra um segundo lado: a atuação de Iemanjá na transformação do ser. O mar cura, purifica, retira. Omolu renasce em suas águas, pois tem força que só se mostra quando se acolhe o que dói. O mar leva, mas também traz. É preciso coragem para entregar a ele o que precisa ir, e mais coragem ainda para abraçar o retorno que vai nos transformar.

Como a grande mãe, Iemanjá também vai trazer consigo essa natureza da educação e da hierarquia. A mãe que dá, mas também cobra. Para educar é preciso ensinar, impor limites, regras. Os filhos de Iemanjá sabem fazer isso muito bem. Às vezes não para si, pois pecam no cuidado consigo mesmo, mas sabem guiar e aconselhar os outros. O que ocorre, por vezes, é que nesta natureza de querer impor as coisas, os filhos desta mãe se perdem em sua necessidade de controle. Querem controlar pessoas e situações, possuindo muita dificuldade de lidar com aquilo que foge de seus domínios.


Quais são as características dos filhos de Iemanjá?


Sendo o mar um mistério da noite, que carrega o mistério da lua, Iemanjá irá atuar fortemente na intuição, passando isso para seus filhos. A lua sendo um grande símbolo deste orixá, é importante pensar que esta controla as marés e também rege as nossas emoções. E, assim como as marés estão em movimento constante, movimento este que vai e volta, não seguindo uma única direção, também é normal que os filhos de Iemanjá sigam o mesmo princípio em suas emoções, podendo estas ser instáveis e ocorrer oscilações de humor. Fato este que faz parte da sua essência, mas que deve ser trabalhado. 

O oceano é ponto de conexão entre povos e nações. É lugar de partidas e reencontros. É força em abundância na Terra. Tudo isso é Iemanjá. Outro ponto importante é o fato de que quando olhamos para o mar, vemos apenas sua superfície, não conseguindo ver o fundo. Isso também mostra como a força de Iemanjá atua internamente, do que externamente. Ela irá trazer à tona o seu íntimo, pois toda mudança começa de dentro.

Por fim, sempre que entendemos a natureza de um orixá, conseguimos compreender também a natureza de seus filhos (aqueles que trazem aquela força em sua coroa), pois estes herdam aquele elemento que o orixá carrega. Quando falamos em Iemanjá, tendo como seu elemento a água, é natural que seus filhos sejam pessoas aquáticas. Ou seja, o emocional atua muito fortemente nestas pessoas, visto que o campo das emoções é de atuação de Iemanjá. É alguém que tende a carregar uma sensibilidade e uma doçura no cuidado e na forma de amar. 

Ter este orixá em sua coroa significa que uma das suas missões nessa vida é aprender a gerir suas relações. Encontrar o equilíbrio entre dar e receber. Iemanjá mexe com os impulsos e seus filhos têm uma tendência a olhar para as situações com um olhar de compaixão, porém, é preciso entender a natureza dos problemas e ter sabedoria para abraçar somente o necessário, sendo o desapego o maior desafio para estas pessoas. É comum que estas pessoas estejam ligadas a causas sociais e tenham uma vida espiritual presente desde cedo, pois possuem o ímpeto de cuidar. São extremamente leais (e cobram que os outros também sejam), pessoas fortes, resilientes e costumam ter muita fé, com essa guiando suas vidas. 

Que Iemanjá seja a nossa direção quando estivermos perdidos, seja o colo para nos amparar quando tudo parecer pesado, e que a luz do seu amor nos mantenha protegidos! Odoyá.

Camila de Iemanjá


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Erva Guiné: usos espirituais e medicinais

 Erva Guiné: usos espirituais e medicinais

A guiné (Petiveria alliacea) é uma planta de origem brasileira amplamente utilizada na Umbanda e na medicina popular. No campo espiritual, é considerada uma erva de proteção e limpeza energética, muito presente em banhos de descarrego, defumações e preceitos. Sua vibração firme, associada à força dos caboclos, contribui para o equilíbrio emocional, a purificação do ambiente e o fortalecimento da espiritualidade.


GUINÉ E SEUS PODERES – Mukani Shop Blog


Do ponto de vista medicinal, a guiné apresenta propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e antimicrobianas. É empregada tradicionalmente no alívio de dores musculares, dores de cabeça, reumatismo e problemas respiratórios, além de estimular a circulação sanguínea e fortalecer o sistema imunológico. Pode ser usada na forma de chá, banho ou compressa, sempre com orientação adequada, pois se trata de uma planta tóxica. Seu uso é contraindicado para gestantes, crianças e pessoas sensíveis à erva.

