Exu Arranca Toco
Certa vez, o Exu Arranca Toco me contou como passou a trabalhar na falange de Arranca Toco. Para compreender sua história, é preciso primeiro entender a missão dessa linha de trabalho. Os Exus Arranca Toco atuam sobre tudo aquilo que se encontra enraizado na vida das pessoas, sejam dores, vícios, traumas, obsessões, padrões de comportamento ou situações que impedem seu crescimento espiritual material. Seu trabalho é encontrar a origem do problema e arrancá-lo pela raiz.
Durante nossa conversa, ele me perguntou se eu já tinha visto alguém arrancar o toco de uma árvore. Respondi que sim e que era um trabalho difícil, pois não bastava cortar o tronco; era necessário retirar as raízes que permaneciam presas à terra. Então ele me explicou que sua missão era exatamente essa: ajudar a remover aquilo que mantém os filhos presos ao sofrimento, impedindo-os de seguir adiante.
Em sua última encarnação, segundo me contou, foi uma pessoa de temperamento difícil e acabou atraindo muitos inimigos. Sua vida terminou de forma violenta, sendo assassinado e enterrado em uma mata fechada, próximo ao toco de uma árvore. Por muito tempo, permaneceu ligado à dor daquela experiência, preso às lembranças, às mágoas e aos sentimentos que ainda o mantinham conectado ao passado.
Foram necessários muitos anos de aprendizado e transformação para que pudesse se libertar dessas correntes invisíveis. Quando finalmente aceitou o amparo da espiritualidade, encontrou uma nova oportunidade através do trabalho na caridade. Foi então que passou a integrar a falange dos Arranca Toco, transformando a própria experiência de sofrimento em instrumento de auxílio para aqueles que também precisam se libertar de suas dores.
Desde então, trabalha auxiliando aqueles que buscam orientação e fortalecimento. Seu olhar sempre me chamou a atenção. Quando o questionei sobre isso, ele me explicou que os olhos de um Exu não se prendem às aparências. Eles enxergam além das máscaras, alcançando aquilo que muitas vezes tentamos esconder dos outros e até de nós mesmos. Ele vê os medos, os conflitos e as raízes dos problemas que carregamos em silêncio, trazendo à luz aquilo que precisa ser trabalhado e transformado.
Seu trabalho carrega a força das matas e dos caminhos. Por isso, em sua atuação estão presentes as energias de Oxóssi e Ogum. De Oxóssi vem a sabedoria para identificar a raiz do problema, a paciência do caçador e o conhecimento daquilo que está oculto. De Ogum vem a coragem, a firmeza e a força necessária para cortar as demandas e remover os obstáculos que impedem o avanço daqueles que buscam auxílio.
Ao longo da minha caminhada, ele se tornou uma presença muito importante em minha vida. Como sua incorporação não acontece com frequência, ensinou-me algo que considero um dos seus maiores ensinamentos: a importância da conexão através da fé e do pensamento. Aprendi que não é necessário esperar uma manifestação física para conversar com os guias. Sempre que surge uma dúvida, uma angústia ou uma decisão importante, recorro a ele em pensamento, e essa conexão fortalece minha confiança na espiritualidade.
Foi também com ele que aprendi que nenhum guia resolve sozinho os problemas de alguém. Os guias nos oferecem amparo, direção e confiança, mas cada pessoa precisa encontrar dentro de si a coragem para dar os próprios passos. Muitas vezes esperamos soluções prontas, quando, na verdade, o maior trabalho é nosso. O guia aponta o caminho, sustenta e fortalece, mas a caminhada continua sendo responsabilidade de cada um.
Esse é o Exu Arranca-Toco que conheço: uma entidade firme e acolhedora, cuja história de superação se transformou em missão. Através de seus ensinamentos, compreendo diariamente que muitas das raízes que nos aprisionam precisam ser arrancadas por nós mesmos.
Eu sou pequenininho, de mim não faça pouco, olha lá ele é Exu, Exu Arranca Toco
Eu sou pequenininho, ninguém tem nada com isso, tem gente que é grande e não dá conta do serviço.
Laroyê, meu padrinho.
Jéssica de Obaluaê
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