A porção individual do destino
No pensamento iorubá tradicional, a palavra Orí significa literalmente “cabeça”. Porém, espiritualmente, esse termo é entendido como a porção individual do destino. Ou seja, a centelha divina que cada pessoa carrega. Essa crença é historicamente fundamentada, mas em termos simples: Orí é o “eu interior”, nosso centro de consciência; a parte do ser humano que escolhe seu destino antes do nascimento; a ligação direta entre o indivíduo e Olodumaré (o Ser Supremo). Sendo assim, para o africano iorubá antigo, Orí é o verdadeiro guia da vida e nenhum orixá pode interferir no destino escolhido pelo Orí de uma pessoa sem seu consentimento.
Em resumo: antes de nascer, o espírito da pessoa apresenta-se ao Ser Supremo, escolhendo seu destino e suas provações. Essa escolha se sela no Orí, que se torna guardião desse caminho. Desse modo, cada Orí é único e intransferível. As provações podem ser modificadas ao longo da existência, também por intermédio dos orixás, mas o destino não. O papel do Orí na vida prática é influenciar tudo que diz respeito ao percurso existencial. Respeitá-lo traz equilíbrio e prosperidade, enquanto ignorá-lo causa desarmonia e fracassos.
Sendo assim, era comum nas tradições antigas iorubanas cultuar o Orí antes de cultuar orixás, pois acreditavam que o ser humano era responsável por agir de forma alinhada ao seu Orí, fazendo escolhas coerentes e honrando seu próprio destino. Essas crenças e tradições chegaram até o Brasil através desses povos, no entanto, sofrendo modificações. No Candomblé, é comum o que chamam de “Iniciação ao Orixá”, uma preparação da cabeça para receber o mesmo, através de um assentamento que é, na essência, um culto ao Orí primeiro. Já na Umbanda, a lavagem de cabeça (Amaci), pode ser entendida da mesma maneira. Outro exemplo é quando se toma um banho de descarrego ou carrego e só se lava da cabeça para baixo, para preservar o Orí.
Agora vamos falar da relação entre Orí e Orixá, de acordo com as crenças dos mesmos povos. O Orí escolhe o destino e os Orixás auxiliam na realização desse destino, potencializando, protegendo e orientando o caminho que o Orí determinou. Os orixás não anulam e não substituem o Orí, não podendo também conceder além do que este permita. Essa hierarquia não diminui os orixás, pelo contrário, são eles que fornecem o axé e os mecanismos para que possamos viver nossa existência em plenitude, alinhados ao nosso propósito. Cada orixá, com sua força e energia firmadas, irão amplificar nossas capacidades e nos proteger de infortúnios evitáveis e energias destrutivas. De forma didática, é como se o Orí traçasse o mapa e o Orixá nos entregasse a bússola.
O que seria então seguir ou ignorar o Orí? Quando nego minhas aptidões naturais, vivo uma vida baseada em ilusões, repetindo os mesmos erros, sem ética e integridade, isso acarreta perda de energia “travamentos” existenciais mesmo sob a proteção dos orixás, não porque eles puniram, mas porque a pessoa se afastou de seu próprio eixo, ignorando o Orí. Já quando Orí e Orixá estão equilibrados, há um alinhamento natural nas escolhas de vida, capacidades espirituais e missão pessoal. As oportunidades surgem, o indivíduo sente ter propósito, a energia vital circula e a saúde espiritual se fortalece. E a maneira de trazer esse equilíbrio é cuidando do Orí, cultuando seus Orixás, mantendo a ética como princípio de vida e, buscando acima de tudo, autoconhecimento.
Descobrir os orixás que regem a sua coroa é isso: uma condução ao autoconhecimento. Essa descoberta vai despertar e organizar aspectos internos do indivíduo (ou pelo menos deveria). A relação com o orixá obriga o indivíduo a se observar, confrontar seus defeitos e virtudes, enfim, “organiza” seu caráter. O orixá não é você. Mas o caminho até o orixá ajuda você a entender quem você é.
Entender melhor os orixás, na prática, nos ajuda a cumprir nosso destino. Eles vão despertar virtudes com suas matrizes arquetípicas, como: Nanã com sua sabedoria ancestral, Oxóssi com sua inteligência estratégica ou Iemanjá trazendo estabilidade emocional. Essas qualidades vão facilitar o caminho do Orí. Lembrando que nenhuma provação é cancelada, mas através da força dos orixás, podemos ressignificá-las.
“Orixá não tira o peso do destino. Ele fortalece os ombros.”
Camila de Iemanjá
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