Uma visão espiritualista sobre a pandemia
Nesse
ano de 2020 temos passado por sérias dificuldades relativas ao avanço do
coronavírus, limitações de confraternizações, um medo constante de ter a sua saúde e a de pessoas próximas afetada,
medo de perder entes queridos(principalmente idosos e de outros grupos de
risco), limitações para trabalhar, muitos perdendo o emprego e muitos não
conseguindo cumprir os compromissos e dívidas adquiridas em outra realidade e
com outra expectativa de futuro. Apesar de normalmente só enxergarmos esta
faceta desse momento, tem sim, vários outros aspectos a serem analisados e
aproveitados quando olhamos para tudo isso com um olhar espiritualista. Como
veremos, assim como em outras grandes crises e guerras, onde sempre se tiram
lições valiosas e sempre se tem algum tipo de avanço, o coronavírus é também
uma oportunidade.
Em
primeiro lugar, é uma oportunidade de refletir em tudo que está errado na
humanidade, sobretudo, quanto a exploração de nossos recursos naturais. Em um
curto período em que o bicho homem parou suas atividades fabris e recreativas,
a natureza agradeceu muito. Águas límpidas como há muito não se via, grandes
centros industriais com um ar puro contrastando com a realidade anterior,
são apenas alguns exemplos disso. Sei que quando falamos disso parece
hipocrisia e na verdade é.
Todos querem proteger o meio ambiente, mas
praticamente ninguém quer renunciar a suas facilidades para que isso seja
possível. Nos acostumamos a viver de tal forma, com tamanhos excessos e
desperdícios, que se torna muito difícil de enxergar uma saída. Somos
estimulados ao consumismo, onde trabalhamos muito para comprar coisas que não
precisamos. É verdade que isso gera empregos, mas enquanto o ser humano não se
adaptar para viver harmonicamente com os outros seres, a conta vai chegar. E
tem chegado a prestações, com inúmeros desastres naturais, dos quais essa
pandemia é apenas um.
No entanto isso não nos impede de fazer uma reflexão e de
tentar fazer um trabalho de formiguinha, a cada dia melhorando um hábito,
adotando novas rotinas e escolhendo melhor o que consumir. Parece conversa de
ecologista, mas são apenas fatos. O resto da natureza não foi feita para o
homem abusar a seu bel-prazer. Nós umbandistas sabemos mais do que ninguém o
sagrado que habita em cada elemento da natureza. Poderíamos refletir muito mais
sobre isso mas não é o propósito do texto.

Esse momento pode ser também precioso para o
desenvolvimento pessoal, na correria do dia-a-dia as pessoas não têm tempo para
organizar as ideias, para pensar para onde querem ir e para onde estão indo,
normalmente só vamos, sem pensar nos ajustes de percurso necessários para
alcançar nossos objetivos. Com esse isolamento, estamos sendo forçados a buscar
as respostas mais dentro de nós mesmos, avaliando possibilidades e soluções,
tendo ideias, com toda a certeza seremos outras pessoas quando tudo se
normalizar, ou pelo menos deveríamos ser. Pessoas que estavam com dificuldades
de se fixar em um emprego, por exemplo, estão tendo um tempo para se preparar
para o momento em que tudo voltará ao normal. Sabemos que o preparo não é só de
cursos e qualificação profissional (que estão ocorrendo online) mas também em
uma mudança de atitude, de uma leitura sóbria dos passos errados do passado e da
tentativa sincera de ser melhor.
A
pandemia também serviu para liberar o que as pessoas têm dentro de si, muitos demonstram
compaixão nesse momento em que o outro está com dificuldades. Pessoas tem
entregado cobertores e alimento a quem necessita,em plena pandemia, expondo sua
saúde a contrair o vírus. Aqueles que tem dinheiro para receber de alguém que
devido a situação não poderá honrar a dívida, está tendo que compreender... E
muitos tem compreendido e sido caridosos. E que aquele que deve e teve sua dívida
congelada, está tendo também a chance de congelar a de quem o deve, assim como
na oração do pai nosso: “Perdoai nossas ofensas(dividas), assim como nós
perdoamos a quem nos tem ofendido (devido)”.
Por outro lado, a pandemia tem
também aflorado todo o ódio e egoísmo do coração dos que os tem. Os poderosos
legisladores e líderes de governo, com a desculpa de cobrir os gastos da
pandemia, tem aprovado cortes de direitos do trabalhador pobre e classe média
baixa. Enquanto para os poderosos do legislativo, do judiciário, para os ricos
e também para os líderes do executivo nada tem sido perdido, inclusive, eles
têm tido aumentos reais e significativos. Ou seja, cortam na carne do pobre
para garantir seus privilégios. São as doenças do Brasil, um país rico que é
saqueado pelo próprio brasileiro há séculos. Com certeza tudo isso também tem
um propósito, o aumento desses abusos talvez possa ser, lá na frente, o início do
estopim para que o trabalhador exija mudanças. Mais uma vez vamos encerrar por
aqui para não fugir ao tema.
Nesse
texto tentamos mostrar a pandemia além do que estamos acostumados, sobre o que
se pode tirar de positivo em um momento tão difícil, o que ela tem despertado
nas pessoas. Falamos também dos aspectos ambientais e políticos que podem parecer
que fogem do aspecto espiritual, mas que na verdade também se relacionam.
Ressalto que essa é apenas uma leitura do cenário por um espiritualista, longe
de ser uma verdade absoluta. Qual é a sua opinião? Aguardamos seus
comentários.
Axé
Ricardo
de Ogum Matinata