A guiné une saberes ancestrais e conhecimento popular, representando equilíbrio entre o corpo físico e o espiritual. Uma erva que traz um verdadeiro símbolo de cura e proteção.

Bruna de Obá


terça-feira, 31 de março de 2026

Estrela de Davi nos pontos riscados

 Estrela de Davi nos pontos riscados

A história da Estrela de Davi, conhecida no hebraico como Magen David ou Escudo de Davi, é uma narrativa que atravessa milênios e diversas civilizações antes de se consolidar como o principal símbolo da identidade judaica e um pilar esotérico na Umbanda. Embora a tradição a conecte ao rei bíblico de Israel, não existem registros arqueológicos de que Davi a utilizasse no século X a.C.; na verdade, o hexagrama, uma figura geométrica de seis pontas formada por dois triângulos sobreposto, era um motivo decorativo comum em culturas antigas tão distintas quanto a indiana, onde é chamado de Shatkona, a egípcia e a mesopotâmica. Em sinagogas da Antiguidade, o símbolo aparecia ocasionalmente, mas dividia o protagonismo com a Menorá, o candelabro de sete braços, que era o verdadeiro emblema distintivo do povo hebreu naquela época.

A associação mística e o nome "Escudo de Davi" ganharam força durante a Idade Média, especialmente dentro da Cabala e de tratados de magia. Nesse período, o símbolo passou a ser visto como um poderoso talismã de proteção, alimentado por lendas que afirmavam que o exército do Rei Davi portava escudos com esse formato para garantir invencibilidade. Paralelamente, no mundo ocultista, o hexagrama ficou conhecido como "Selo de Salomão", representando o domínio espiritual sobre os elementos e a união dos opostos, como o fogo e a água ou o masculino e o feminino. Foi somente a partir do século XVII, em Praga, que a estrela começou a ser adotada oficialmente como um símbolo comunitário judaico, ganhando contornos políticos e identitários no século XIX com o movimento sionista, que buscava um emblema que representasse os judeus de forma análoga ao que a cruz representava para os cristãos.

Atualmente, a Estrela de Davi é frequentemente utilizada em múltiplos contextos: nas sinagogas e na diplomacia como marca nacional; na joalheria e na cultura popular como amuleto de proteção e boa sorte, na Alta Magia e na Umbanda como um símbolo de equilíbrio hermético. No terreiro, ela é essencial para assentar energias, representando o axioma de que o que está em cima é como o que está embaixo, servindo como um portal que harmoniza as forças dos Orixás com a vida terrena dos fiéis.

Estrela de David judaica seis pontas de estrelas em preto com o ícone de  vetor de estilo de bloqueio 552643 Vetor no Vecteezy

A presença da Estrela de Davi, ou hexagrama, nos pontos riscados da Umbanda constitui um dos exemplos mais profundos do sincretismo e da complexidade esotérica que definem esta religião brasileira. Longe de ser uma mera apropriação estética, o símbolo é utilizado como uma ferramenta de escrita sagrada, funcionando como um mapa geométrico que traduz leis universais para o plano material através do uso da pemba.

Dentro da umbanda, a estrela representa a união entre o plano espiritual e o plano físico. O triângulo com o vértice voltado para cima simboliza a ascensão da alma, a busca humana pelo divino e a força do elemento fogo, enquanto o triângulo com o vértice para baixo representa a descida da luz divina, a manifestação dos Orixás na matéria e o elemento água. Esse encontro de direções opostas sinaliza que, naquele momento ritualístico, o terreiro se torna um ponto de equilíbrio.

Além da simbologia geométrica, a Estrela de Davi no ponto riscado assume uma função prática de regência e organização de forças. Em muitas doutrinas, as seis pontas da estrela são associadas a diferentes vibrações de Orixás, enquanto o centro do símbolo, o hexágono central, é reservado à irradiação de Oxalá, que atua como o eixo pacificador e unificador de todas as outras energias. O hexagrama atua como um verdadeiro escudo de proteção capaz de blindar o ambiente contra investidas de energias densas e espíritos desequilibrados, funcionando também como um condensador de força espiritual para trabalhos de cura e limpeza.

Em suma, a Estrela de Davi na Umbanda é uma assinatura de autoridade espiritual. Ela demonstra que a entidade que risca o ponto possui domínio sobre as leis do equilíbrio universal e utiliza essa sabedoria para manter a ordem e a proteção durante os rituais. Através deste símbolo, a religião reafirma sua identidade integradora, que une conhecimentos do ocultismo ocidental e tradições milenares para estabelecer um canal direto de comunicação com o sagrado.

Renata de Iansã