Os Orixás e os caminhos da vida
Os ensinamentos reunidos neste texto surgiram a partir das orientações do guia-chefe de nossa casa, o Sr. Caboclo Sete Flechas, quando perguntei sobre os Orixás cultuados na casa, dentro da Umbanda de Jurema, e sobre as correlações entre essas forças. A partir dessas orientações, começamos a compreender que olhar para o congá também pode ser um exercício de reflexão. Mais do que observar as imagens ali dispostas, podemos meditar sobre aquilo que sua organização nos ensina e sobre como essas forças se relacionam comos diferentes momentos da nossa própria caminhada.
Esse entendimento começa ao olhar o congá de baixo para cima, seguindo um caminho que passa pela Geração, Evolução, Lei, Justiça, Conhecimento, Amor e Fé. Não devemos compreender essas etapas como algo rígido ou separado. São processos que se encontram, se complementam e se repetem ao longo da vida.
Tudo começa na Geração, onde encontramos Iemanjá e Omolu. É o princípio de gerar: gerar a vida, gerar as cabeças e permitir que algo novo possa existir. E esse processo continua durante toda a nossa existência. Geramos ideias, escolhas, projetos, sentimentos, mudanças e novos ciclos. Aquilo que foi gerado segue para a Evolução, onde encontramos Obaluaê e Nanã. Evoluir é passar pelo tempo e permitir que as experiências nos transformem. É também nesse caminho que encontramos a sabedoria, tão presente nessa linha.
Algumas coisas somente conseguimos compreender depois de vivê-las. Nanã nos remete à ancestralidade, ao tempo, à maturidade e à sabedoria, enquanto Obaluaê nos mostra os processos de transformação necessários para continuar. Evoluir não significa não errar. Significa aprender com aquilo que vivemos, amadurecer e seguir adiante de uma maneira diferente. Na sequência, chegamos à Lei, com Ogum e Oyá Egunitá. Dizemos que Ogum abre os caminhos, remove obstáculos e oferece os recursos necessários para a realização. É a força do trabalho, da tecnologia, do conhecimento e das oportunidades. Mas ter um caminho aberto não significa que ele será percorrido. De nada adianta possuir oportunidades, capacidades e ferramentas se não houver força de vontade para agir. É aí que compreendemos a força de Oyá Egunitá, trazendo movimento, determinação e transformação. Ogum abre o caminho, mas somos nós que precisamos ter força para percorrê-lo.
Depois encontramos a Justiça, representada por Xangô e Iansã. Xangô nos ensina sobre equilíbrio, retidão e responsabilidade diante de nossas escolhas. Iansã, com seus ventos e tempestades, traz movimento e mudanças que muitas vezes nos tiram de situações nas quais estávamos acomodados. Nem toda tempestade vem somente para destruir. Algumas chegam para movimentar aquilo que estava parado e nos fazer crescer. Assim, vamos aprendendo que não controlamos tudo o que acontece em nossa caminhada, mas somos responsáveis pela maneira como escolhemos seguir diante daquilo que acontece.
Após tantas experiências, chegamos ao Conhecimento, onde encontramos Oxóssi e Obá. Não basta simplesmente passar pelas situações da vida; precisamos aprender com elas. O conhecimento também nasce da prática, da observação e da vivência. Tudo aquilo que aprendemos durante a caminhada chega, nesse momento, à hora de ser colocado em prática. Aos poucos, aquilo que aprendemos deixa de ser somente algo que sabemos e começa a fazer parte da maneira como escolhemos e agimos.
Quando esse conhecimento amadurece, começamos a compreender o Amor, representado por Oxum e Oxumaré. Percebemos que nossa caminhada não pode ser construída apenas pela força, pela justiça ou pelo conhecimento. O amor nos ensina a acolher, compreender, renovar e olhar para o outro e para nós mesmos de uma maneira diferente. É também através dele que começamos a enxergar nossas próprias experiências com mais compreensão. Quando aprendemos sobre o Amor, passamos a olhar de outra maneira para tudo aquilo que já atravessamos. As dificuldades, os caminhos que não deram certo, as tempestades, as correções e até mesmo nossos próprios erros passam a ser vistos não somente pelo sofrimento que produziram, mas também pelo aprendizado que deixaram.O Amor nos permite compreender sem deixar de reconhecer a responsabilidade. Amar não significa retirar a Lei ou a Justiça, mas aprender a enxergá-las com consciência e equilíbrio.
E é justamente quando conseguimos reunir aquilo que vivemos — a Geração, a Evolução e sua sabedoria, os caminhos da Lei, as experiências da Justiça, o Conhecimento adquirido e o aprendizado sobre o Amor — que começamos a olhar para nossa própria caminhada de outra maneira e alcançamos a Fé, onde encontramos Oxalufã, Oxaguiã e Oyá Tempo. A Fé, nesse entendimento, vai além de simplesmente acreditar. Ela nasce também da compreensão da nossa caminhada, daquilo que já atravessamos e da confiança necessária para continuar, mesmo quando ainda não sabemos o que encontraremos adiante. Oyá Tempo nos faz refletir justamente sobre os ciclos e sobre a importância de entendermos em qual momento da nossa caminhada estamos. Há momentos de gerar, momentos de amadurecer, momentos de caminhar e outros de transformar. Há situações que nos pedem Justiça, outras que nos trazem conhecimento, algumas que nos ensinam sobre o Amor e aquelas em que precisamos, principalmente, sustentar nossa Fé.
Talvez um dos grandes ensinamentos esteja justamente em aprender a reconhecer esses momentos. Muitas vezes queremos respostas imediatas para aquilo que estamos vivendo, quando talvez precisemos primeiro compreender qual processo a vida está nos convidando a atravessar. Nem sempre é hora de avançar. Algumas vezes é hora de aprender. Nem sempre é hora de colher; algumas vezes ainda estamos no momento de gerar. Existem momentos de transformação, de espera, de movimento, de conhecimento, de amor e de fé. Quando compreendemos isso, passamos a olhar para nossa caminhada de outra maneira. Entendemos que aquilo que vivemos hoje também participa da construção daquilo que seremos amanhã.
Os caminhos abertos precisam ser percorridos, as experiências precisam ser compreendidas e o conhecimento adquirido precisa encontrar lugar em nossas atitudes. E o caminho não termina quando chegamos à Fé. A vida continua e novos ciclos começam. Aquilo que hoje termina pode abrir espaço para algo novo ser gerado. Aquilo que hoje não compreendemos pode se tornar sabedoria com o tempo. E um caminho que hoje parece difícil pode nos conduzir a um aprendizado necessário. Assim seguimos: gerando, evoluindo, caminhando, escolhendo, aprendendo, amando e fortalecendo nossa Fé. Não para chegarmos a um ponto em que teremos aprendido tudo, mas para vivermos cada novo ciclo com um pouco mais de consciência, sabedoria e compreensão sobre nós mesmos, sobre o próximo e sobre os caminhos da vida.
Com isso, ao olhar e meditar sobre o congá, podemos também olhar para dentro de nós mesmos e nos perguntar:
Em qual momento dessa caminhada eu estou?
O que este momento está tentando me ensinar?
O que já foi colocado diante de mim e que ainda preciso aprender a utilizar?
O que precisa ser transformado para que eu possa continuar?
Por fim, não estaríamos somente observando os Orixás individualmente, mas buscando compreender como cada uma dessas forças se relaciona com os diferentes momentos da nossa existência e como, juntas, podem nos ensinar sobre o processo de viver, aprender e evoluir.
Axé!
Marina de Nanã Buruquê
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